5.11.04

As coisas que eu sonho

No último sonho que tive soube a partir da primeira cena - e era uma cena - que estava a sonhar. Era Lisboa, não sei em que ano, e acontecia um terramoto. Na primeira cena eu estava dentro de uma nuvem ruidosa e movediça de pó e pedras. Suponho que sobrevivi. Depois? Depois a cidade estava destruída e, por qualquer razão que não consegui compreender, a organização política do país, como a conhecemos, tinha sucumbido. Havia uma anarquia generalizada e uma espécie de ilhas ou de guetos com uma organização muito precária, que garantiam segurança e serviços mínimos e que impunham regras absurdas àqueles que aceitavam viver lá. Fora dos guetos a violência era total. Esses guetos funcionavam em alguns quarteirões da cidade, aqueles que tinham permanecido de pé, e em redor dos quais se tinham erguido muros. Os guetos eram mais ou menos proibidos, também não consegui compreender porquê, uma vez que não me pareceu que existisse qualquer autoridade capaz de impor ou proibir fosse o que fosse. Seja como for, oficialmente, os guetos eram só empresas de recursos humanos. E quem quisesse ser admitido no gueto tinha de passar por um momento burocrático e fazer de conta que procurava emprego. Dentro dos guetos havia tudo o que há na vida, mas era tudo muito sujo e muito básico. Por exemplo, em duas assoalhadas degradadas, consideradas um luxo por terem paredes e tecto, viviam no mínimo seis pessoas. Havia pessoas a dormir nos patamares dos prédios. As pessoas eram grotescas, como num espectáculo de circo: tentavam continuar como se nada fosse e imitavam as formas de tudo o que tinha sido perdido, mas só as formas, mais nada. Como aquela alegria dos palhaços que é toda só pintada. Foi por isso que pensei nos circos. E as regras impostas ou eram medievais ou eram só absurdas. Não havia como confiar em ninguém. Lisboa estava irreconhecível, completamente destruída.

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