Ouvir Mirah, "C'mon Miracle". Lembrar-me que não ouvi decentemente "Over the Sun", de Shannon Wright: ouvir "Over the Sun" e sentir saudades de "Flightsafety" que, quando saíu, há cinco anos, ouvi durante milhares de quilómetros, quase sempre de noite ou de madrugada. Sim, e da cereja tripla que me aconteceu esta noite, continuo a preferir "Flightsafety", embora seja de todos o mais triste. Não é que eu tenha ouvido mal "Over The Sun", quando saíu, ouvi e não gostei, como esta noite. E a voz de Mirah, sim, dá ares à de Shannon Wrigth e a de Shannon Wright, sim, dá ares à de Mirah. E cantam mais ou menos da mesma maneira. Uma voz de melancolia arrastada. Algo assim. O mesmo ritmo, o mesmo tom, a mesma forma de sussurrar, a mesma forma de afirmar os versos. E gosto de ambas mas nenhuma me enche as medidas. Sou viciada no "Flightsafety" da Shannon Wright, de forma desagradável, contra a minha vontade. Quer nesse cd, de que gosto, quer no deste ano (e são os únicos dela que conheço), a voz de Shannon Wright tem esta capacidade de me embalar num torpor retrospectivo extremamente triste que, enquanto a voz dela soa, me parece absoluto. Mas, sendo extremamente triste, não chega a ser uma tristeza intensa, como aquela que sinto quando ouço, por exemplo, o "Pink Moon" de Nick Drake: fico mal, mas vale a pena cada segundo, e, por outro lado, fico bastante bem, porque é muito muito bom ouvir aquele disco. A Shannon Wright irrita-me porque nem isso. É um torpor, só. Como ficar com preguiça em frente à televisão às duas da manhã e não ser capaz de desligar o aparelho e ir dormir e continuar, durante meia-hora, a ver as televendas, já sem forças para, sequer, rir. Não sei porquê. Agora mesmo estou a ouvir os três cds: o de Mirah porque estou a gostar, os de Shannon Wright porque não consigo parar. Talvez deva ir dormir.
Ah, e a voz da Mirah dá ares mas não é a mesma coisa. É muito mais bonita.
Ah, e a voz da Mirah dá ares mas não é a mesma coisa. É muito mais bonita.