A minha ingenuidade é insondável. Até aos 20 e poucos anos, achava que toda a gente lia livros e os tinha em casa e/ou que frequentava semanalmente a biblioteca pública mais próxima. Até à mesma idade, também, ignorava que para algumas pessoas o dicionário é um livro didáctico juvenil que nunca deve ser consultado depois de concluído o 12.º ano e que a violação desta regra é uma vergonha (“quem consulta um dicionário é burro: se soubesse, não consultava” – ignorava também esta comovente explicação do tabu). Até começar a dar aulas, achava que todos os universitários sabiam escrever, que todos conheciam o mapa-múndi, e que tinham hábitos diários de leitura e de escrita desde a infância. Sem dúvida, a universidade abriu-me os horizontes, pois destruiu e libertou-me destas utopias.
Hoje descobri que é possível brincar com bonecas de forma perfeitamente estéril – durante quinze minutos, uma miúda com uns oito ou nove anos vestiu e despiu uma boneca, comentando com a mãe que outras roupas gostaria de coleccionar e porquê. Quando eu brincava com bonecas contava-lhes ou lia-lhes histórias. Depois, fazia-lhes perguntas sobre essas histórias. Como não abriam a boca, dava-lhes “Não Satisfaz” (tinham cadernetas). Se gostava mesmo de alguma, imaginava-a a dar respostas brilhantes e dava-lhe boa nota. Em dias menos sisudos, expunha-lhes teorias improváveis, irritava-me porque não as compreendiam e prendia-as (atirando-as para o vão de canto entre as estantes do meu quarto, de onde só poderiam sair a voar), não sem antes lhes gritar admoestações arrogantes, cobrindo-as de vergonha. Não serve isto para comparação: é uma constatação. Há lugares da vida onde, por qualquer razão, nunca vivi. De vez em quando, aterro, sempre de forma súbita. E espanto-me. Espanto-me muito.
30.12.04
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