" «Em França, equacionam problemas sem os resolver», dizia-me um dia um americano. - «Nós não os equacionamos, resolvemo-los.»
Resumia neste gracejo agressivo as acusações que sempre foram dirigidas ao pensamento especulativo: não ajuda a viver e até o dificulta. É necessário viver.
Actualmente, quando se ataca o existencialismo, não é, de ordinário, por se preferir uma outra filosofia definida, mas antes por se recusar todo o crédito à filosofia em geral.
Uma tal atitude é inata na sua raiz, repousa sobre opções que não são nem axiomas à priori nem leis experimentais, e interessa por isso, ela mesma, à filosofia.
Por exemplo, não é verdade que a massa dos contendores do existencialismo olhe o mundo com ingenuidade: eles apreendem-no através dos lugares comuns que constituem a Sabedoria das Nações, incoerente, contraditória; no entanto, essa sabedoria é uma visão do mundo que convém pôr em causa. E, se a submetermos a um exame sério, compreenderemos que não poderá satisfazer um espírito sério: é apenas por preguiça que tanta gente opta por ela.
Do mesmo modo, não pode reprovar-se a estética existencialista em nome de princípios absolutos, inexistentes, pois a literatura é aquilo que o homem a faz ser. De facto, opõe-se-lhe uma outra estética, geralmente um vago naturalismo que não possui garantia incondicionada. Um dos domínios em que se recusa mais intensamente a intrusão da filosofia é o domínio político: o realismo político não tem de se enlear, diz-se, em considerações abstractas. Mas, se olharmos mais de perto, aperceber-nos-emos rapidamente que os problemas políticos e morais estão indissoluvelmente ligados: trata-se, em qualquer caso, de fazer a história humana, de fazer o homem, e, já que o homem está por fazer, ele é interrogação: é essa interrogação que está, ao mesmo tempo, na origem da acção e da sua verdade.
Por detrás da política mais limitada, a mais obstinada, há sempre uma ética que se dissimula. Eis o que se descobre com evidência, quando se considera o caso concreto.
O problema do castigo que perturbou tantas consciências no dia seguinte à libertação não poderia resolver-se nem sobre um plano puramente político nem da acordo com com as normas de uma moral abstracta, escolhendo a caridade de preferência à justiça, o rigor de preferência à clemência, justificando todos, ao olhar dos outros homens, uma atitude global que é, precisamente, a atitude metafísica: põem-se inteiramente em causa em face do mundo inteiro. O homem não pode escapar à filosofia porque não pode escapar à sua liberdade: esta implica a recusa do dado e a interrogação. Eis o que estes ensaios se esforçam por mostrar. Não procuram definir uma vez mais o existencialismo, mas defendê-lo contra a acusação de frivolidade e de gratuidade que, de um modo frívolo e gratuito, se dirige de bom grado, desde Sócrates, a todo o pensamento organizado. Na verdade, não há divórcio entre filosofia e vida.
Toda a tentativa viva é uma escolha filosófica e a ambição de uma filosofia digna desse nome é ser um modo de vida que contenha em si a sua justificação."
Simone de Beauvoir - O existencialismo e a Sabedoria das Nações
Tradução de Manuel de Lima e Bruno da Ponte
Editorial Estampa, 2ª edição, 1967