13.1.05

Da indisciplina dos livros quando ninguém está a vê-los

Não imaginava o que se passaria na minha biblioteca, enquanto durmo, há uns dez anos. Por nenhuma razão especial, porque enquanto estive na faculdade deixei de viver numa casa com uma biblioteca separada e só há poucos anos, quando tive a minha casa, os livros voltaram a ter uma divisão só deles. Mas nos primeiros tempos não dei por nada. Agora, sim, agora começa a personalizar-se. Não é racional, as bibliotecas não são criaturas, os livros são objectos inertes. Todavia, é um diapasão. Eu gosto que ele afine onde a biblioteca, contra todas as expectativas, acorda quando eu adormeço. Mais ou menos tanto quanto gosto dos sonhos david lynchianos que frequentemente me acontecem.

Vai daí, lembrei-me de um texto de Vicent Bengelsdorf, de Junho de 2003, chamado “Momento Fantástico”. Estava intacto nos arquivos do Bicho Escala Estantes :) Este post está linkado para lá. Mas vou fazer copy+paste para aqui. Faz parte do meu espólio de memórias da blogosfera e assim corro menos riscos de o perder. É a função "Arca de Noé" do blog.

«Momento Fantástico

Há dois dias atrás ficámos, eu e uma colega, a tomar conta de 60 mil livros. Problemas de horários e folgas estiveram na origem da situação. Fiquei receoso, quando me apercebi. Mas, como quando conduzo, pensei que nada iria correr mal até chegar mais alguém. Só que afinal, como num pesadelo, tudo se precipitou para a catástrofe.

O meu medo de motins de livros já vem de longe. Claro que é normal ouvi-los bichanar de vez em quando e atirarem-se de prateleiras abaixo quando passamos. Também é, de certa forma, corriqueiro eles chamarem-nos quando estamos de costas ou dizerem numeros alatórios para nos fazerem enganar enquanto contamos a caixa. Mas o motim sempre esteve presente nas histórias que os livreiros antigos contam para nos assustar. Diz-se mesmo que o incêndio do Chiado terá tido origem num motim iniciado numa estante de direito de uma livraria próxima, na Rua do Carmo.

Nessa manhã eles estavam um pouco mais agitados do que costume. Eu ouvia um bichanar vindo de algumas prateleiras. Dirigia-me ao que me parecia o foco de palratório e dava pequenas pancadinhas das lombadas dos livros que logo se calavam. Mas, quando eu virava as costas, a coisa recomeçava, cada vez com mais intensidade. Depois de três vezes eu ter batido em lombadas, comecei a perceber que havia um padrão. Aquele pequeno burburinho estava centrado na estante dos autores portugueses, na prateleira que tem os livros cujos autores têm apelidos começados por 'T'.

Aproximei-me. As vozes começavam a ter um maior volume e também já estavam na prateleira de baixo, a que tem autores de 'S'. Foi quando tirei um dos livros do Manuel Tiago, que uma voz começou a gritar
- A mim, camaradas. A mim! Pela Revolução
e, enfim, tudo se precipitou.

Os livros do José Saramago começaram por atirar-se a mim, para logo depois iniciarem respostas, e uma espécie de manguitos, aos insultos dos livros do António Lobo Antunes. No momemto a seguir já as obras de ambos estavam engalfinhadas no chão, tentando os calhamaços Antunianos submenter os volumes mais ligeiros, e por isso mais ágeis, do Nóbel.

Na poesia havia canibalismo. Numa prateleira em que o Sonetos de Shakespeare estava rodeado por autores desconhecidos, daqueles que pagam balúrdios para fazer edições de 200 ou 300 exemplares que ninguém compra, estes arrancavam-lhe páginas para depois as colarem na sua própria encadernação. Houve um que foi ainda mais bárbaro e desatou a subir prateleiras, arrancando ora aqui, ora ali, páginas a monstros consagrados como Pessoa, Neruda e Pedro Mexia.

O Medo, do Al Berto, no meio da confusão encontrou Uma Cerveja no Inferno, do Rimbaud. Ficaram parados um em frente ao outro. Depois, num passo apressado, com o Rimbaud à frente e o português atrás dele a uma certa distância, desapareceram num canto escuro da sala.

Uma pilha enorme de pequenos, mas organizados, Chomskys atirou-se a uma pilha dos pesos-pesados Diplomacia, do Henry Kinssinger. Estes últimos, com uma manobra de diversão, conseguiram que uma outra pilha ao lado, se atirasse aos pobres Chomskys que acabaram esfarelados no chão.

Entretanto, começaram a caír livros das prateleiras mais altas. Os Suícidas tínham tomado a decisão de se atirarem colectivamente. Um Silvya Plath caindo em direcção ao chão de alcatifa, acompanhado de um A Confissão de Lúcio, de um O Velho e o Mar e de um as Ondas. Atiravam-se para logo depois subirem para repetir a cena uma e outra vez.


Quem se distanciou do motim foi um grupo de livros encabeçados pelo Sei Lá e um Danielle Steel. Eram um grupo de sete ou oito, junto aos meus pés, gritando de terror perante mais uma página rasgada, uma queda de uma pilha ou o barulho do papel a ser amachucado. E quando não gritavam, conspiravam umas contra as outras, denigrindo-se quando alguma virava a contra-capa.

A confusão era enorme e eu sentia que nada podia fazer. Felizmente não entrei em desespero e mantive a calma.

Até que chegou o gerente e a senhora da limpeza. Ele olhou para a amálgama de livros que voavam, se arrastavam pelo chão e lutavam entre si. Depois, gritou bem alto
- Vá, todos para as prateleiras, já!
com voz de tanta autoridade que se houvesse uma prateleira onde eu coubesse, não hesitaria em me meter lá também.

Mas os livros zombaram dele e continuaram o motim.
O gerente olhou então para a senhora da limpeza e disse
- Querem jogo duro, não lhe parece?
ao que a senhora da limpeza repondeu com um abanar afirmativo de cabeça e um olhar malicioso meio louco.
- Eu tenho aqui um lança-chamas e não tenho medo de o usar, ouviram?
enquanto acendia a ponta do lança-chamas com um isqueiro.
Os livros pararam por instantes e depois começaram a provocá-lo, avançado para ele e chamando-lhe nomes.
O gerente apontou para um Amor é Fodido, do Miguel Esteves Cardoso, e as chamas tomaram conta do papel. Enquanto o livro ardia no chão, depois de ainda ter avançado em chamas para um Hotel Lusitano, do Rui Zink, todos os outros começaram a recuar e dirigir-se para as prateleiras respectivas. Aos meus pés, um Maria Roma e um Cristina Caras Lindas, desmaiaram. Enquanto o resto gritava em puro pânico.

Eventualmente tudo se resolveu e, passados poucos minutos, já a loja estava a funcionar outra vez.»

Vincent Bengelsdorf – Bicho Escala Estantes - Junho de 2003

húmus

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