31.1.05

Silêncio

Há dias em que me é absolutamente insuportável a ideia de exposição de seja o que for. O dicionário define taciturno como sinónimo de silencioso, tristonho e sombrio, embora comece por fazê-lo corresponder a calado. Esta equiparação eu conheci desde miúda. Nunca se é um miúdo calado: está-se calado, triste ou é-se sombrio. Ou, em dias mais animados, é-se um miúdo esquisito, mal educado, antipático, armado em fino. Podia haver um único dicionário do silêncio e da timidez.

Mas isto pouco importa. E pouco importa porque eu passei os últimos anos a matar estátuas e temo ter ferido de forma fatal a minha própria estátua: deixei, de um dia para o outro, de acreditar em puto de transcendência ou de especialidade. Sou completamente destituída de causas, crenças, sonhos, ânimo. Nunca me ofendo porque o meu grau de seriedade para comigo mesma é nulo. Afastei-me demais. Não consigo levar a sério a existência.

No meu silêncio, seja onde for, há sempre isto na maior intensidade. Não é só no blog. As pessoas da minha vida sentem o mesmo nas minhas ausências de horas, dias, semanas. Consoante os afectos. Meses.

A complicar tudo isto passa-se que perco facilmente a noção do tempo. Anda sempre depressa demais ou devagar demais. Quando sou forçada a acordar, fico sempre espantada com as datas e as horas de todos.

Era fácil disfarçar isto. Bastava linkar uma coisa qualquer. Mas não me apeteceu. Estou a ressacar do "Saraband" (a ajudar à missa) e não me apeteceu.

húmus

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