20.1.05

São as capas que mais se parecem com portas. Abri outra hoje. A primeira frase nunca traz cheiro nenhum, é só a primeira frase de outro livro. Mas nunca sei como encontro-me de súbito num extremo conforto e a sensação que tenho é que os meus passos vão cessando, que caminham mais dificilmente num chão insuportavelmente fofo, que a claridade que chega das janelas se perde nos tapetes, e que o meu corpo, incapaz de movimentos, é convidado a sentar-se, recostar-se e permanecer. Por quanto tempo? Não sei, não quero saber. Dostoiévski é uma casa que eu amo, onde me sinto sempre melhor que em qualquer outro sítio.


(capa linkada para a Presença)

Já tenho pena que Fomá Fomitch só exista dentro de um livro e já duvido que este livro não seja a única realidade relevante. No fim do meu almoço, o general Ksakhótkin tinha morrido, uns dez minutos depois de puxar três vezes o cabelo à prestável Praskóvia Iliínitchna. O seu funeral foi magnífico.

Tardam estudos SÉRIOS a respeito do incomparável sentido de humor de Dostoiévski. Ou, pelo menos, tarda vê-lo reconhecido aos quatro ventos, como coisa inseparável do seu génio. Ainda não li um livro de Dostoiévski que não oferecesse, ao menos numa linha, feroz, desmedido, esplendoroso riso (adjectivos grandiosos nunca são em excesso no caso dostoievskiano).

Tenho agora os relógios todos a andar lentamente, numa conspiração mundial contra mim, para que o fim do trabalho tarde e, consequentemente, eu enlouqueça enquanto não posso voltar a ler. Isto ou é culpa do Governo demissionário ou do Presidente da República; minha é que não pode ser.

húmus

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