20.4.05

Artes decorativas

Às vezes apercebo-me que também entre as pessoas com quem cresci há aquelas para as quais a arte, afinal, se viu reduzida ao estatuto de colarinho, de cachucho de curso ou de capachinho. Que deixou de respirar e que se deixou de respirar nela. Imagino que seja da ordem natural das coisas para a generalidade das pessoas que pouco a pouco os quadros deixem de entrar na corrente sanguínea, que já não faça tropeçar na rua a sua lembrança, que passe a existir um tempo para trabalhar, separado de um tempo para a recriação e que a arte passe a fazer parte desse tempo, que se mantenha do lado de fora das coisas sérias e importantes, que passe a entrar sem surpresas pela porta de serviço, para a limpeza semanal, mais ou menos como os bibelots estão na parte de cima das televisões existentes nas casas que o Martin Parr fotografa, como peças decorativas cuja classificação e alcance determina o grau de provincianismo (sofisticado ou não) a que de facto se pertence e o status que ingenuamente se deseja.

Não é a arte. Não são os livros ou quem os assina, nem o cinema, nem o teatro, nem os discos, nem as fotografias, nada disso: é o mundo através dessas coisas e nós estarmos nele. É condição e é identidade. Não me podia ser mais indiferente que a generalidade das pessoas adormeça. Eu não conheço a generalidade das pessoas. Mas lixa-me quando acontece a um amigo meu. Devia haver um comunismo das capacidades intelectuais, devia surgir um Marx da inteligência, revoluções pelo mundo, a cabeça a quem a usa, algo assim, e a quem adormecesse devia ser retirado e distribuído o cérebro aos que não têm outro remédio além de extasiar perante telenovelas mexicanas. Era mais justo. A mim, olhar para dentro da cabeça vazia daqueles de quem gosto seria mais fácil que constatá-la ausente, estranha, finita. É o mesmo que ver cair uma árvore, secar um rio, extinguir-se uma espécie. É pobreza. Se a árvore era grande, frondosa, cheia de pássaros, então, é miséria. Não gosto.

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