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4.4.05

Um Homem é Um Homem

«O Teatro do Bairro Alto, em Lisboa, estreia no dia 7 de Abril uma comédia de Bertolt Brecht cuja acção se situa numa colónia imaginária. Nesta parábola política, três soldados do exército britânico, aterrorizados pelo seu sargento, são forçados a candidatar-se à substituição de um dos homens da sua secção de metralhadora que sofreu um pequeno acidente.
Depois de muitas ameaças e chantagens, o estivador Galy Gay é o escolhido para substituir o colega. O subtítulo da peça é "A transformação do estivador Galy Gay no acampamento militar de Kilkoa no ano de 1925" e resume todo o enredo. É que, para sobreviver, Galy muda de nome e transforma-se em soldado. Perde a identidade para se integrar no colectivo e dão-se outras modificações: Galy Gay torna-se chefe militar e o violento sargento é humilhado e passa a civil. Três horas de espectáculo com referências ao militarismo, à guerra e à relação entre os seres humanos.» - PÚBLICO.PT

13.1.05

você é um idiota

A Tralha#1

Busquei incessantemente nos meus arquivos um texto que já tinha lido há uns bons anos, e que era perfeito para expressar o que, da Esquerda à Direita, e de Norte a Sul, designamos por TRALHA. Finalmente encontrei-o espalmado pela biografia do Charles Bukowski - o livro de POEMAS de Bertolt Brecht da Editorial Presença, agora reeditado pela Campo das Letras.
Verão ser de muita utilidade pois quantas vezes o quisémos dizer mas nos faltou a forma e o conteúdo...experimentem, olhos nos olhos, é verdadeiramente terapêutico.


Sente-se.
Está sentado?
Encoste-se tranquilamente na cadeira.
Deve sentir-se bem instalado e descontraído.
Pode fumar.
É importante que me escute com muita atenção.
Ouve-me bem?
Tenho algo a dizer-lhe que vai interessá-lo.

Você é um idiota.
Está realmente a escutar-me?
Não há pois dúvida alguma de que me ouve com clareza e distinção?
Então
Repito: você é um idiota.
Um idiota
I como Isabel, D como Dinis, outro I como Irene,
O como Orlando, T como Teodoro, A como Ana.
Idiota.

Por favor não me interrompa.
Não deve interromper-me.
Você é um idiota.
Não diga nada. Não venha com evasivas.
Você é um idiota.
Ponto final.

Aliás não sou o único a dizê-lo.
A senhora sua mãe já o diz há muito tempo.
Você é um idiota.
Pergunte pois aos seus parentes
Se você não é um I.
Claro, que não lho dirão
Porque você se tornaria vingativo como todos os idiotas.
Mas
Os que o rodeiam já há muitos dias e anos sabem
que você é um idiota.

É típico que você o negue.
Isso mesmo: é típico que o I negue que o é.
Oh, como se torna difícil convencer um idiota de que é um I.
É francamente fatigante.

Como vê preciso de dizer mais uma vez
Que você é um I.
E no entanto não é desinteressante para você saber que o é
E no entanto é uma desvantagem para você não saber o que
toda a gente sabe.
Ah sim, acha você que tem exactamente as mesmas ideias
do seu parceiro.

Mas também ele é um idiota.
Faça favor, não se console a dizer que há outros I.
Você é um I.

De resto isso não é grave.
É assim que você poderá chegar aos 80 anos.
Em matéria de negócios é mesmo uma vantagem.
E então na política!
Não há dinheiro que o pague.
Na qualidade de I você não precisa de se preocupar
com mais nada.

E você é I.
(Fomidável, não acha?)

Você ainda não está ao corrente?
Quem há-de então dizer-lho?
O próprio Brecht acha que você é um I.
Por favor, Brecht, você que é um perito na matéria
dê a sua opinião.

Este homem é um I.
Nada mais.

Não basta tocar o disco uma só vez.

húmus

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