19.7.06
7.2.05
A volta do malandro
Nunca fiz um estudo sobre as músicas que me perseguem, não sei quantas são nem porque razão tomam a minha memória, totalitárias, em certos dias. O remédio é incerto: chegar a casa e dar-lhes absoluta prioridade. Pode passar-me a fixação em minutos, mas o mais certo é que a audição se prolongue no mínimo por uma semana.
Duas regressam periodicamente, cerejinhas, e hoje não me saem da cabeça. Há uma diferença entre procurar músicas e ser-se invadido por elas, como visitar e ser visitado. Também há intrusas, não desejadas. Não é, de todo, o caso. Gosto da urgência destas, por todos os sons, todas as coisas que dizem e que não dizem.
Homenagem ao malandro
Chico Buarque - Ópera do malandro - 1977-1978
Eu fui fazer um samba em homenagem
À nata da malandragem
Que conheço de outros carnavais
Eu fui à Lapa e perdi a viagem
Que aquela tal malandragem
Não existe mais
Agora já não é normal
O que dá de malandro regular, profissional
Malandro com aparato de malandro oficial
Malandro candidato a malandro federal
Malandro com retrato na coluna social
Malandro com contrato, com gravata e capital
Que nunca se dá mal
Mas o malandro pra valer
- não espalha
Aposentou a navalha
Tem mulher e filho e tralha e tal
Dizem as más línguas que ele até trabalha
Mora lá longe e chacoalha
Num trem da Central
A volta do malandro
Chico Buarque - Ópera do malandro (filme) - 1985
Eis o malandro na praça outra vez
Caminhando na ponta dos pés
Como quem pisa nos corações
Que rolaram dos cabarés
Entre deusas e bofetões
Entre dados e coronéis
Entre parangolés e patrões
O malandro anda assim de viés
Deixa balançar a maré
E a poeira assentar no chão
Deixa a praça virar um salão
Que o malandro é o barão da ralé.
