16.6.06
Perguntas freaks
14.6.06
As nuvens rasgaram-se todas ao mesmo tempo
As tílias escureceram, mas continuam a ser as árvores com os verdes mais variados e inquietos e aquelas em que é maior a diferença entre o que se vê fora e o que se vê dentro da árvore.
28.4.06
20.4.06
Em miúda via muito um slide com um campo cheio delas. Era parecido com isto:
11.4.06
5.4.06
31.3.06
A Terra é um lugar estranho, é um lugar tão estranho como um planeta qualquer a trezentos mil anos-luz de distância. Gostaria de me lembrar disto mais vezes.

28.3.06
Encontrei a capa. Calma, que é linda:

Acabados os 21 volumes, tentei Os Sete e detestei, pelo que passei à colecção d' As Gémeas no Colégio de Santa Clara. Só seis volumes. E no mesmo Verão a colecção do Colégio das Quatro Torres. Outros meros seis volumes. Entretanto eu era um ano mais velha e quando estávamos em casa da minha avó, no Norte, deixavam-me ir pela rua, sozinha, à livraria que ficava, fica ainda, na mesma rua, buscar mais um. Eu animava-me toda ao entrar nessa livraria, havia um ou dois degraus depois da porta de entrada, e cada passo meu me soava a livro-novo-dentro-de-momentos.
Acabadas estas colecções, tentei um sucedâneo português d'Os Cinco e odiei. Mas foi também uma experiência nova, senti-me defraudada, achei que não era justo usar-se o bom nome d'Os Cinco para vender uma coisa tão má. A rejeição foi tão absoluta que deixei a meio esse livro.
O meu volume preferido d'Os Cinco:

O que eu achava sempre mais ou menos inexplicável era que os miúdos, nas capas, fossem por vezes diferentes. Percebia que eram só capas e aberto um livro voltava a imaginá-los iguais ao volume anterior – mas mais crescidos –, mas no íntimo achava que aquilo não estava bem. Quanto à série televisiva, vi alguns episódios, mas de longe os livros continham mais e maiores prazeres a cada momento e antes de cada momento. Definitivamente, os Cinco eram para ler, não para ver.

23.3.06
30.9.05
O primeiro fantasma do Outono
Agora lembrei-me só da primeira vez que vi isto:

El Greco, La Fabula [1570/77; Prado]
La Fabula está no Prado a seguir a um umbral que separa duas salas. A sala que se abandona já é d'El Greco. Aquela em que se entra acaba a colecção e tem, à esquerda, saída para uma nave central do museu. La Fabula fica à direita, logo a seguir a esse umbral. É um quadro pequeno. Quase não se dá por ele. Ou corre-se o risco de não se dar por ele. Apaixonei-me assim que o vi. Comove-me imensamente. Se um dia todas as coisas que me fazem regressar a Madrid desaparecessem, ir ver La Fabula seria ainda assim razão bastante para continuar a lá ir. Aliás, neste momento, em que o quadro intensamente me submerge, não me ocorre razão melhor para o fazer.
6.5.05
18.4.05
A formiga vai à serra e o pé na neve prende.
- Ó neve, tu és tão forte, tão forte que o meu pé prendes?
- Eu, formiga, sou tão forte que o Sol me derrete.
- Ó Sol, tu és tão forte, que derretes a fria neve, a neve que meu pé prende?
- Eu, formiga, sou tão forte que a nuvem me esconde.
- Ó nuvem, tu és tão forte que escondes o quente Sol, o Sol que derrete a neve, a neve que meu pé prende?
- Eu, formiga, sou tão forte que o vento me afasta.
- Ó vento, tu és tão forte que afastas a escura nuvem, a nuvem que tapa o Sol, o Sol que derrete a neve, a neve que meu pé prende?
- Eu, formiga, sou tão forte que o muro me tapa.
- Ó muro, tu és tão forte que tapas o forte vento, o vento que afasta a nuvem, a nuvem que esconde o Sol, o Sol que derrete a neve, a neve que meu pé prende?
- Eu, formiga, sou tão forte que o rato me fura.
- Ó rato, tu és tão forte que furas o grosso muro, o muro que tapa o vento, o vento que afasta a nuvem, a nuvem que esconde o Sol, o Sol que derrete a neve, a neve que meu pé prende?
- Eu, formiga, sou tão forte que o gato me come.
- Ó gato tu és tão forte que comes o esperto rato, o rato que fura o muro, o muro que tapa o vento, o vento que afasta a nuvem, a nuvem que esconde o Sol, o Sol que derrete a neve, a neve que meu pé prende?
- Eu, formiga, sou tão forte, que o cão me morde.
- Ó cão tu és tão forte que mordes o astuto gato, o gato que come o rato, o rato que fura o muro, o muro que tapa o vento, o vento que afasta a nuvem, a nuvem que esconde o Sol, o Sol que derrete a neve, a neve que meu pé prende?
- Eu, formiga, sou tão forte que o pau me bate.
- Ó pau tu és tão forte que bates no forte cão, o cão que morde o gato, o gato que come o rato, o rato que fura o muro, o muro que tapa o vento, o vento que afasta a nuvem, a nuvem que esconde o Sol, o Sol que derrete a neve, a neve que meu pé prende?
- Eu, formiga, sou tão forte que o fogo me queima.
- Ó fogo tu és tão forte que queimas o pau, o pau que bate no cão, o cão que morde no gato, o gato que come o rato, o rato que fura o muro, o muro que tapa o vento, o vento que espalha a nuvem, a nuvem que esconde o Sol, o Sol que derrete a neve, a neve que meu pé prende?
- Eu, formiga, sou tão forte que a água me apaga.
-Ó água tu és tão forte que apagas o quente fogo, o fogo que queima o pau, o pau que bate no cão, o cão que morde no gato, o gato que come o rato, o rato que fura o muro, o muro que tapa o vento, o vento que espalha a nuvem, a nuvem que esconde o Sol, o Sol que derrete a neve, a neve que meu pé prende?
[Versão 1] - Eu, formiga, sou tão forte que um raio de Sol me leva.
Desde o alto até ao fundo, nada é forte neste mundo. FIM
[Versão 2] - Eu, formiga, sou tão forte que o touro me bebe.
- Ó touro tu és tão forte que bebes a fresca água, a água que apaga o fogo, o fogo que queima o pau, o pau que bate no cão, o cão que morde no gato, o gato que come o rato, o rato que fura o muro, o muro que tapa o vento, o vento que espalha a nuvem, a nuvem que tapa o Sol, o Sol que derrete a neve, a neve que meu pé prende?
- Eu, formiga, sou tão forte que o homem me mata.
- Ó homem, tu és tão forte que matas o bravo touro, o touro que bebe a água, a água que apaga o fogo, o fogo que queima o pau, o pau que bate no cão, o cão que morde no gato, o gato que come o rato, o rato que fura o muro, o muro que tapa o vento, o vento que espalha a nuvem, a nuvem que esconde o Sol, o Sol que derrete a neve, a neve que meu pé prende?
- Eu, formiga, sou tão forte que a mulher me governa.
- Ó mulher tu és tão forte que governas o homem, o homem que mata o touro, o touro que bebe a água, a água que apaga o fogo, o fogo que queima o pau, o pau que bate no cão, o cão que morde no gato, o gato que come o rato, o rato que fura o muro, o muro que tapa o vento, o vento que espalha a nuvem, a nuvem que tapa o Sol, o Sol que derrete a neve, a neve que meu pé prende?
- Sim.
E a mulher liberta a formiga. FIM
11.4.05
7.4.05
São Bento
(maior aqui)
(maior aqui)
A primeira fotografei-a porque ultimamente vejo lódãos em toda a parte (eu sei) e fiquei contente por encontrar um tão grande ontem à tarde, sobretudo porque me dei conta quando passava debaixo, naquela sensação fenomenal que assalta muitas vezes os distraídos: se-fosse-um-cão-mordia-me. O cheiro fez-me parar e olhar para ela, as folhas e o tronco confirmaram a suspeita. A segunda não sei o que é. Gosto da escala que impõe ao casario e à gente que passa.
Estas árvores estão em frente ao Palácio. Temi que os seguranças me aborrecessem quando levei a mão ao bolso para ir buscar a máquina. Mas correu tudo bem e no fim ainda consegui desviar os pés de regresso ao bom caminho, depois de terem, sozinhos, começado a andar na direcção da livraria parlamentar. Uma das minhas livrarias preferidas. Ah, pois é. Felizmente também fazem a Feira do Livro e uma vez por ano chega-me. Confesso que me faltam números raros dos Relatórios do Provedor à Assembleia da República e que isso me assombra o coração. E feliz, feliz a sério, só fico quando leio as conversas em família:
«Disse o grande governador de Moçambique António Enes num dos seus relatórios que explorar a bebedice do indígena era o principal objectivo da actividade agrícola e comercial da província. E acrescentou que «o indígena trabalhava para poder embriagar-se, e bebeu, bebe e há-de beber sempre».
É evidente que o indígena consumia, como ainda consome, especialmente bebidas cafreais, ou sejam as obtidas geralmente por fermentação de frutos, cereais, miolo de cana de açúcar, etc.; e são tão nocivas que em 1905 a Associação Comercial de Lourenço Marques propôs a proibição da sua importação ali, por arruinarem a saúde do indígena, e acentuou que era uma mixórdia sem nome, que, a pouco e pouco, envenenava a raça indígena.
Vozes: - Muito bem !
O Orador: - Também Freire de Andrade referiu, nos seus relatórios de 1907, 1909 e outros, os inconvenientes do uso de tais bebidas, dizendo que elas enfraqueciam, dia a dia, as raças indígenas, tão propunhas a embriaguez por vício inveterado. E manifestou-se no sentido de que, embora o indígena prefira o vinho, o uso ou abuso daquelas bebidas só podia ser impedido mediante uma fiscalização enérgica.
Ignoro se existem actualmente medidas gerais proibitivas ou restritivas do fabrico das bebidas cafreais e que sejam eficientes; mas sei que as há limitativas de venda dos vinho comuns, pois essa está quase impedida, pelo menos no distrito da Beira, onde é muito difícil obter licença ou alvará para venda de vinho a retalho; e, assim, não admira que o indígena, além das bebidas cafreais, chegue a ingerir álcool desnaturado, perfumes e outros ingredientes inconcebíveis. Uma espécie de cocktail indígena, talvez servido com jazz de batuque ...» (1955-01-27, Assembleia Nacional)
Como não gostar desta transparência? "o indígena trabalhava para poder embriagar-se, e bebeu, bebe e há-de beber sempre". Sempre que ruído em excesso se instala na comunicação social (cada vez mais frequente), em alturas de eleições e outras, vou ler debates da 2ª República. Estão lá a transparência do passado e, por comparação, a explicação de muitos tiques e achaques presentes... ou a demagogia quando não era vergonha explicada às crianças do futuro. É água mole em pedra dura, mas gosto de coisas de lenta apreensão, como esta da percepção dos estilos - saber como fala quem quer mandar em mim:
«O rapaz até que não é burro
tem é falta de uso
mete o nariz onde não é chamado
como um parafuso
ó meu rapaz, tu só és senhor
do nariz que é teu
aqui paro para explicar uma coisa:
é que o rapaz sou eu
e assim fala quem quer mandar em mim
e assim fala quem quer mandar em mim
e assim fala quem quer mandar em mim
não protestes
não desfiles
não contestes
não refiles
já joguei ao boxe, já toquei bateria (trapum)
p´ra ver se me livrava desta energia
nada feito, que arrelia
isto no fim não passa de uma fase
que passa com o uso
foi muita liberdade de uma vez
e o rapaz está confuso
agora é tempo de apertar com ele:
olha, acabou-se a farra
ai, ai que este país está de pantanas
e não há quem o varra
assim fala quem já me quis varrer
assim fala quem já me quis varrer
assim fala quem já me quis varrer
não protestes
não desfiles
não contestes
não refiles
já joguei ao boxe, já toquei bateria (trapum)
p'ra ver se me livrava desta energia
nada feito, que arrelia
durante algum tempo foi necessário
pôr o rapaz a uso
pô-lo a gritar sobre o prestigio pátrio
e o orgulho luso
agora só nos faltava ele querer
virar o feitiço
contra o feiticeiro que o pôs a render
é que nem pensar nisso
assim fala quem me pôs a render
assim fala quem me pôs a render
assim fala quem me pôs a render
não protestes
não desfiles
não contestes
não refiles
já joguei ao boxe, já toquei bateria (trapum)
p'ra ver se me livrava desta energia
nada feito, que arrelia»
6.4.05
Pátrias
Há alturas em que não consigo ouvir Zeca Afonso. São raras, mas acontecem. São alturas em que não estou sintonizada naquele tom e naquele eco. Normalmente, consigo ouvi-lo todos os meses do ano. Às vezes, muitas vezes, tenho saudades de certas músicas nos sítios e nos momentos mais variados. Ouço-as para dentro facilmente, na falta de um disco. Só elas me reconciliam com o silêncio e com o tempo. Chico Buarque, também.
O meu pai viciou-me, desde sempre, a acordar com som. Nos dias de semana, o da rádio, com notícias e músicas não escolhidas. Ao fim-de-semana, o som dos discos. Pode ser um disco qualquer de que eu goste. Se for Beethoven, que é muito velho na minha cabeça, acordo entusiasmada. Se for Zeca Afonso, acordo serena, como se a minha infância fosse o primeiro dia de um país. Se for Carlos Paredes, acordo feliz da vida e a lembrar-me do desejo absurdo de sofrer de Cesário Verde.
Confesso que no ano passado, na manhã em que ouvi a notícia da sua morte, antes de sair de casa, o pus a tocar. Não fazia sol nessa manhã e a praça estava cinzenta. Carlos Paredes também é pátria. Eu fui à janela ver o dia, estava um velho sentado num banco da praça, alguns pombos perto, e enquanto a música durou – ouvi nessa manhã o Canto do Rio, em silêncio, porque o meu corpo, muito mais o meu corpo do que a minha cabeça, não consentiria continuar sem isso – não passaram pessoas ou carros, ficaram só o velho e os pombos. E os lódãos, não esquecer os lódãos.
Outro tipo que de vez em quando me assalta, mas que não consigo ouvir para dentro com tanta facilidade, é Sérgio Godinho. Ah, isto vinha tudo a propósito de Sérgio Godinho, não me lembro de viver sem as canções de Sérgio Godinho (entrei, definitivamente, em fase de falar pelos cotovelos, o que em mim ocorre com a frequência dos eclipses e como os eclipses... é aqui que compreendo melhor Elisabeth, o silêncio de Elisabeth, a necessidade de silêncio de Elisabeth). O que eu não dava para ouvir agora mesmo Sérgio Godinho e Jorge Palma em Mudemos de Assunto, como aqui:
«Andas aí a partir corações
como quem parte um baralho de cartas
cartas de amor
escrevi-te eu tantas
às tantas, aos poucos
às tantas, aos poucos
eu fui percebendo
às tantas eu lá fui tacteando
às cegas eu lá fui conseguindo
às cegas eu lá fui abrindo os olhos
E nos teus olhos como espelhos partidos
quis inventar uma outra narrativa
até que um ai me chegou aos ouvidos
e era só eu a vogar à deriva
e um animal sempre foge do fogo
e eu mal gritei: fogo!
mal eu gritei: água!
que morro de sede
achei-me encostado à parede
gritando: Livrai-me da sede!
e o mar inteiro entrou na minha casa
E nos teus olhos inundados do mar
eu naveguei contra minha vontade
mas deixa lá, que este barco a viajar
há-de chegar à gare da sua cidade
e ao desembarque a terra será mais firme
há quem afirme
há quem assegure
que é depois da vida
que a gente encontra a paz prometida
por mim marquei-lhe encontro na vida
marquei-lhe encontro ao fim da tempestade
Da tempestade, o que se teve em comum
é aquilo que nos separa depois
e os barcos passam a ser um e um
onde uma vez quiseram quase ser dois
e a tempestade deixa o mar encrespado
por isso cuidado
mesmo muito cuidado
que é frágil o pano
que veste as velas do desengano
que nos empurra em novo oceano
frágil e resistente ao mesmo tempo
Mas isto é um canto
e não um lamento
já disse o que sinto
agora façamos o ponto
e mudemos de assunto
sim?»
2.4.05
E chove.
Por aqui, cozinha-se, conversa-se e desarruma-se a casa. A gata, à falta de sol no soalho, observa as operações culinárias em cima do frigorífico, faz esperas à porta da casa-de-banho para assustar quem sai, aninha-se e adormece no colo de quem se senta.
O leitor de cds está em repeat com estes discos:


28.3.05
I se-e-es I
A terna indiferença do mundo, que Meursault à beira da morte adorava, exige um mundo. E, no mínimo, Sísifo exige uma montanha, uma pedra, dois braços, duas pernas, força, dias com sol que o preservem, noites amenas. O absurdo exige um mundo isento de sentido, mas esse mundo é um mundo habitado, consciente: o absurdo tem de ser pensado. Ok, ok. Eu e os meus exageros. Mas que faço eu a estes anos todos de céu enquanto a Terra se consome? Sonho com Thalassa?
I see skies of cxzzchhh
«Qué, de min, fica quieto na montaña?
Ave de paso,
qué se me vai errante
no alén das garzas?»
- X. Seoane
O que eu não suporto na destruição do mundo é ter passado a questionar os itinerários dos poemas. A errância é coisa para um espaço sem paredes. A destruição é uma parede nova todos os dias. Um tecto por cima das noites. O mar num claustro. Beethoven condenado.






