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16.6.06

Perguntas freaks

Hora de almoço, bairro desconhecido, muito fashion, cheio de escritórios, fatos cinzentos, stress e centros comerciais que acabavam em zonas de refeição escuras. Afinei a dicção e fui simpática quando perguntei ao segurança de um prédio fashion se me podia indicar um restaurante com boa orientação solar.

14.6.06

As nuvens rasgaram-se todas ao mesmo tempo

E tinham muita água. Chove desde ontem à noite. Depois disto, Lisboa amanhecerá limpa, esplendorosa e perfumada, com a luz mais completamente impossível, improvável.

As tílias escureceram, mas continuam a ser as árvores com os verdes mais variados e inquietos e aquelas em que é maior a diferença entre o que se vê fora e o que se vê dentro da árvore.

10.5.06

O lago é assim



28.4.06

Está aqui um grande espaço vazio

E depois não acontece nada. Se acontecer alguma coisa, virá, mais tarde, um eclipse.



































































































































































20.4.06

Dias com flores


No Dias com árvores, um post do Paulo Araújo sobre as papoilas.

Em miúda via muito um slide com um campo cheio delas. Era parecido com isto:



(foto daqui)


As papoilas têm vermelho impressionante, mas o meu slide era um bocado mais amarelo do que devia ser, o que fazia as papoilas parecerem da cor de um fogo vermelho.

11.4.06

O céu sobre Beja


Post do Pedro, aqui, com as restantes fotografias.

5.4.06



Teoria da conspiração







As tílias existem com um único propósito: fazer com que deixemos de saber onde pomos os pés.














(btw: quinze dias)

31.3.06

Inabitável, a terra áspera


Ando cativa do deserto do Namib. Vi uma fotografia de Eric Robert, acho que aérea, mas tirada a uma altitude relativamente baixa, numa Grande Reportagem de 1992. A fotografia – inserida numa reportagem de várias páginas sobre a febre dos diamantes na Namíbia, no início do século XX, e as aventuras dos exploradores no deserto – mostra uma vasta extensão de dunas e depois, de repente, o mar. Quando, no início do mês, reorganizei a biblioteca, dei-me ao trabalho de reler os índices de 12 anos de GRs em busca de reportagens sobre o Saara; entretanto, acabei por pôr também de lado as revistas que versavam sobre outros desertos e na rede, ou melhor, na peneira ficou a Namíbia. Li a reportagem, deixei-me olhar para a fotografia o tempo que me apeteceu, li a caixa sobre a Costa do Esqueletos, vi outra vez a fotografia e fechei a revista. Fui ler outros números, passaram-se dias, passou-se, em rigor, um mês inteiro, o monte de GRs antigas e arenosas ficou em sossego, abri livros outra vez citadinos, outra vez com paredes, compreendi que regressarei inevitavelmente ao Saara, pensei que preciso regressar a Cuba, oscilei entre esses e mais meia dúzia de destinos, fui feliz na indecisão e na distância, esqueci-me depois do que estava longe, até que, há três ou quatro dias, ao adormecer, comecei a lembrar-me, sem querer, da fotografia do deserto do Namib. Ser-se perseguido por uma fotografia é um estado de graça num tempo em que há milhões de fotografias à disposição a cada instante, por isso, quando voltei a abrir a revista para tentar perceber porque razão a imagem se tem insinuado, senti que aquele era um gesto de sorte. A fotografia oprime-me e, todavia, acho que nunca vi nada tão desejável. E o que mais me incomoda e o que mais me seduz, compreendi-o ao fim de um bom bocado a olhá-la, não se vê: entre o mar e o deserto não existe uma faixa de areia que me faça pensar ou reconhecer ou imaginar uma praia.

A Terra é um lugar estranho, é um lugar tão estranho como um planeta qualquer a trezentos mil anos-luz de distância. Gostaria de me lembrar disto mais vezes.


28.3.06

Esses livros adoráveis


Andam a falar da Enid Blyton e d'Os Cinco. Pronto, li os blogs, pensei nisso, mas agora é que entrei em modo memória. Quando eu era miúda a minha mãe, que pretendia que eu passasse a ler livros com poucas ilustrações, também ocasionais e secundárias, levou-me um dia à livraria e comprou-me o primeiro volume d'Os Cinco, que se chamava «Os Cinco na Ilha do tesouro».

Encontrei a capa. Calma, que é linda:



Esta capa é especialmente emocionante visto que – e dou-me conta disso agora – nela está de alguma forma gravada a intensidade da expectativa que senti quando a vi, só comparável ao prazer de leitura que se seguiu. Se eu quiser, lembro-me do cheiro deste primeiro livro. Também li os outros. Não os tive todos ao mesmo tempo. Havia, por vezes, quando eu tinha tempo e podia ser, o ritual de ir com os meus pais a uma livraria para comprar mais um, não quando o último se estava a acabar, mas quando já estava acabado. O que tornava o ritual ainda mais apetecível dado eu já precisar muito de outro.

Acabados os 21 volumes, tentei Os Sete e detestei, pelo que passei à colecção d' As Gémeas no Colégio de Santa Clara. Só seis volumes. E no mesmo Verão a colecção do Colégio das Quatro Torres. Outros meros seis volumes. Entretanto eu era um ano mais velha e quando estávamos em casa da minha avó, no Norte, deixavam-me ir pela rua, sozinha, à livraria que ficava, fica ainda, na mesma rua, buscar mais um. Eu animava-me toda ao entrar nessa livraria, havia um ou dois degraus depois da porta de entrada, e cada passo meu me soava a livro-novo-dentro-de-momentos.

Acabadas estas colecções, tentei um sucedâneo português d'Os Cinco e odiei. Mas foi também uma experiência nova, senti-me defraudada, achei que não era justo usar-se o bom nome d'Os Cinco para vender uma coisa tão má. A rejeição foi tão absoluta que deixei a meio esse livro.

O meu volume preferido d'Os Cinco:




Ainda sinto uns arrepios, agora. Lembro-me de um acampamento à beira de um lago de águas negras que, por força da descrição, eu sentia muito quietas e muito frias. Li o livro todo a sentir frio e nunca o frio foi tão bom. E se penso nisso, a estranha quietude que por vezes as árvores assumem, fora dos livros, foi-me dada a conhecer na descrição das águas desse lago e da forma como o barco dos Cinco deslizava sobre elas. É impressionante como isto anda tudo ligado.

O que eu achava sempre mais ou menos inexplicável era que os miúdos, nas capas, fossem por vezes diferentes. Percebia que eram só capas e aberto um livro voltava a imaginá-los iguais ao volume anterior – mas mais crescidos –, mas no íntimo achava que aquilo não estava bem. Quanto à série televisiva, vi alguns episódios, mas de longe os livros continham mais e maiores prazeres a cada momento e antes de cada momento. Definitivamente, os Cinco eram para ler, não para ver.

Depois os autores diversificaram-se e eu cresci, ler continua a ser bom, mas às vezes sinto falta da sensação inicial de estar de férias, não ter quaisquer responsabilidades e sentir-me desaparecer dentro das histórias, enquanto tudo à minha volta também desaparece. Às vezes a noite caía e eu só me dava conta quando os olhos começavam a doer. Isso acontece agora, também, durante a leitura. Mas na infância a única coisa que eu tinha de fazer era acender a luz. Ou, melhor ainda, ouvia ao longe a voz do meu pai, que na verdade até estava perto, Então estás a ler às escuras? Ai esses olhos!, e ele acendia a luz. O livro continuava. Agora, quando a noite chega, acendo a luz, fecho o livro, penso no jantar e o dia seguinte é dia de trabalho. Não está de todo mal, mas está menos bem.

É por causa disso que eu às vezes tiro férias por dá cá aquela palha, férias que ninguém compreende, só eu. Fecho-me em casa, abro livros e desapareço - uma ilusão que começou com Os Cinco.





Edit: Entretanto, o João enviou-me uma prenda:




São fotografias da primeira edição inglesa do volume 14, intitulado "Five Have Plenty of Fun", de 1955, que o João comprou no alfarrabista mecânico. Em Portugal o mesmo volume chama-se "Os Cinco e os Raptores"... está tudo linkado no número catorze. Ontem tinha dito ao João que já não me lembrava desta aventura mas o resumo, no site Mistério Juvenil, deu-me um empurrão. É um livro que se passa num grande e sinistro castelo de paredes muito grossas, castelo esse que é rodeado por um pântano ou outra espécie de área de transposição difícil. Há muito nevoeiro, nessa história, e um cheiro desagradável a lodo. Se é mesmo o que estou a pensar essa aventura com os raptores foi uma das mais ricas em passagens secretas, túneis e escadas a subir e a descer por dentro de paredes.

23.3.06

Outra casa

Todos os anos, nesta altura, em algum momento, o ar da minha casa altera-se. Abro uma porta e fico quieta a respirar com cuidado. Depois vou à janela confirmar que os lódãos têm folhas novas. Não são ainda muitas, a distribuição pelas árvores não é ainda uniforme nem harmoniosa. Mas a casa transfigura-se e eu mudo-me: durante as próximas semanas, cada minuto será vivido na evidência da respiração da terra.

camponesa pragmática

30.9.05

O primeiro fantasma do Outono

Há uma espécie de lei inexplicável no meu corpo: à medida que o sol desaparece, preciso mais e mais de pintura. Quando os dias estiverem mesmo curtos, é provável que retome a pilhagem do Thyssen-Bornemisza (interrompida aqui), se outras entretanto não forem inauguradas.

Agora lembrei-me só da primeira vez que vi isto:


El Greco, La Fabula [1570/77; Prado]

La Fabula está no Prado a seguir a um umbral que separa duas salas. A sala que se abandona já é d'El Greco. Aquela em que se entra acaba a colecção e tem, à esquerda, saída para uma nave central do museu. La Fabula fica à direita, logo a seguir a esse umbral. É um quadro pequeno. Quase não se dá por ele. Ou corre-se o risco de não se dar por ele. Apaixonei-me assim que o vi. Comove-me imensamente. Se um dia todas as coisas que me fazem regressar a Madrid desaparecessem, ir ver La Fabula seria ainda assim razão bastante para continuar a lá ir. Aliás, neste momento, em que o quadro intensamente me submerge, não me ocorre razão melhor para o fazer.

6.5.05

O melhor do Campo Santana* é ser esplendoroso.






___________
* A seguir ao Doutor, evidentemente.

28.4.05

Quem se lembra do Geronte?

18.4.05

A formiga vai à serra e o pé na neve prende.

- Ó neve, tu és tão forte, tão forte que o meu pé prendes?
- Eu, formiga, sou tão forte que o Sol me derrete.

- Ó Sol, tu és tão forte, que derretes a fria neve, a neve que meu pé prende?
- Eu, formiga, sou tão forte que a nuvem me esconde.

- Ó nuvem, tu és tão forte que escondes o quente Sol, o Sol que derrete a neve, a neve que meu pé prende?
- Eu, formiga, sou tão forte que o vento me afasta.

- Ó vento, tu és tão forte que afastas a escura nuvem, a nuvem que tapa o Sol, o Sol que derrete a neve, a neve que meu pé prende?
- Eu, formiga, sou tão forte que o muro me tapa.

- Ó muro, tu és tão forte que tapas o forte vento, o vento que afasta a nuvem, a nuvem que esconde o Sol, o Sol que derrete a neve, a neve que meu pé prende?
- Eu, formiga, sou tão forte que o rato me fura.

- Ó rato, tu és tão forte que furas o grosso muro, o muro que tapa o vento, o vento que afasta a nuvem, a nuvem que esconde o Sol, o Sol que derrete a neve, a neve que meu pé prende?
- Eu, formiga, sou tão forte que o gato me come.

- Ó gato tu és tão forte que comes o esperto rato, o rato que fura o muro, o muro que tapa o vento, o vento que afasta a nuvem, a nuvem que esconde o Sol, o Sol que derrete a neve, a neve que meu pé prende?
- Eu, formiga, sou tão forte, que o cão me morde.

- Ó cão tu és tão forte que mordes o astuto gato, o gato que come o rato, o rato que fura o muro, o muro que tapa o vento, o vento que afasta a nuvem, a nuvem que esconde o Sol, o Sol que derrete a neve, a neve que meu pé prende?
- Eu, formiga, sou tão forte que o pau me bate.

- Ó pau tu és tão forte que bates no forte cão, o cão que morde o gato, o gato que come o rato, o rato que fura o muro, o muro que tapa o vento, o vento que afasta a nuvem, a nuvem que esconde o Sol, o Sol que derrete a neve, a neve que meu pé prende?
- Eu, formiga, sou tão forte que o fogo me queima.

- Ó fogo tu és tão forte que queimas o pau, o pau que bate no cão, o cão que morde no gato, o gato que come o rato, o rato que fura o muro, o muro que tapa o vento, o vento que espalha a nuvem, a nuvem que esconde o Sol, o Sol que derrete a neve, a neve que meu pé prende?
- Eu, formiga, sou tão forte que a água me apaga.

-Ó água tu és tão forte que apagas o quente fogo, o fogo que queima o pau, o pau que bate no cão, o cão que morde no gato, o gato que come o rato, o rato que fura o muro, o muro que tapa o vento, o vento que espalha a nuvem, a nuvem que esconde o Sol, o Sol que derrete a neve, a neve que meu pé prende?
[Versão 1] - Eu, formiga, sou tão forte que um raio de Sol me leva.

Desde o alto até ao fundo, nada é forte neste mundo. FIM

[Versão 2] - Eu, formiga, sou tão forte que o touro me bebe.

- Ó touro tu és tão forte que bebes a fresca água, a água que apaga o fogo, o fogo que queima o pau, o pau que bate no cão, o cão que morde no gato, o gato que come o rato, o rato que fura o muro, o muro que tapa o vento, o vento que espalha a nuvem, a nuvem que tapa o Sol, o Sol que derrete a neve, a neve que meu pé prende?
- Eu, formiga, sou tão forte que o homem me mata.

- Ó homem, tu és tão forte que matas o bravo touro, o touro que bebe a água, a água que apaga o fogo, o fogo que queima o pau, o pau que bate no cão, o cão que morde no gato, o gato que come o rato, o rato que fura o muro, o muro que tapa o vento, o vento que espalha a nuvem, a nuvem que esconde o Sol, o Sol que derrete a neve, a neve que meu pé prende?
- Eu, formiga, sou tão forte que a mulher me governa.

- Ó mulher tu és tão forte que governas o homem, o homem que mata o touro, o touro que bebe a água, a água que apaga o fogo, o fogo que queima o pau, o pau que bate no cão, o cão que morde no gato, o gato que come o rato, o rato que fura o muro, o muro que tapa o vento, o vento que espalha a nuvem, a nuvem que tapa o Sol, o Sol que derrete a neve, a neve que meu pé prende?
- Sim.

E a mulher liberta a formiga. FIM

11.4.05

A Peste > O descarnamento

Vá para o descarnamento. Vá directamente, sem passar pela casa de partida e sem receber 2000$00.

7.4.05

São Bento


(maior aqui)


(maior aqui)

A primeira fotografei-a porque ultimamente vejo lódãos em toda a parte (eu sei) e fiquei contente por encontrar um tão grande ontem à tarde, sobretudo porque me dei conta quando passava debaixo, naquela sensação fenomenal que assalta muitas vezes os distraídos: se-fosse-um-cão-mordia-me. O cheiro fez-me parar e olhar para ela, as folhas e o tronco confirmaram a suspeita. A segunda não sei o que é. Gosto da escala que impõe ao casario e à gente que passa.

Estas árvores estão em frente ao Palácio. Temi que os seguranças me aborrecessem quando levei a mão ao bolso para ir buscar a máquina. Mas correu tudo bem e no fim ainda consegui desviar os pés de regresso ao bom caminho, depois de terem, sozinhos, começado a andar na direcção da livraria parlamentar. Uma das minhas livrarias preferidas. Ah, pois é. Felizmente também fazem a Feira do Livro e uma vez por ano chega-me. Confesso que me faltam números raros dos Relatórios do Provedor à Assembleia da República e que isso me assombra o coração. E feliz, feliz a sério, só fico quando leio as conversas em família:

«Disse o grande governador de Moçambique António Enes num dos seus relatórios que explorar a bebedice do indígena era o principal objectivo da actividade agrícola e comercial da província. E acrescentou que «o indígena trabalhava para poder embriagar-se, e bebeu, bebe e há-de beber sempre».
É evidente que o indígena consumia, como ainda consome, especialmente bebidas cafreais, ou sejam as obtidas geralmente por fermentação de frutos, cereais, miolo de cana de açúcar, etc.; e são tão nocivas que em 1905 a Associação Comercial de Lourenço Marques propôs a proibição da sua importação ali, por arruinarem a saúde do indígena, e acentuou que era uma mixórdia sem nome, que, a pouco e pouco, envenenava a raça indígena.
Vozes: - Muito bem !
O Orador: - Também Freire de Andrade referiu, nos seus relatórios de 1907, 1909 e outros, os inconvenientes do uso de tais bebidas, dizendo que elas enfraqueciam, dia a dia, as raças indígenas, tão propunhas a embriaguez por vício inveterado. E manifestou-se no sentido de que, embora o indígena prefira o vinho, o uso ou abuso daquelas bebidas só podia ser impedido mediante uma fiscalização enérgica.
Ignoro se existem actualmente medidas gerais proibitivas ou restritivas do fabrico das bebidas cafreais e que sejam eficientes; mas sei que as há limitativas de venda dos vinho comuns, pois essa está quase impedida, pelo menos no distrito da Beira, onde é muito difícil obter licença ou alvará para venda de vinho a retalho; e, assim, não admira que o indígena, além das bebidas cafreais, chegue a ingerir álcool desnaturado, perfumes e outros ingredientes inconcebíveis. Uma espécie de cocktail indígena, talvez servido com jazz de batuque ...
» (1955-01-27, Assembleia Nacional)

Como não gostar desta transparência? "o indígena trabalhava para poder embriagar-se, e bebeu, bebe e há-de beber sempre". Sempre que ruído em excesso se instala na comunicação social (cada vez mais frequente), em alturas de eleições e outras, vou ler debates da 2ª República. Estão lá a transparência do passado e, por comparação, a explicação de muitos tiques e achaques presentes... ou a demagogia quando não era vergonha explicada às crianças do futuro. É água mole em pedra dura, mas gosto de coisas de lenta apreensão, como esta da percepção dos estilos - saber como fala quem quer mandar em mim:

«O rapaz até que não é burro
tem é falta de uso
mete o nariz onde não é chamado
como um parafuso
ó meu rapaz, tu só és senhor
do nariz que é teu
aqui paro para explicar uma coisa:
é que o rapaz sou eu
e assim fala quem quer mandar em mim
e assim fala quem quer mandar em mim
e assim fala quem quer mandar em mim
não protestes
não desfiles
não contestes
não refiles
já joguei ao boxe, já toquei bateria (trapum)
p´ra ver se me livrava desta energia
nada feito, que arrelia

isto no fim não passa de uma fase
que passa com o uso
foi muita liberdade de uma vez
e o rapaz está confuso
agora é tempo de apertar com ele:
olha, acabou-se a farra
ai, ai que este país está de pantanas
e não há quem o varra
assim fala quem já me quis varrer
assim fala quem já me quis varrer
assim fala quem já me quis varrer
não protestes
não desfiles
não contestes
não refiles
já joguei ao boxe, já toquei bateria (trapum)
p'ra ver se me livrava desta energia
nada feito, que arrelia

durante algum tempo foi necessário
pôr o rapaz a uso
pô-lo a gritar sobre o prestigio pátrio
e o orgulho luso
agora só nos faltava ele querer
virar o feitiço
contra o feiticeiro que o pôs a render
é que nem pensar nisso
assim fala quem me pôs a render
assim fala quem me pôs a render
assim fala quem me pôs a render
não protestes
não desfiles
não contestes
não refiles
já joguei ao boxe, já toquei bateria (trapum)
p'ra ver se me livrava desta energia
nada feito, que arrelia»

6.4.05

Pátrias

Há alturas em que não consigo ouvir Zeca Afonso. São raras, mas acontecem. São alturas em que não estou sintonizada naquele tom e naquele eco. Normalmente, consigo ouvi-lo todos os meses do ano. Às vezes, muitas vezes, tenho saudades de certas músicas nos sítios e nos momentos mais variados. Ouço-as para dentro facilmente, na falta de um disco. Só elas me reconciliam com o silêncio e com o tempo. Chico Buarque, também.

O meu pai viciou-me, desde sempre, a acordar com som. Nos dias de semana, o da rádio, com notícias e músicas não escolhidas. Ao fim-de-semana, o som dos discos. Pode ser um disco qualquer de que eu goste. Se for Beethoven, que é muito velho na minha cabeça, acordo entusiasmada. Se for Zeca Afonso, acordo serena, como se a minha infância fosse o primeiro dia de um país. Se for Carlos Paredes, acordo feliz da vida e a lembrar-me do desejo absurdo de sofrer de Cesário Verde.

Confesso que no ano passado, na manhã em que ouvi a notícia da sua morte, antes de sair de casa, o pus a tocar. Não fazia sol nessa manhã e a praça estava cinzenta. Carlos Paredes também é pátria. Eu fui à janela ver o dia, estava um velho sentado num banco da praça, alguns pombos perto, e enquanto a música durou – ouvi nessa manhã o Canto do Rio, em silêncio, porque o meu corpo, muito mais o meu corpo do que a minha cabeça, não consentiria continuar sem isso – não passaram pessoas ou carros, ficaram só o velho e os pombos. E os lódãos, não esquecer os lódãos.

Outro tipo que de vez em quando me assalta, mas que não consigo ouvir para dentro com tanta facilidade, é Sérgio Godinho. Ah, isto vinha tudo a propósito de Sérgio Godinho, não me lembro de viver sem as canções de Sérgio Godinho (entrei, definitivamente, em fase de falar pelos cotovelos, o que em mim ocorre com a frequência dos eclipses e como os eclipses... é aqui que compreendo melhor Elisabeth, o silêncio de Elisabeth, a necessidade de silêncio de Elisabeth). O que eu não dava para ouvir agora mesmo Sérgio Godinho e Jorge Palma em Mudemos de Assunto, como aqui:



«Andas aí a partir corações
como quem parte um baralho de cartas
cartas de amor
escrevi-te eu tantas
às tantas, aos poucos
às tantas, aos poucos
eu fui percebendo
às tantas eu lá fui tacteando
às cegas eu lá fui conseguindo
às cegas eu lá fui abrindo os olhos

E nos teus olhos como espelhos partidos
quis inventar uma outra narrativa
até que um ai me chegou aos ouvidos
e era só eu a vogar à deriva
e um animal sempre foge do fogo
e eu mal gritei: fogo!
mal eu gritei: água!
que morro de sede
achei-me encostado à parede
gritando: Livrai-me da sede!
e o mar inteiro entrou na minha casa

E nos teus olhos inundados do mar
eu naveguei contra minha vontade
mas deixa lá, que este barco a viajar
há-de chegar à gare da sua cidade
e ao desembarque a terra será mais firme
há quem afirme
há quem assegure
que é depois da vida
que a gente encontra a paz prometida
por mim marquei-lhe encontro na vida
marquei-lhe encontro ao fim da tempestade

Da tempestade, o que se teve em comum
é aquilo que nos separa depois
e os barcos passam a ser um e um
onde uma vez quiseram quase ser dois
e a tempestade deixa o mar encrespado
por isso cuidado
mesmo muito cuidado
que é frágil o pano
que veste as velas do desengano
que nos empurra em novo oceano
frágil e resistente ao mesmo tempo

Mas isto é um canto
e não um lamento
já disse o que sinto
agora façamos o ponto
e mudemos de assunto
sim?»

2.4.05

E chove.

Por aqui, cozinha-se, conversa-se e desarruma-se a casa. A gata, à falta de sol no soalho, observa as operações culinárias em cima do frigorífico, faz esperas à porta da casa-de-banho para assustar quem sai, aninha-se e adormece no colo de quem se senta.

O leitor de cds está em repeat com estes discos:





28.3.05

I se-e-es I

A terna indiferença do mundo, que Meursault à beira da morte adorava, exige um mundo. E, no mínimo, Sísifo exige uma montanha, uma pedra, dois braços, duas pernas, força, dias com sol que o preservem, noites amenas. O absurdo exige um mundo isento de sentido, mas esse mundo é um mundo habitado, consciente: o absurdo tem de ser pensado. Ok, ok. Eu e os meus exageros. Mas que faço eu a estes anos todos de céu enquanto a Terra se consome? Sonho com Thalassa?

I see skies of cxzzchhh

«Qué, de min, fica quieto na montaña?
Ave de paso,
qué se me vai errante
no alén das garzas?»
-
X. Seoane

O que eu não suporto na destruição do mundo é ter passado a questionar os itinerários dos poemas. A errância é coisa para um espaço sem paredes. A destruição é uma parede nova todos os dias. Um tecto por cima das noites. O mar num claustro. Beethoven condenado.

húmus

a alcoviteira andarilha a luz nas telhas a noite dança alec soth alex maclean alexandra boulat alfredo cunha alice in chains allo allo andou prometeu a roubar fogo aos deuses para isto andré kertész andrew wyeth antibalas anywhen arizona amp and alternator armi e danny arthur dove as árvores aulas de CC bach bartleby beatles bergman bill evans bompovo brad mehldau brecht bunny suicides calexico camponesa camus carl sandburg carlos paredes carta topográfica de lisboa caspar david friedrich cassandra wilson cato salsa experience centenário do grande temporal centrifugação blogger charlie parker chico buarque christian schad christopher r. harris cig harvey coisas que ninguém diz e que toda a gente sabe dan nelken daniel blaufuks dave holland dave mckean decisions deus inventou o sexo diário de bordo ditty bops divas dostoievsky dr. jazz dylan thomas e. e. cummings el greco ella fitzgerald elvis e anita emil nolde enid blyton eugene smith eugénio de andrade evil genius fausto bordalo dias fenómenos paranormais francis bacon françois clouet fredrik marsh future bible heroes gaivota galiza garcía lorca geografia georges gonon-guillermas gilbert and george gógol e kureishi gonçalo m. tavares góngora HAL hans baldung grien hans cranach henrik ibsen hopper horas da ciência howe gelb hp5 húmus hyeyoung kim i'm going away to wear you off my mind ironia natalícia jan van eyck jason moran jerry lodriguss jesus na comida jornal do insólito josé barata moura josé carlos fernandes josé gomes ferreira josé mário branco josé tolentino mendonça Kafka sumiu keith jarrett keith johnson ken rosenthal king oliver's creole jazz band laura veirs lei bloguística leitura de sobrevivência león ferrari lewis carroll load "" louis jordan madrid maelesskircher manuel alvarez bravo maria schneider mario abbatepaolo martin parr matéria-prima mau feitio mauro fiorese michael brecker micheliny verunschk miguel rio branco miles davis mirah missy gaido allen momento fantástico do bicho escala estantes monk movimento televisão sem som neil gaiman nick brandt nietzsche noronha da costa o aforismo o piano de tom jobim o sono e os sonhos o'neill orquestra vegetal de viena os cavaleiros camponeses no ano 1000 no lago de paladru pão com manteiga pat metheny patience and prudence paul strand pedro salinas peggy washburn pentti sammallahti philip larkin philippe halsman piero de la francesca ponce de léon post de gaja preisner pronto-a-vestir quadrado fi Quadros que roubaria no Thyssen quino R.E.M. raïssa venables regina guimarães robert doisneau ruben a. rui knopfli ruy belo ruysdael sarastro schuiten e peeters sequoia sempervirens sérgio godinho shampoo casulo shannon wright sidney bechet simone de beauvoir sophia andresen soviet group stieglitz t.s.eliot tagsmustbedestroyed tennessee williams terry blaine the 1913 armory show tom chambers trem azul trepadeira universos múltiplos valerio magrelli velásquéz você é um idiota winslow homer xavier seoane yes prime minister yousuf karsh zeca zurbaran

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