O meu avô faria anos hoje.
Cada vez que mudo de cidade adapto-me, passo a achar os espaços
anteriores mais acanhados e a sentir-me claustrofóbica nos regressos. Beja é a excepção. Foi lá que me ensinaram Astronomia. O céu e o tempo da
minha infância são enormes. E aquele castelo é um super relógio de contar
séculos. Temos dois ou três anos de idade e já nos contaram mil histórias sobre
os povos que foram e que vieram e que à vez tomaram a cidade.
É também em Beja que vive o fantasma bom do meu avô. Enquanto fui criança só vivi em casas perfeitamente novas, de paredes
brancas e limpas, sem sombras, sem recantos, sem ninhos de tralha ou a
possibilidade dos tesouros ou dos monstros. Sem segredos. Isto aborrecia-me em contraste com a casa da minha família no Norte e em contraste com os livros, especialmente a partir da
fase dos Cinco e das passagens secretas. Mas depois, na casa do meu avô, onde
não havia brinquedos nem canetas de cores, não sabia bem como brincar. Tinham-me mais ou menos proibido ou pedido para eu
não ler quando ia ter com os avós ou os primos. Foi então que o meu avô começou
a virar caixas de detergente do avesso, para chegar à cor e à textura do
cartão, a restaurar-lhes a forma, a abrir-lhes janelas e portas e a alinhá-las no quintal, formando pequenas cidades. E este foi o meu primeiro sim city.