"Isto da canalização é uma coisa muito subjectiva." - ouvido na rua, da boca de um canalizador.
29.5.04
Fenómenos paranormais
Além de eu estar acordadíssima há horas nesta sagrada madrugada de Sábado que, no meu juízo perfeito, só poderia consagrar a Morfeu: quem é Terry Blaine? A entrada nas páginas amarelas da música não me ajuda muito. Tropecei neste disco há dias e, caramba, sim, são clássicos, e são deliciosos, não consigo parar de ouvir. Percebi hoje que teria pelo menos um cd da Hagel Records em casa e confirmei no site tratar-se da editora de Lyambiko. Mais nada a respeito de "With Thee I Swing" ou de Terry Blaine. No ciberburgo sonoro tuga não encontro uma - uma! - palavra a seu respeito ou a respeito de qualquer dos músicos de "With Thee I Swing" (e como o título do cd é justo!).
27.5.04
Da origem das claras em castelo
Mas qual é a dúvida? Foi Penélope, obviamente, enquanto esperava por Ulisses. Fazia e desfazia o véu?! Histórias, histórias são. Também há a do Pai Natal, a do Coelhinho de Páscoa e a do Menino Jesus. Get real.
Leitura de sobrevivência #4
"Artigo 1322º
(Enxames de abelhas)
1. O proprietário de enxame de abelhas tem o direito de o perseguir e capturar em prédio alheio, mas é responsável pelos danos que causar.
Código Civil Português (Livro das Coisas > Título II, do Direito de Propriedade > Capítulo II, da Aquisição da Propriedade > Secção II, da Ocupação)
Fica no ar a pergunta, a zumbir:
E se o proprietário das abelhas que enxamearam for surpreendido pela chuva enquanto as persegue e tiver à mão um saco de plástico?
Transformers
Se há coisa que me comove é a capacidade de adaptação humana e, dentro desta, a capacidade de adaptação à chuva, sobretudo quando inesperada [ambiguidade curiosa, esta, fica mesmo assim]. Há dias enviaram-me este exemplo delicioso. Não é bonito? Ainda por cima, pelo desenho do passeio atrás das senhoras, fica-se a pensar que provavelmente surgiram assim, de repente, vindas do recato de uma esquina – o inesperado, também nestes casos, cai sempre bem. Aqui há uns anos, em Fátima, surgiu-me, também vinda do nada (havia uma parede que reduzia o campo de visão), uma senhora de joelhos, à chuva, com um saco amarelo na cabeça - inesquecível momento! A propósito de Fátima, recebi também esta santinha.
25.5.04
A Terra não cai ao Sol porque gira sobre si mesma
Subo o Lavra a pé porque os elevadores estão parados a meio da rampa, em manutenção. Viro aí à esquerda para as escadinhas. Cá em cima, as árvores impossíveis da Rua Júlio de Andrade e as gaitas da Juventude da Galiza, ao mesmo tempo. De passagem, o Torel, ao fundo do qual se abre Lisboa, mas hoje tinha fome: enfio-me no café galego e lancho enquanto leio o Público de tal forma até ao fim que nem as notícias desportivas escapam. Que vergonha, Carlos Queiroz! Que vergonha, Nuno Ribeiro, "até há hora do fecho" não leva H e, no fim do quarto parágrafo, a "passagem de testemunho" está mal aplicada!
No fim do cigarro, depois do lanche, um dilema: ceder à preguiça e continuar a ler o jornal, o que implicaria ler o Bridge e uma coluna sobre os príncipes de Espanha, ou regressar a casa?
Levanto-me, pago, saio. Outra vez a Rua Júlio de Andrade. Sol, folhas verdes, vento e pássaros. Como eu adoro esta rua. No Campo Santana acabou a limpeza da fachada da faculdade e os andaimes estão agora no chão. No passeio em frente, um homem grande debruça-se e faz três festas rudes na cabeça de um rafeiro que fecha os olhos e abana a cauda, e logo a seguir cada um segue o seu caminho: o rafeiro, para a estátua do Sousa Martins; o homem, no sentido do Lavra.
Quando entro em casa, ainda há sol no soalho. Não ligo a música. Sento-me no chão e ouço a noite a chegar.
18.5.04
Andou Prometeu a roubar fogo aos deuses para isto #4
E ainda há aquela ideia linda das pessoas normais segundo a qual a música se descobre na adolescência e o cinema, o teatro, as exposições, os concertos se frequentam na idade do acasalamento, após o que cessam. Isto não é dito assim, claro. Quem adere à coisa explica-o de forma quase ingénua. Quem referiu acasalamento fui eu, que de tanto ouvir os avisos dos meus colegas ("cá chegará, cá chegará") os comecei a imaginar como pavões. O instinto da espécie para a preservação e continuação é mesmo poderoso. De outra forma como explicar que depois de estabilizada uma relação, a descoberta do mundo passe a ser desinteressante porque "há outras coisas a fazer"? Volta, Schopenhauer, estás perdoado.
Andou Prometeu a roubar fogo aos deuses para isto #3
Usar isto é um insulto. Conceitos jurídicos objectivos, como ilegalidade, réu, arguido, inconstitucionalidade e incompetência, são insultos. Quando cresceremos?
Andou Prometeu a roubar fogo aos deuses para isto #2
Mas este clássico não revela apenas a incapacidade geral para encaixar a crítica. Revela também, no caso concreto, um problema mal resolvido com o poder. Ter poder não é estar acima de todas as coisas e ao abrigo de todos os dedos. Pelo contrário. O poder, especialmente o público, existe para servir. Não soubesse eu como e há quanto tempo e dormiria muito mais descansada.
Andou Prometeu a roubar fogo aos deuses para isto
Eis um exemplo clássico de como se confunde, normalmente, a classificação do acto com a classificação da pessoa. O exemplo não é filho único. A crítica à atitude é sempre sentida como crítica à pessoa que age. As críticas feitas ao livro lido, ao texto escrito, à música ouvida, são sempre tidas como pessoais. E isto está em todo o lado: nos mercados, nas conversas de café, no trabalho e nos tribunais. E gasta-se dinheiro e abrem-se processos com isto. Porque é que os adultos não são pessoas crescidas, capazes do dom do discernimento, capazes de serem um pouco mais o que não se vê e só eles sabem e um pouco menos os sinais exteriores de existência com que se identificam e confundem?
17.5.04
Lost in translation
Todos os dias, ao fim da tarde, um pardal poisa na extremidade esquerda da corda onde estendo a roupa. Vejo-o através da janela da salinha. De início via-lhe a sombra, agora abro também a janela da marquise nesse sítio. Poisa. Canta duas vezes. Responde-lhe outro pardal que não posso ver. Canta outra vez e vai-se embora.
Fortuna
No regresso a casa, faço questão de me encostar às árvores na rampa do Instituto de Medicina Legal e descer junto a elas à hora em que o sol se põe e o vento surge. As árvores estão plantadas na rua, uns metros abaixo. À beira do varandim, no início da rampa, fica-se à altura das copas, as folhas largas ao alcance das mãos. Sou incapaz de dizer isto de outra maneira. Que o som de milhares de folhas a tremer não é mais um som entre todos, é certo. Lembro-me, quase sempre, dos mortos engavetados do outro lado da rampa e não me incomoda. O Campo Santana é essa promiscuidade de jardins, pássaros, macumbas e autópsias, uma mescla de gente, orientações e desorientações de vida, as lojas chinesas de lingerie, os revendedores de atoalhados e lençóis e peúgas, as agências funerárias, as floristas. E uma biblioteca municipal que, apesar de ter o nome de São Lázaro, está fechada há um ano e meio e ainda não ressuscitou. No Campo Santana tudo está presente. Até, incrivelmente, a evocação de Fausto no Göethe. Se Mefistófeles sobrevoasse Lisboa numa qualquer noite assombrada, sobrevoaria toda esta área. Fausto é só, de todos os livros, o livro que se mantém há mais tempo como o livro da minha vida, mas há muito deixei de agradecer à fortuna os seus acasos. Embora, por vezes, não saiba bem se deva. Não me ocorre outro lugar em Lisboa com tão densa concentração de coisas adoráveis e bizarras.
10.5.04
A Quintana
Este lugar fala. A fotografia não foi tirada por mim, mas foi assim que vi a Quintana pela primeira vez e sempre que regresso a Compostela faço questão de entrar na praça por ali. Nos três arcos mais à esquerda, ao fundo, há uma loja de recuerdos. O dono parece ter sessenta anos desde que lá vou, há quase vinte anos. É um homem de barbas longas e grisalhas, com ar de hippy que envelheceu feliz; põe colunas sob os arcos, viradas para a praça, e passa música celta over and over again.
A Quintana fica nas traseiras da Catedral e nas traseiras do Convento das Beneditinas. Não percebi ainda o que é mais bonito: se é o desenho da praça, se é a volumetria, se são as pedras lisas, castanhas e antigas, se é o som dos passos nesse chão, se é o eco, se são as figuras sinistras de pedra nos portais da Catedral. Estranho esta praça e o impacto que tem. Penso pouco nisso, volto sempre que posso. Chegar a Compostela é chegar à Quintana. Sair é muito complicado. Só consigo despedir-me depois de umas cinco ou seis tentativas falhadas. Aquilo é meu, tenho a certeza. Não é dos Reis de Espanha, não é dos galegos, é meu.
29.4.04
Casa
Não sei se gosto mesmo dos concertos para violino de Bach ou se os ouço há tanto tempo que se tornaram referências, isto é, se sinto afecto acrítico por esta música. Temo que sim, embora do alto da minha sorte. Que seria de mim se, tenrinha, tivesse encontrado, entre os discos dos meus pais, sucessos do Marco Paulo? Teria ouvido? Teria gostado? Seria hoje seguidora entusiasta da carreira e zelosa coleccionadora da discografia da Adelaide Ferreira? Especulação pura, isto. Certo, aqui, é ser Bach muito bonito e nele todos os tempos serem ditos no presente e poder eu, por conseguinte, nesta música, reconstruir-me.
16.4.04
The Köln Concert - Keith Jarrett
Outro milagre. A música é perigosa - Settembrini forever. Este concerto é muito muito bonito. Tem em comum com "The melody at night, with you" a forma como cada nota soa no piano, consciente, exacta. Não é tão melódico, mas tem uma vivacidade deslumbrante. Este piano ri. De vez em quando Jarrett impa* de prazer.
* Impar - verbo do peito.