"Gosto de ler de tudo um pouco, pronto, é isso..." - Esta ouvi-a durante o almoço a uma senhora mística que tentava explicar a um jovem racionalista que a bombardeava com perguntas (ex. "Mas porque perde o seu tempo com essas patranhas?") o porquê de ler coisas tão edificantes como as conversas de Jesus com Alexandra Cabrita Solnado.
O almoço foi no Psi e, apesar de tardar o maravilhoso sumo de melancia, estava excelente. Um bom restaurante vegetariano não nos serve apenas o almoço. Serve-nos sempre, no tabuleiro da reflexão, um diálogo místico (pelo menos).
15.6.04
Fenómenos paranormais #3
Os cavaleiros camponeses no ano 1000 no Lago de Paladru
Era o tema da tese de Camille Lalande neste filme e em segundos entrou no meu top 5 de ideias hilariantes. Até porque bem vistas as coisas não há tese neste mundo que se livre, numa ou noutra nota de rodapé, de se debruçar sobre a questão dos cavaleiros camponeses no ano 1000 no Lago de Paladru.
11.6.04
Armazém de matéria-prima #4
É muito fácil falar para ti, para nós ou falar de nós. A poesia é a maior das transcendências. Quero o mínimo diálogo, a maior solidão e, aqui, sem ninguém, saber se as árvores continuam a falar dentro do fogo, do lixo e da morte.
Armazém de matéria-prima #3
Não menosprezar a importância dos agrafadores, do furador de papel e da fita-cola. A pedra ao sol, no Verão, tem pó. O mesmo se passa com as mãos.
Armazém de matéria-prima #2
A palavra seguinte, na outra
linha,
cai.
O verbo seguinte, na outra
linha,
sem nome e sem mundo.
Conclusão, concluir:
o verso é nu,
o verso é insuportável.
Mapa-múndi do princípio do Verão
e de desequilíbrio, suor e cansaço.
E as noites, entre todas as noites,
a arder inícios contra a ladainha do sono.
É áspero o tronco da árvore na palma da mão e
as flores são criaturas do ar - estão nos jardins,
nas ruas sem vento, entre as paredes por cair.
E o cheiro das flores está na morte.
E o calor no corpo, sobre o corpo.
E o sol na pedra, sobre a pedra.
4.6.04
A virar as paredes do avesso
Pelo cheiro das árvores dentro da casa percebi que estariam quietas. Fui à janela: lua cheia. Fiquei, mesmo quando o vento apareceu e as árvores voltaram a mexer-se e a soar. Depois, num momento, entre o som dos carros, espaçado, e o som dos grilos, começou a ouvir-se o silêncio e as árvores pararam outra vez. Quando a lua está muito grande, o silêncio fica maior. Há níveis de silêncio que eu nunca compreenderei. Níveis de silêncio como mapas do mundo, frios e quietos, sem eco. Isto expande-se ou isto contrai-se? Isto vem de onde? Há também as coisas no silêncio: a mão, a mão no vidro, o vidro frio, o vidro húmido da mão, o chão. E passos. E um som de vozes na rua, rápido, onde o silêncio se ouve mais. Poderia não dormir para ficar a ouvir. E ver na mesa, no lápis, no soalho, nos pés, no chão morno e no movimento do corpo em cima deles, nos gestos abertos na habituação dos olhos à escuridão, no cheiro das árvores a concentrar-se na casa entre os ventos, o silêncio a corroer as formas até tudo anoitecer.
29.5.04
Fenómenos paranormais #2
"Isto da canalização é uma coisa muito subjectiva." - ouvido na rua, da boca de um canalizador.
Fenómenos paranormais
Além de eu estar acordadíssima há horas nesta sagrada madrugada de Sábado que, no meu juízo perfeito, só poderia consagrar a Morfeu: quem é Terry Blaine? A entrada nas páginas amarelas da música não me ajuda muito. Tropecei neste disco há dias e, caramba, sim, são clássicos, e são deliciosos, não consigo parar de ouvir. Percebi hoje que teria pelo menos um cd da Hagel Records em casa e confirmei no site tratar-se da editora de Lyambiko. Mais nada a respeito de "With Thee I Swing" ou de Terry Blaine. No ciberburgo sonoro tuga não encontro uma - uma! - palavra a seu respeito ou a respeito de qualquer dos músicos de "With Thee I Swing" (e como o título do cd é justo!).
27.5.04
Da origem das claras em castelo
Mas qual é a dúvida? Foi Penélope, obviamente, enquanto esperava por Ulisses. Fazia e desfazia o véu?! Histórias, histórias são. Também há a do Pai Natal, a do Coelhinho de Páscoa e a do Menino Jesus. Get real.
Leitura de sobrevivência #4
"Artigo 1322º
(Enxames de abelhas)
1. O proprietário de enxame de abelhas tem o direito de o perseguir e capturar em prédio alheio, mas é responsável pelos danos que causar.
Código Civil Português (Livro das Coisas > Título II, do Direito de Propriedade > Capítulo II, da Aquisição da Propriedade > Secção II, da Ocupação)
Fica no ar a pergunta, a zumbir:
E se o proprietário das abelhas que enxamearam for surpreendido pela chuva enquanto as persegue e tiver à mão um saco de plástico?
Transformers
Se há coisa que me comove é a capacidade de adaptação humana e, dentro desta, a capacidade de adaptação à chuva, sobretudo quando inesperada [ambiguidade curiosa, esta, fica mesmo assim]. Há dias enviaram-me este exemplo delicioso. Não é bonito? Ainda por cima, pelo desenho do passeio atrás das senhoras, fica-se a pensar que provavelmente surgiram assim, de repente, vindas do recato de uma esquina – o inesperado, também nestes casos, cai sempre bem. Aqui há uns anos, em Fátima, surgiu-me, também vinda do nada (havia uma parede que reduzia o campo de visão), uma senhora de joelhos, à chuva, com um saco amarelo na cabeça - inesquecível momento! A propósito de Fátima, recebi também esta santinha.
25.5.04
A Terra não cai ao Sol porque gira sobre si mesma
Subo o Lavra a pé porque os elevadores estão parados a meio da rampa, em manutenção. Viro aí à esquerda para as escadinhas. Cá em cima, as árvores impossíveis da Rua Júlio de Andrade e as gaitas da Juventude da Galiza, ao mesmo tempo. De passagem, o Torel, ao fundo do qual se abre Lisboa, mas hoje tinha fome: enfio-me no café galego e lancho enquanto leio o Público de tal forma até ao fim que nem as notícias desportivas escapam. Que vergonha, Carlos Queiroz! Que vergonha, Nuno Ribeiro, "até há hora do fecho" não leva H e, no fim do quarto parágrafo, a "passagem de testemunho" está mal aplicada!
No fim do cigarro, depois do lanche, um dilema: ceder à preguiça e continuar a ler o jornal, o que implicaria ler o Bridge e uma coluna sobre os príncipes de Espanha, ou regressar a casa?
Levanto-me, pago, saio. Outra vez a Rua Júlio de Andrade. Sol, folhas verdes, vento e pássaros. Como eu adoro esta rua. No Campo Santana acabou a limpeza da fachada da faculdade e os andaimes estão agora no chão. No passeio em frente, um homem grande debruça-se e faz três festas rudes na cabeça de um rafeiro que fecha os olhos e abana a cauda, e logo a seguir cada um segue o seu caminho: o rafeiro, para a estátua do Sousa Martins; o homem, no sentido do Lavra.
Quando entro em casa, ainda há sol no soalho. Não ligo a música. Sento-me no chão e ouço a noite a chegar.
18.5.04
Andou Prometeu a roubar fogo aos deuses para isto #4
E ainda há aquela ideia linda das pessoas normais segundo a qual a música se descobre na adolescência e o cinema, o teatro, as exposições, os concertos se frequentam na idade do acasalamento, após o que cessam. Isto não é dito assim, claro. Quem adere à coisa explica-o de forma quase ingénua. Quem referiu acasalamento fui eu, que de tanto ouvir os avisos dos meus colegas ("cá chegará, cá chegará") os comecei a imaginar como pavões. O instinto da espécie para a preservação e continuação é mesmo poderoso. De outra forma como explicar que depois de estabilizada uma relação, a descoberta do mundo passe a ser desinteressante porque "há outras coisas a fazer"? Volta, Schopenhauer, estás perdoado.
Andou Prometeu a roubar fogo aos deuses para isto #3
Usar isto é um insulto. Conceitos jurídicos objectivos, como ilegalidade, réu, arguido, inconstitucionalidade e incompetência, são insultos. Quando cresceremos?
Andou Prometeu a roubar fogo aos deuses para isto #2
Mas este clássico não revela apenas a incapacidade geral para encaixar a crítica. Revela também, no caso concreto, um problema mal resolvido com o poder. Ter poder não é estar acima de todas as coisas e ao abrigo de todos os dedos. Pelo contrário. O poder, especialmente o público, existe para servir. Não soubesse eu como e há quanto tempo e dormiria muito mais descansada.
Andou Prometeu a roubar fogo aos deuses para isto
Eis um exemplo clássico de como se confunde, normalmente, a classificação do acto com a classificação da pessoa. O exemplo não é filho único. A crítica à atitude é sempre sentida como crítica à pessoa que age. As críticas feitas ao livro lido, ao texto escrito, à música ouvida, são sempre tidas como pessoais. E isto está em todo o lado: nos mercados, nas conversas de café, no trabalho e nos tribunais. E gasta-se dinheiro e abrem-se processos com isto. Porque é que os adultos não são pessoas crescidas, capazes do dom do discernimento, capazes de serem um pouco mais o que não se vê e só eles sabem e um pouco menos os sinais exteriores de existência com que se identificam e confundem?
17.5.04
Lost in translation
Todos os dias, ao fim da tarde, um pardal poisa na extremidade esquerda da corda onde estendo a roupa. Vejo-o através da janela da salinha. De início via-lhe a sombra, agora abro também a janela da marquise nesse sítio. Poisa. Canta duas vezes. Responde-lhe outro pardal que não posso ver. Canta outra vez e vai-se embora.
Fortuna
No regresso a casa, faço questão de me encostar às árvores na rampa do Instituto de Medicina Legal e descer junto a elas à hora em que o sol se põe e o vento surge. As árvores estão plantadas na rua, uns metros abaixo. À beira do varandim, no início da rampa, fica-se à altura das copas, as folhas largas ao alcance das mãos. Sou incapaz de dizer isto de outra maneira. Que o som de milhares de folhas a tremer não é mais um som entre todos, é certo. Lembro-me, quase sempre, dos mortos engavetados do outro lado da rampa e não me incomoda. O Campo Santana é essa promiscuidade de jardins, pássaros, macumbas e autópsias, uma mescla de gente, orientações e desorientações de vida, as lojas chinesas de lingerie, os revendedores de atoalhados e lençóis e peúgas, as agências funerárias, as floristas. E uma biblioteca municipal que, apesar de ter o nome de São Lázaro, está fechada há um ano e meio e ainda não ressuscitou. No Campo Santana tudo está presente. Até, incrivelmente, a evocação de Fausto no Göethe. Se Mefistófeles sobrevoasse Lisboa numa qualquer noite assombrada, sobrevoaria toda esta área. Fausto é só, de todos os livros, o livro que se mantém há mais tempo como o livro da minha vida, mas há muito deixei de agradecer à fortuna os seus acasos. Embora, por vezes, não saiba bem se deva. Não me ocorre outro lugar em Lisboa com tão densa concentração de coisas adoráveis e bizarras.
10.5.04
A Quintana
Este lugar fala. A fotografia não foi tirada por mim, mas foi assim que vi a Quintana pela primeira vez e sempre que regresso a Compostela faço questão de entrar na praça por ali. Nos três arcos mais à esquerda, ao fundo, há uma loja de recuerdos. O dono parece ter sessenta anos desde que lá vou, há quase vinte anos. É um homem de barbas longas e grisalhas, com ar de hippy que envelheceu feliz; põe colunas sob os arcos, viradas para a praça, e passa música celta over and over again.
A Quintana fica nas traseiras da Catedral e nas traseiras do Convento das Beneditinas. Não percebi ainda o que é mais bonito: se é o desenho da praça, se é a volumetria, se são as pedras lisas, castanhas e antigas, se é o som dos passos nesse chão, se é o eco, se são as figuras sinistras de pedra nos portais da Catedral. Estranho esta praça e o impacto que tem. Penso pouco nisso, volto sempre que posso. Chegar a Compostela é chegar à Quintana. Sair é muito complicado. Só consigo despedir-me depois de umas cinco ou seis tentativas falhadas. Aquilo é meu, tenho a certeza. Não é dos Reis de Espanha, não é dos galegos, é meu.