25.11.04

I'm Going Away To Wear You Off My Mind # 3

Isto é extremamente lento. Começou em Março deste ano e eu ainda não saí de New Orleans e não avancei além da década de 20. Estou constantemente a avançar e a retroceder para ouvir coisas que surgiram nesses primeiros vinte anos do século. Ler atrasa ainda mais as coisas. Mas também não tenho marcado nenhum exame. Posso dar-me ao luxo de passar o tempo que quiser em cada época e de ouvir cada música como se todas as outras ainda não existissem. Ou antes devo? Às vezes acho que devo. Que só pode ser assim.

I'm Going Away To Wear You Off My Mind # 2

O que ando a tentar fazer, na falta de uma máquina do tempo, é dar aos ouvidos aquilo que mais nenhum sentido meu pode ter. O livros ajudam a arrumar a informação e os sons, que se foram e vão acumulando, e a visualizar os tempos, porque inserem os factos num contexto mais amplo. Mas sobretudo ajudam a encontrar a música, a desamarrotar os anos antigos, de forma a que eu consiga ver neles os meses, os dias, e, em especial, as noites. Se eu procurasse e ouvisse antologias, sobrevoaria tudo isso, sem nunca chegar a descer. Mas eu quero as vielas, as ruas de terra, o som do frio nas noites de inverno, o cheiro do pó e do suor durante o estio, os motores lentos de alguns, poucos, carros, a porta entreaberta de um sítio suspeito e mal iluminado, o ruído das vozes e da música, o cheiro e o fumo do tabaco, entrar, estar lá da forma mais intensa que a imaginação permita, e ouvir.

I'm Going Away To Wear You Off My Mind


King Oliver's Creole Jazz Band

Bloody blog # 2

Já está. E com o bónus de, para o título do blog, eu ter encontrado o clássico azul que entra pelos olhos dentro e parece mover-se, do qual sou admiradora desde os quatro ou cinco anos, altura em que o descobri, maravilhada, numa revista dos meus pais.

É provável que isto, a médio prazo, resulte cansativo. Chegada a esse limite, porei fim aos dias vermelhos do Húmus e tentarei dar-lhe um aspecto menos excessivo, de suavidade martin-parriana. Qualquer coisa, sei lá, florida...

Bloody blog

Ando há meses à procura de um vermelho que acabe com o verde mortiço deste blog. Um vermelho excessivo que ainda assim permita continuar a escrever a preto. Desde Janeiro que de vez em quando procuro. Em vão. Mas hoje, sozinha e subitamente, compreendi o funcionamento dos RGB e dos CMY disto, declarei autonomia e independência face ao Colorizer e, autodeterminada, estou finalmente a aproximar-me.


Estou a aproximar-me muito.

Era só para avisar.

Não percebi

Como poderia um Super-Homem nietzscheano impedir um cidadão de se suicidar, quando, pelo suicídio, o cidadão quase ganharia o direito a existir?

24.11.04

Kafka sumiu mesmo

Dei pelo erro há um ou dois dias. Pensei que talvez tivesse estragado o link ao introduzir outro na lista dos blogs. Fui confirmar há pouco. Tudo bem com o meu link: Kafka sumiu. Kafka em Belo Horizonte, Volta de Kafka, Lupa do dia - tudo parado, como antes. Encontrei-os todos amotinados no Prosa e Poesia.

E agora? Como lê-lo? Como não lê-lo?

Vou ali fumar e já volto

Há qualquer coisa além da defesa da saudinha que alegra os não fumadores fundamentalistas por estes dias. Uma alegria no poder que podia até dar direito a farda, uma alegria parecida à que sentiram as mentes vitorianas com a aprovação da lei seca, um melindre moralista e moralizante, ressabiado, que, recalcado durante décadas, finalmente, encontra o seu escape.

E não é só o facto de cada não fumador fundamentalista ser agora um pequeno polícia com o seu pequeno planeta soberano para fiscalizar. É mesmo aquela coisa anterior e básica, que está dentro de todas as pessoas em menor ou maior grau, e na qual os pensamentos mais frágeis facilmente se inebriam: o homem, quanto mais pequeno é, mais gosta e mais precisa de exercer poder sobre. Sobre. Não interessa muito sobre o quê. À falta de melhor, sobre um cão, como disse Camus.

O essencial, todavia, é a imposição de si a outro, como se a identidade se formasse e a identificação se alimentasse das marcas exteriores deixadas sobre os outros, como se não houvesse a certeza de, em si, se ser alguma coisa. Agora é o tabaco, mas podia ser qualquer outra coisa. No fundo, os não fumadores fundamentalistas adoram ser fumadores passivos, coisa que lhes dá o direito de espernear como mais nenhuma.

Os que me rodeiam começam a implicar com o tabaco fumado a céu aberto. Ainda teremos ruas interditas. Não é a saúde, não, tem de haver disto em todos os tempos: uma forma legitimada de impor comportamentos aos outros, no plano das relações quotidianas entre particulares. E acho que depois de trinta anos sem ser possível denunciar os vizinhos à polícia por comerem criancinhas ao pequeno-almoço, já tardava, já fazia falta inventar um novo ascendente. E acho que, sem ser pela sua saudinha, a gente pequenina, que é muita, rejubila.

Eu, se não fumasse, começava agora a fumar.

As borbulhas

De vez em quando chegam zunzuns destes de Serralves. Há dois anos, era proibido ler na casa de chá. Agora, o Paulo conta que é proibido estudar no café-restaurante, nas só numas mesas, noutras não. Percebo que se dê andor a quem abanca horas a fio sem consumir. Mas a proibição de estudar não corresponde a imposições não respeitadas de consumo. Aplica-se mesmo a quem consome.

O que é que distingue um leitor de um estudante? O tamanho dos livros? A roupa? A quantidade de borbulhas?

23.11.04

Da dignidade poética dos fusíveis

– Olá avô, vim saber da prima Deolinda. O Luís contou-me que está doente. Que tem ela?
– Ficou subitamente cheia de malmequeres, depois com febre e agora está ali deitada, coitada. Estamos à espera do filósofo. Chamámos um lacrimoso. A tua prima parece ter tido um ataque de lamechice.
– A sério? Onde tem ela os malmequeres?
– Rebentaram pelo corpo todo esta manhã. Mas ontem ao fim da tarde já eu a achei muito estranha. Tinha estado cá um tipo da companhia da luz, a arranjar uma caixa de fusíveis do prédio, e fui dar com a tua prima nas escadas, a dizer-lhe que os fusíveis não têm a dignidade poética das estrelas.
– Oh!
– Foi uma vergonha. Meti-a logo em casa. Mesmo assim não se calou com aquilo durante o jantar e, enquanto tomávamos café, começou a cantar.
– A cantar o quê?
– Começou mesmo a cantar... que os fusíveis não têm a dignidade poética das estrelas. Estava já fora de si, decerto. Mas eu só quando a vi cheia de flores é que me apercebi da gravidade disto.
– Que situação. E como é este lacrimoso? Já tratou alguém da família antes? Tratou o Jorge, não foi?
– Não, o lacrimoso chora, não é? Quem tratou o Jorge durante a fase mística foi um sarcástico. Em boa hora o curou. Já havia música zen em todas as divisões da casa.

22.11.04

A música também é como as cerejas

Ouvir Mirah, "C'mon Miracle". Lembrar-me que não ouvi decentemente "Over the Sun", de Shannon Wright: ouvir "Over the Sun" e sentir saudades de "Flightsafety" que, quando saíu, há cinco anos, ouvi durante milhares de quilómetros, quase sempre de noite ou de madrugada. Sim, e da cereja tripla que me aconteceu esta noite, continuo a preferir "Flightsafety", embora seja de todos o mais triste. Não é que eu tenha ouvido mal "Over The Sun", quando saíu, ouvi e não gostei, como esta noite. E a voz de Mirah, sim, dá ares à de Shannon Wrigth e a de Shannon Wright, sim, dá ares à de Mirah. E cantam mais ou menos da mesma maneira. Uma voz de melancolia arrastada. Algo assim. O mesmo ritmo, o mesmo tom, a mesma forma de sussurrar, a mesma forma de afirmar os versos. E gosto de ambas mas nenhuma me enche as medidas. Sou viciada no "Flightsafety" da Shannon Wright, de forma desagradável, contra a minha vontade. Quer nesse cd, de que gosto, quer no deste ano (e são os únicos dela que conheço), a voz de Shannon Wright tem esta capacidade de me embalar num torpor retrospectivo extremamente triste que, enquanto a voz dela soa, me parece absoluto. Mas, sendo extremamente triste, não chega a ser uma tristeza intensa, como aquela que sinto quando ouço, por exemplo, o "Pink Moon" de Nick Drake: fico mal, mas vale a pena cada segundo, e, por outro lado, fico bastante bem, porque é muito muito bom ouvir aquele disco. A Shannon Wright irrita-me porque nem isso. É um torpor, só. Como ficar com preguiça em frente à televisão às duas da manhã e não ser capaz de desligar o aparelho e ir dormir e continuar, durante meia-hora, a ver as televendas, já sem forças para, sequer, rir. Não sei porquê. Agora mesmo estou a ouvir os três cds: o de Mirah porque estou a gostar, os de Shannon Wright porque não consigo parar. Talvez deva ir dormir.

Ah, e a voz da Mirah dá ares mas não é a mesma coisa. É muito mais bonita.

Ela sentou-se em desdobrar de guardanapo

"Deitadas as crianças em surdina de peganhentices o jantar aproximou-se de hora estabelecida e conduzida à mesa pelo instinto da cronologia Ela sentou-se em desdobrar de guardanapo. Em frente com mostarda inglesa a mestra contemplava os envelopes rendilhados. A sopa colherava-se pelos monossílabos da véspera onde a Miss de mentalidade infantil distraía a atmosfera culinária."

Ruben A. > Caranguejo
Assírio & Alvim

Momento divinatório

Um dia, serei um aforismo granuloso.

O Aforismo Absolutista

Um reinado paternalista é.

O Haiku Suicida

Além de ser muito chato
um reinado paternalista
é

O Aforismo Suicida

"Além de ser muito chato um reinado paternalista é"

Nesse momento, o Aforismo, que vinha a cair desde o 12º andar, chegou ao chão, onde a queda prometida e irreversível em grande velocidade contra o solo duro se concretizou, vindo o Aforismo a morrer, muito antes da chegada de qualquer ambulância.

O Aforismo desfez-se em verdades e escorreu. Dizem os amigos que nunca o viram tão bonito. Pedaços do corpo do Aforismo, que se conseguiram apanhar e meter em tubinhos de ensaio, não ficaram em câmara ardente nem foram acompanhados por admiradores até à última morada porque foram bebidos:

"O Aforismo é Cultura e a Cultura bebe-se, ao contrário das alfaces, que"

Os amigos do Aforismo eram todos muito cultos e bebiam muitas coisas, mas nenhum comia verduras - concluí eu, desta vez sem aspas.

Outros pedaços do Aforismo evaporaram e entraram no ciclo das águas vindo mais tarde a regar e a alimentar alfaces que, por sua vez, foram comidas por pessoas que nem conheciam o Aforismo.

SIM ou NÃO?

Que chá gosta mais de beber após infusão prolongada, a sua mãezinha como vai, faz questão de moer sempre o café imediatamente antes de o fazer ou até tolera, por vezes, o pré-moído, se a pedra de Sísifo fosse de rocha sedimentar teria a filosofia ocidental tomado um rumo tendencialmente ascendente ou descendente?

Welcome to the 1913 Armory Show



Introdução - aqui.
Galerias - aqui.

20.11.04

Julia Arnold, seated on unmade bed


Lewis Carroll
1872

18,5 GB

De música no computador. E não encontro sequer um princípio de banda sonora para uma mochila. Talvez num dos bolsos eu encontre a lista de supermercado. Terei de regressar e partir e regressar e partir e regressar e partir e regressar e. Onde foi que?

As mochilas que ninguém reclama

Nas estações. Suponho que se avança. Nas estações. E eu nem gosto de mochilas. Estar-se dentro porque não se está. E a descontinuidade, que é um ruído, cheia de perguntas. A lista do supermercado que foi para o lixo com os talões do multibanco tinha servido outros fins. Estava lá tudo. Ou a parte relevante.
- Onde foi que? Quando foi que?
- Caiu.
- Nem pensar. Onde?

“Lives without dining”

The round face of the grub-man peered upon me now. “His dinner is ready. Won’t he dine to-day, either? Or does he live without dining?”
“Lives without dining,” said I, and closed the eyes.
“Eh!—He’s asleep, aint he?”
“With kings and counsellors,” murmured I.

19.11.04

Vi televisão duas vezes

1. Hoje almocei mais cedo e no televisor da tasquinha a sic não estava a passar um noticiário mas um programa de entretenimento. Adoro a ideia entretenimento. Julgo que sirva para entreter e, segundo percebi, chama-se "10 Horas" e deve, portanto, começar às 10 da manhã. E que fizeram eles nos cinco minutos em que coexistiram com o meu almoço? Riram-se, disseram coisas imbecis, folhearam revistas idiotas e comentaram operações plásticas de figuras públicas que não conheço. Havia público. A música de elevador de fundo era, como acontece em geral com a música de elevador de fundo, muito má.

2. Ontem à noite fui comprar tabaco depois do jantar e no café via-se a Quinta das Celebridades, um programa mais grotesco do que eu supunha. Tinha ouvido dizer que dava muita vontade de rir e que pelo absurdo que era valia a pena ver um bocado. Também não entendo. Ok, são palhaços. Mas não é triste?

Discurso directo

Há dois dias, enquanto eu almoçava, um canal de televisão passava uma reportagem sobre aquela escola exemplar, em Chaves, que proibiu absolutamente o tabaco. Pessoas da escola eram entrevistadas.

Jornalista: Olá! Então, que achas desta nova medida?
Aluno: Acho bem, porque assim fico a saber que fumar mata.

18.11.04

Observação

A minha gata foge de Peter Brötzmann.

Grandpa's Spells


Dr. Jazz teria de aparecer, porque ando a ouvir a versão limpinha dos piano rolls há dois dias, outra vez. Mas estas versões menos limpinhas que há no RHJ, caramba, são irresistíveis. Ouvi o 1937-38 da Ella assim que cheguei, duas vezes, e depois liguei o computador de propósito para ir ao RHJ ouvir piano rolls de Jelly Roll Morton e ainda não ouvi mais além de "Grandpa's Spells" porque adoro a forma como o piano soa do meio para o fim. Adoro tudo, mas essa parte não me deixa passar a outros temas*.

___________

* Entretanto demorei uns minutos a editar o post como queria e neste momento estou a achar que o meio para o fim do tema é a partir do primeiro segundo. Acho que esta noite não vou conseguir ouvir mais nada. O Dr. Jazz era diabólico.

O Som

Pronto, comecei a pensar em Ella e fiquei cheia de saudades disto.



Não tenho tops, mas este disco está entre os meus mais intensos afectos musicais. Começa com ruído de disco velhinho, depois as primeiras notas de "Big Boy Blue" e a seguir a voz de Ella Fitzgerald aos 20 anos. É encantador do princípio ao fim. Nunca o empresto, não gosto de me separar dele. Ouço-o hoje assim que chegar a casa.

Ella


Ainda consigo ver depois de leitura em monitor de recorte de jornal sobre Ella Fitzgerald, com letra meio apagada e miudinha, nada mau. O recorte foi deixado no Jazz Portugal por causa do tal pai português de Ella, mas gostei sobretudo do tom do texto do recorte muito caseirinho e quotidiano e quase visualizei tudo aquilo, de forma que durante a leitura me pareceu que Ella ainda existia e que tudo aquilo era o presente. Destaque para o terceiro parágrafo de "Salada e peixe" (começa com "19.30 h - Entra em cena para o primeiro espectáculo") no terceiro e último recorte.

O Jazz Portugal, no boletim de dia 15, pede ajuda para desvendar o mistério do pai português de Ella Fitzgerald. Espero que o autor do recorte seja/fosse um humorista daqueles que gostam de experimentar limites e de dizer coisas erradas, de propósito, para no futuro intrigar os outros. Porque se fosse verdade seria terrível: imagino grande folclore na televisão e nas revistas ocas, de repente programas da manhã com Manuel Luís Goucha a tecer elogios a Ella perante um público constituído por velhinhas surdas, jornalistas a perseguir adolescentes na Rua Augusta para lhes perguntarem "Sabe quem foi Ella Fitzgerald?", como fazem com Camões de tempos a tempos, ou, pior, para lhes perguntarem coisas arrepiantes e muito provincianas como "Sabe que Portugal tem um Grande Nome no Jazz?". Depois, ia aparecer um presidente de uma junta de freguesia qualquer, muito perdida no mapa, e ia dizer "O pai da Ella era daqui". E vinham com ele três velhinhas explicar que a tia de uma delas era muito amiga do rapaz. Em tempos. E depois vinha o Goucha e levava os quatro para o programa e os quatro dariam entrevistas aos vários telejornais nos dois meses seguintes e talvez lançassem um disco porque "na nossa terra toda a gente tem boa voz, é do ar que é munto bom, não é de admirar que Ella...".

Seria um circo. Ella não merece.

17.11.04

As coisas que eu sonho #2

Perseguiu-me todo o dia e agora começava a desaparecer, e eu até queria e eu até senti vergonha quando me lembrei dele ao acordar, mas é demasiado bizarro para me dar ao luxo de o deixar ir: esta noite sonhei que o meu pai era um sacerdote maçónico cuja função era dar pós-sacramentos pagãos. Sobre este conceito de sacerdote, que, ligeiro, me ocorreu enquanto observava as actividades do meu pai, e que acabo de reproduzir, nada tenho a dizer, excepto que, naturalmente, estava a dormir e que, desconhecendo-o como o desconheço – na existência e na inexistência -, não posso avaliar a dimensão do absurdo neste sonho; suspeito, todavia, tratar-se de um record.

Presto

O ar das ruas cheira a lenha:
subitamente,
os meus avós estão todos vivos.

Onde chegará isto?

O "Camelo do Rei"? E não estão a divertir-se? Não acredito. E não se diga que é a minha leitura que não encontra aqui a devida vénia a um Rei Mago, mas antes excessiva confiança no trato e a abusiva utilização de expressão com um duplo sentido, não chegando o segundo a ser sequer subliminar, tal é a pujança da sua popularidade. A Língua é dúbia, mas só quando quem escreve o permite.

Ou será que - todo um outro mundo especulativo - quando se escreve sobre uma coisa com a qual não é suposto brincar, sendo que o "Camelo do Rei Mago Belchior" está, certamente, incluído no tabu religioso, se espera do leitor uma omissão respeitosa de gozo?

p.s. Entretanto, vi:

"HOJE:
OVELHA"

Pelos mesmos 1,45 € que a Virgem Maria com banho de prata. A igualdade de tratamento, em teoria, é louvável, mas neste caso, uma variaçãozita, ainda que simbólica, no preço das peças, segundo a hierarquia sagrada, não ficava mal. Que a Virgem custasse 1,46 € e a ovelha (ou uma ovelha?) 1,44 €, por exemplo, ganhavam o mesmo e era mais bonito. Pedirem pela Virgem Maria o mesmo que pedem por uma ovelha (ou pela ovelha?) acho indelicado e a Senhora, com razão, é capaz de não gostar.

15.11.04

Quem vir isto vai pensar que não sou uma pessoa de bem acima de qualquer suspeita

Sexta-feira instalaram-me jogos novos no computador: Neighbours From Hell e Evil Genius, para minimizar o vazio deixado por Mafia e Ghost Master (um jogo rápido demais para o giro que é ter uma equipa de fantasmas e amendrontar famílias até que fujam todos* da casa assombrada por nós).

Acho, porém, perfeitamente possível que jogos destes sejam compatíveis com o coração de manteiga que habita a minha pessoa caridosa. Mas já não acho normal que, quando dou as costas, personalizem o meu computador de forma infame. Como se eu, no meu perfeito juízo, pudesse ir longe ao ponto de brincar com coisas tão sérias como o nome dos discos.




Garanto que tomarei medidas.
________________
(*) Aos gritos, uma maravilha.

Conclusão das observações de Domingo

A minha gata quer um pombo.

Post tipicamente de gaja

Desenganem-se os teóricos, reduzam-se as sumidades doutrinárias à sua insignificância: há poucas coisas tão românticas como um gajo fazer-nos o jantar. Mete flores, livros de arte, discos e outras maravilhas a um canto.

Enxoval para aulas de italiano

Estava a fazer-me confusão não conhecer pessoas além de io, lui e lei. Procurei ajuda, escolhi um verbo e pedi a conjugação no presente do indicativo. Ainda temi que o programa partisse do princípio que as pessoas eram óbvias, mas não, é um bom programa:

Ridere

io rido
tu ridi
lui/lei ride
noi ridiamo
voi ridete
loro ridono

Não resisti e fui ver o particípio, há dois, um presente e um passado: ridente e riso, respectivamente. Não podia ter gostado mais. Só por prudência mantenho no título disto a eventualidade: eu quero esta música.

Mal começou e já estão a vender a Mãe!

"NÃO SE ESQUEÇA DE PEDIR
VIRGEM MARIA COM BANHO DE PRATA
POR APENAS 1.45 €" (*)

O que mais grave se torna quando não sabemos ainda, ao certo, se oferecem o Menino ou se o Menino é que oferece o presépio.

E o banho? Quem Lhe deu o banho? E como?

Isto sim devia ser motivo de preocupação, debate e votação na CEP.

(*) Hoje. Não me lembro se a nota estava no Jornal de Notícias ou no 24 Horas.

13.11.04

Sábado: não fazer nada


Georges Gonon-Guillermas

Contemplação

Havia um tempo em que me lembrava de tudo, mesmo das coisas mais insignificantes, que tinham ficado associadas a outras menos insignificantes, que tinham ficado associadas a coisas que fazia sentido ter guardado, que tinham ficado associadas às coisas mais insignificantes de outro dia qualquer. Era uma rede grande cheia de bifurcações e de informação cruzada. A cor das calças que vesti no segundo jantar de turma pós-licenciatura porque enquanto mudava a cassete com o Inédito de Jobim, que ouvia no carro por esses dias, a cinza do cigarro caiu e ao afastá-la aquele específico tom de castanho e a forma do tecido se tinham fixado. Portanto, se alguém daí a muito tempo me falasse nesse dia, eu diria "Sim!, lembro-me perfeitamente, era Sábado e eu fui almoçar com pessoas do meu curso e tu à noite ligaste-me: isso foi no dia 22 de Março." E se me dissessem "Olha que foi em Maio", eu diria "Não, porque em Abril já a senhora que ajuda lá em casa tinha queimado as minhas calças castanhas. Compreendes?" Olhavam para mim com desconfiança. Creio que passava por teimosa hábil, subtil e ardilosa. Quem poderia confirmar os factos que eu usava para chegar a uma data e aos pormenores de um dia específico ou de parte dele?

Depois passaram-se coisas que eu precisei esquecer e que estavam em todos os lugares da memória, mesmo no tacto. Mas a memória funcionava, certinha, como sempre. Foi necessário corrigi-la. Aprender a esquecer muito e depressa, aprender a não fixar, o que não se faz sem abrandar o pensamento. Fui falar com um amigo que me jurava ser capaz de olhar para o tecto durante tardes inteiras sem pensar em nada. Habilidade que eu, em segredo, desprezava.
- Contemplo o tecto?
- Não, isso é muito. Deitas-te no chão, por exemplo, e olhas para cima. Só.
- Sem música, sem nada?
- Nada.
- E para começar, pensas em quê?
- Em nada.
- Tem de haver uma sucessão de pensamentos que leve a nada, não pode ser de repente.
- Acho que há, mas já não te sei dizer o que é.

Um dia, consegui. Não sem antes pôr óculos nos olhos opacos e beatas velhas nos dedos esticados das estátuas que surgiam no tecto. Também já não me lembro o que veio a seguir. Excepto que a um dado momento, muito depois de abrandado o pensamento, esvaziada a memória e conquistada uma certa serenidade, estado que considerei imutável, dei comigo incapaz de escrever uma frase sem confirmar a exactidão de metade das palavras no dicionário. Palavras sempre escritas e sempre lidas e sempre escritas outra vez: no dia anterior, há cinco anos, há vinte anos. Estranhei o zelo passados meses. Não só pela estranheza propriamente dita, mas porque começou a ser irritante estar constantemente a abrir e a fechar o dicionário, porque nisso eu perdia cada vez mais tempo e me esquecia das frases que tinham pedido aquelas palavras. Porque, às tantas, no gesto de fechar o dicionário, compreendia que me esquecera também do que tinha acabado de ler. E porque, finalmente, numa tarde, me vi confirmar: pedra, chão, anis, fumo, til e água. Água.

11.11.04

O homem mente sempre quando fala de si próprio

Entre as recordações que cada um de nós guarda, algumas há que só contamos aos amigos. Há ainda outras que nem sequer aos amigos confessamos, que só a nós próprios dizemos e, mesmo assim, no máximo segredo. Finalmente, há coisas que o homem nem sequer se permite confessar a si mesmo. Ao longo da existência, toda a pessoa honesta acumulou não poucas destas recordações. Diria mesmo que a quantidade é tanto maior quanto mais honesto o homem. Eu, em todo o caso, não foi há muito que me decidi a recordar algumas das minhas antigas aventuras; até agora evitava fazê-lo, aliás com um certo desassossego. Porém agora, quando as evoco e desejo mesmo anotá-las, agora vou tirar a prova: será possível sermos francos e sinceros, pelo menos com nós próprios, e dizermo-nos toda a verdade? Observo, a propósito, que Heine afirma não poderem existir autobiografias exactas e que o homem mente sempre quando fala de si próprio. Em sua opinião, Rousseau enganou-nos à certa nas suas Confessions, e até deliberadamente, por vaidade. Tenho a certeza de que Heine tem razão: compreendo muitíssimo bem que nos possamos acusar de crimes abomináveis apenas por vaidade e também compreendo o que pode ser esse sentimento. Mas Heine tinha em vista as confissões públicas; ora, eu escrevo só para mim e declaro duma vez por todas que, se pareço dirigir-me ao leitor, é apenas um processo de que me sirvo para maior facilidade.


Dostoievsky > A Voz Subterrânea
Trad. Célia Henriques/Vitor Silva Tavares
& Etc, Setembro de 1989, pp.52-53


(imagem daqui)

Castanhas assadas

Algumas coisas são modas. Algumas coisas não são modas. Algumas modas, especialmente nas roupas, acabam parecidas com a pele e desaparecem. A minha geração já não usa fatos-de-treino azuis escuros com riscas brancas de lado. A minha geração deu turmas de miúdos e miúdas vestidos com fatos-de-treino azuis escuros com riscas brancas de lado. Miúdos com a mania da diferença tinham uns que eram pretos e eram olhados de lado. Sinto falta de angústias de existir medidas em milénios. Daquelas permanentes. Mais ou menos. Isso ou chover pouco este Inverno.

10.11.04

A alegria quer a profunda eternidade

Homem, ouve!
Que diz a meia-noite com a sua voz grave?
«Eu estava mergulhado no sono,
Emergia de um sono profundo.
«O universo é profundo, profundo!
Mais do que o dia pode imaginar.
Profundos são o seu mal e a sua dor,
Mais profunda ainda é a sua alegria.
A dor diz: «Passa e perece!»
Mas a alegria quer a eternidade,
Quer a profunda eternidade.»

Friedrich Nietzsche
Canto da embriaguez | Assim Falava Zaratustra
Trad. Alfredo Margarido para a Guimarães
(11ª edição, 1997, p. 364)

Para onde vai este saxofone?

O Trem Azul apanha-se desde 14 de Outubro na Rua do Alecrim, n.º 21-A, descendo umas escadinhas logo a seguir à ponte, quando se está quase a chegar ao Cais do Sodré. Se não chover, as janelas devem estar abertas sobre a rua do Jamaica, relativamente à qual a loja já é alta (não me lembro como se chama a rua do Jamaica, mas é a típica rua que merece jazz vindo de cima e com isso de certeza que em baixo o filme se vai adensar). Há três sofás, leitores de cds e um cinzeiro de mola. Ouve-se jazz quando se entra, enquanto se está e algum tempo depois de sair. E quem lá está fala a mesma língua que nós. Muito bom. Os destinos são à escolha e os bilhetes variados: para qualquer lugar do jazz.

9.11.04

Estou doente

Ainda. Com o "Live in Tokyo", do Brad Mehldau. Num post sobre outro disco consegui ocupar um parágrafo com o "Live in Tokyo" e quando fui confirmar se o link para o preview estava a funcionar quase ia desligando o "Nearness of you" por causa daquele começo esmagador com "Things Behind the sun". Mas resisti. Não pode ser. Uma coisa de cada vez. É o que o meu pai me anda a dizer desde sempre, esperançoso de ver curada a minha tendência compulsiva e violenta para a indecisão dispersiva.

"Nearness of You: The Ballad Book" - Michael Brecker

Não estou a ouvir os cds ao lado todos ao mesmo tempo, mas não tenho ouvido outros nas últimas duas semanas, com excepção do "Live in Tokyo" de Brad Mehldau, que ando a ouvir há mês e meio em sessões mais ou menos doentias e com grande fixação no tema de Radiohead e nos de Nick Drake (que pena o cd não trazer também o "50 ways to leave your lover", de Paul Simon, que está disponível no site).

No fim-de-semana passado um amigo apareceu cá em casa com este "Nearness of you" e eu, depois de ouvir a primeira faixa, expliquei-lhe que, não acreditando nenhum de nós em milagres, teríamos de realizar, antes dele se ir embora, o milagre da multiplicação. Não sei como conseguimos, mas ficou cá um para mim.

O Allmusic, ex-páginas-amarelas-da-música, hoje azuis, agora, além de estar mais pesado, pede-nos que façamos login para aceder aos créditos dos discos, mas o milagre saiu com ficha técnica e tudo:

Michael Brecker - tenor sax
Pat Metheny - guitars
Herbie Hancock - piano
Charlie Haden - bass
Jack DeJohnette - drums
James Taylor - vocals (2, 5)

Eu tenho andado no céu com este disco. Apetece sobretudo ouvi-lo à noite e, uma vez a soar, por muito cansada que esteja, acordo. Não ando a dormir nada bem por causa disto.


Eclectismo jornalístico

Fui ver esse fenómeno de cor e movimento que é qualquer primeira página do "24 Horas" que se preze e quando entrei no site tropecei em notícia sobre descarrilamento de comboio em Inglaterra provocado por suicida: "não quiz morrer sozinho", escrevem.

A primeira página de hoje traz destaques sobre a Quinta das Celebridades, o processo Casa Pia e a roupa interior de Jorge Gabriel. Tudo junto. Isto sim é amar o povo: saudável entretenimento, actualidade nacional e factos curiosos a respeito de celebridades, tudo na mesma publicação. E uns erros à mistura, não porque não saibam escrever, estou certa, mas para evitar melindres entre as pessoas singelas.

8.11.04

O homem mediterrânico de anorak. Visualizar conceitos. Desvio.

Ocorreu-me agora. O homem mediterrânico de anorak, luvas, cachecol, cheio de frio, contente, a beber chocolate quente e a ler Dostoievski. O "Recordações da Casa dos Mortos". E eu que sempre o tinha imaginado descalço e de calções, num terraço caiado, à sombra, a temperar uma salada com azeite e coentros, a beber uma cerveja e a ler, indolentemente, Ésquilo. "As Suplicantes".

POP carpe diem

- Na próxima semana tenho um dia de férias.
- Ai sim? Vais para onde?
- Fico em Lisboa.
- Mas, mas... tens de ir a qualquer lado. Que vais fazer em Lisboa?
- Ver filmes.
- O que é isso?
- Faço um plano, compro bilhetes e entro nas salas. Em princípio, um dia dá para quatro.
- Vais gastar um dia de férias para te meteres no cinema? Que desperdício! Ao menos vais fazer isso na Segunda?
- Não, saber que no dia seguinte é Sábado também é um activo.
- Um escândalo...
- Podia não ir ao cinema, podia tirar o dia só para não estar aqui. Dormia bem de manhã e à tarde não fazia nada.
- Um dia vais arrepender-te de aproveitar tão mal a vida. Há umas camisolas de senhora fantásticas em saldo no Corte Inglês, já as viste? Olha que não esperam por ti.

7.11.04

País

En el agua negra,
árboles yacentes,
margaritas
y amapolas.

Por el camino muerto
van tres bueyes.

Por el aire,
el ruiseñor,
corazón del árbol.

García Lorca
Suite del Agua

Na mercearia (ou a explicação do Direito)

- Boa noite.
- Bom dia.
- Como, se já passa da uma da manhã?
- Oficialmente só podemos estar abertos até às sete da tarde, caríssimo senhor.
- Mas agora estão abertos à uma da manhã.
- Oficialmente, estamos fechados: bom dia.

Pronto, arrumei a casa

Quando o Húmus começou não era suposto ter imagens, passagens de livros, capas de cds. Agora terá de ter espaço também para essas coisas quando for caso disso e tudo terá de coexistir. Não percebo ainda como.

Vou fazer imediatamente uma experiência com uma senhora que nunca abandona completamente o meu pensamento.


Mary Schneider
(a Yodelona)

Não é que nunca me abandone mesmo. E só me acompanha desde Março ou Abril deste ano, porque antes eu não tinha tido o prazer. Supostamente esta senhora canta a sério. Mas tenho em meu poder - gosto muito desta expressão - um mp3 de um programa de rádio onde Mary Schneider canta "Starway to Heaven" e ri dela com os que riem dela nesse programa.

Espero nunca vir a encontrar um mp3 semelhante da Natália de Andrade.

p.s. Não confundir com Maria Schneider. Lapsos verbais são perdoáveis, porque compreensíveis. Já não, dizer-se de Maria Schneider que "tem uma voz extraordinária, não é?", como a senhora da loja onde comprei o "Coming About".

5.11.04

A torta de açúcar

Uma amiga escreveu-me a dizer que, pelos vistos, eu como as tortas que só sabem a açúcar. MENTE!

Dúvida

Quem comerá aquelas tortas clássicas de pão-de-ló enrolado em qualquer coisa castanha escura que devia saber a chocolate mas que só sabe a açúcar?

As coisas que eu sonho

No último sonho que tive soube a partir da primeira cena - e era uma cena - que estava a sonhar. Era Lisboa, não sei em que ano, e acontecia um terramoto. Na primeira cena eu estava dentro de uma nuvem ruidosa e movediça de pó e pedras. Suponho que sobrevivi. Depois? Depois a cidade estava destruída e, por qualquer razão que não consegui compreender, a organização política do país, como a conhecemos, tinha sucumbido. Havia uma anarquia generalizada e uma espécie de ilhas ou de guetos com uma organização muito precária, que garantiam segurança e serviços mínimos e que impunham regras absurdas àqueles que aceitavam viver lá. Fora dos guetos a violência era total. Esses guetos funcionavam em alguns quarteirões da cidade, aqueles que tinham permanecido de pé, e em redor dos quais se tinham erguido muros. Os guetos eram mais ou menos proibidos, também não consegui compreender porquê, uma vez que não me pareceu que existisse qualquer autoridade capaz de impor ou proibir fosse o que fosse. Seja como for, oficialmente, os guetos eram só empresas de recursos humanos. E quem quisesse ser admitido no gueto tinha de passar por um momento burocrático e fazer de conta que procurava emprego. Dentro dos guetos havia tudo o que há na vida, mas era tudo muito sujo e muito básico. Por exemplo, em duas assoalhadas degradadas, consideradas um luxo por terem paredes e tecto, viviam no mínimo seis pessoas. Havia pessoas a dormir nos patamares dos prédios. As pessoas eram grotescas, como num espectáculo de circo: tentavam continuar como se nada fosse e imitavam as formas de tudo o que tinha sido perdido, mas só as formas, mais nada. Como aquela alegria dos palhaços que é toda só pintada. Foi por isso que pensei nos circos. E as regras impostas ou eram medievais ou eram só absurdas. Não havia como confiar em ninguém. Lisboa estava irreconhecível, completamente destruída.

4.11.04

Pois faltava

"Os subscritores de jazzportug@l já são mais de 5.000 e só para eles que somos fica esta para acabar: a caminho vem um recorte antigo de um jornal diário português onde numa peça escrita e média de tamanho se afirma - Ella Fitzgerald era filha de um português! Só nos faltava mais esta..." - Boletim #140 * 01-11-2004 *.

Só eu vejo o que mais ninguém vê.

É impressionante como é difícil aceitarem-se as decisões das pessoas. Admitir que os outros podem decidir coisas. Não passa pela cabeça dos que não conseguem viver sem teorias da conspiração que não acreditar naquilo que lhes é dito e perder uns minutos a imaginar possibilidades alternativas é, de certa forma, uma ingerência e, novamente, não respeitar a liberdade de decisão dos outros.

Fora isto, as teorias da conspiração são sempre mais divertidas do que outra coisa qualquer porque, normalmente, os que são capazes de as gerar precisam delas, entre outras coisas, para se indignarem e a indignação de tais desesperados costuma ser hilariante.

As pessoas precisam ou gostam de dramas? Não sei, não entendo. Tudo isto é muito telenovelesco, as teorias da conspiração são muito telenovelescas... pena eu ter perdido, por exemplo, o link com a triste história do Germano. Pobre Germano, esse não é/era paranóico, mas uma verdadeira vítima.

3.11.04

O princípio da Fé

1.º Todas as coisas da cozinha levam à sua parte mais alta: do chão para a cadeira, da cadeira para a bancada, da bancada para o frigorífico, do frigorífico para a lâmpada do tecto e desta para a parte de cima dos armários.

2.º Todas as coisas da cozinha existem com o propósito de permitir chegar à sua parte mais alta. O frigorífico, por exemplo, dá peixe, que é energia para saltar.

3.º Se uma destas coisas falha, já nada disto resulta. Logo, a organização da cozinha é fruto da inteligência divina de um ser superior, criador de todas as coisas.

Como explico eu à minha gata que ninguém pensou nela enquanto se arrumava a cozinha e que a aparente perfeição dos trampolins não passa de um mero acaso? O princípio da Fé: confundir-se adaptabilidade com propósito.

22.10.04

Largo

Só sinto falta do recreio
das onze

e da cor húmida
do musgo

e da terra
nos joelhos

e do cheiro a lápis
e a borracha
do estojo.

De resto, podia perfeitamente ter crescido.

14.10.04

Vai um pratinho de tremoços?

A cumplicidade que a cervejinha introduz é mesmo importante. Descomprime quem serve a cervejinha, que é logo melhor servida, tornando-a ainda mais cervejinha do que quando foi pedida. A cervejinha diz ao empregado "Agora tu estás aí a atender-me mas mais logo quando acabar o teu trabalho também tu vais beber uma cervejinha... a tua cervejinha". É uma piscadela de olho, a cervejinha, é a expressão niveladora que equilibra a relação entre quem pede e quem atende.

Até pode pedir-se uma imperial ou uma cerveja quando se tem pouco tempo, mas quando se tem muito, como aos fins-de-semana ou em férias, é imperdoável não se pedir uma cervejinha, que também traz implícita uma longa interjeição de prazer não tipificada porque inseparável dos ditos que se lhe seguem: "Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaah!, que bom é sentar-me aqui sem nada para fazer... quando vier a cervejinha, será o céu". De notar que no momento em que a pessoa se senta, a interjeição atípica, se não é verbalizada, é intensamente sentida, e que os olhos, brilhantes de satisfação e de ansiedade, procuram já aquele que trará a cervejinha... e para que nada corra mal há que pedir uma cervejinha.

Se isto é assim entre dois estranhos, que em comum só têm um conhecimento intuitivo do significado da cervejinha, a cumplicidade desce fundo, enriquecendo-se, no caso do mesmo pedido ser feito entre pessoas que se conhecem bem, como em "Amigo, arranja-me uma cervejinha!". Verbo arranjar. E como explicar a um estrangeiro que a cervejinha não está avariada?

14.9.04

"Era uma casa muito engraçada

Não tinha teto, não tinha nada
Ninguém podia entrar nela não
Porque a casa não tinha chão
Ninguém podia dormir na rede
Porque a casa não tinha parede
Ninguém podia fazer pipi
Porque penico não tinha ali
Mas era feita com muito esmero
Na rua dos Bobos, número zero.
"

Tinha três anos quando aprendi a cantar isto. Passávamos as férias na Praia Verde. Eram os anos do PREC. Havia os meus pais, os amigos dos meus pais, os meus tios ainda sem os meus primos, tendas, cigarras, redes para dormir a sesta presas a pinheiros, vasos de resina. E o cheiro da resina. Havia fogueiras na praia, à noite, e guitarras. Eu adormecia ao colo da minha mãe, a ouvir a voz dos grandes a ficar mais arrastada e as canções ficarem a meio, misturadas com o som da rebentação.

A praia tinha dois acessos: umas escadas certinhas, que descíamos de manhã, e uma rampa larga, em ziguezague, que subíamos para regressar ao pinhal. A meio da rampa, do lado esquerdo, havia uma casa pequena em ruínas. Não tinha tecto. Quando aparecia e a minha mãe começava a cantar A Casa.

O resto da minha infância gira em torno destas coisas: os pinheiros, a resina, o mar, um chapéu de palha que enchia a cara da minha mãe de sombras e pontinhos de sol, e a canção d’A Casa depois da praia.

13.9.04

Uma oportunidade única

- Vais ao concerto da Madonna?
- Não.
- Mas é uma oportunidade única!
- Não gosto. Não vejo onde está a oportunidade.
- Eu também não gosto, mas vou pelo espectáculo :-)
- Hã?
- Sim.
- Desculpa?
- Não é a música, entendes?, eu da música também não gosto, mas é uma oportunidade única de ver um espectáculo único.
- Não gostas da música mas a música não te incomoda e consegues permanecer num sítio onde o espectáculo é a música embora não gostes da música só pelo espectáculo; é isto? Não consigo compreender.
- Pá, olha, traduz como quiseres. A música é indiferente.

7.9.04

A música segundo o povão

Bill Evans, "You Must Believe In Spring" - música soporífera, música fúnebre
Count Basie, "Basie Meets Bond" - música a preto-e-branco
Jelly Roll Morton, "The Piano Rolls" - música de filme mudo
Keith Jarrett/Gary Peacock/Jack DeJohnette, "Whisper Not" - música secante, música fúnebre
Louis Armstrong, Antologia da "BD Jazz" – música velha
Miles Davis, "Kind Of Blue" - música de embalar
Morelembaum2/Sakamoto, "Casa" - música triste
Tom Jobim, "Inédito" - música triste
Tom Waits, "Blood Money" – música de bêbedo

29.8.04

Sexta-feira à tarde

Cortaram a relva nos jardins
e regaram.
A noite tremeu de frio.

Cortaram a relva nos jardins
e regaram.
Eu passo e agora não estou aqui,
agora só estou aqui.

Cortaram a relva nos jardins
e regaram.
A minha casa nasceu na água.

25.8.04

Desportos radicais

Escolher slides com uma gata pequena a mover-se à volta e por cima da mesa. Isto foi sem projector, a sacar um a um das caixinhas. Com projector não consigo imaginar. Que fará a gata cada vez que vir um slide a entrar na máquina? E a sair? E o som? Resta-me uma esperança: que as fotografias, enormes e luminosas, na parede, constituam diversão maior que qualquer outra.

16.8.04

Direitos de autor protegidos!!!

Nas piores páginas nunca se consegue usar a tecla direita do rato. Tudo tem direitos reservados, tudo tem direitos de autor protegidos (como se a protecção dependesse dos avisos), tudo, sempre, com três ou mais pontos de exclamação no fim, que dão um encantador tom histérico à coisa. O significado destas exclamações é um indignado "Como se atreve a tentar roubar-me?"

Quando digo as piores páginas quero mesmo dizer as piores páginas. Mas alguém vai roubar fadas, unicórnios, poemas de adolescente cheios de erros ortográficos e fotografias de margens esbatidas com cães e gatos abraçados e rodeados de flores? Compreenderão estas pessoas o ridículo dos avisos? E que, mais minuto, menos minuto, sempre se conseguem os endereços para enviar aos amigos via MSN, durante as conversas de escárnio e maldizer?

Gosto especialmente dos avisos que incluem os links para outras páginas. E daqueles que acabam com "Volte sempre!!!", o que por extenso quer dizer algo como "Não, não pode usar esta linda paisagem digital com mar verde, sol prateado e borboleta dourada com corpo de mulher azul e olhar bondoso como wallpaper, mas pode voltar para vê-la sempre que quiser." A partilha é uma coisa muito bonita :')

Um dia crio uma pasta nos favoritos e começo a coleccionar avisos. Seja como for, e ainda sem a colecção começada, o meu aviso preferido dificilmente será destronado. Está nesta página, onde se pode ouvir "Mocidade", de António Calvário. Só ouvir. Se tentarmos sacar o endereço do mp3 salta aviso "- Compra o CD nas lojas !". É maravilhoso :)

5.8.04

Erosão

No meu trabalho há letras e a lógica das letras, palavras e a lógica das palavras, parágrafos, analogias e retórica. Não é à toa que mantemos fechados os estores; em casa, às mesmas cortinas chamo persianas.

3.8.04

Podia ser sempre Verão

Podia ser sempre Verão
e às vezes chovia.

Chovia muito e depressa
e logo, outra vez
os dias eram quentes.

A terra ensopava
as fontes faziam-se
a terra evaporava.

29.7.04

Ah, mas assim a coisa muda de figura

Hoje acordei ao som de uma notícia, na Antena 1, em que se dizia que Joana Lemos, piloto, e Ricardo, futebolista, estão a dar a cara em apoio ao novo PM.

Eu acho que, por princípio, nunca se deve dar a cara porque a cara é necessária. Por isso, dar a cara é um gesto de coragem e um gesto de fé... de Fé. Fé é o que é preciso para viver em paz num país com este PM.

Como Joana Lemos e Ricardo estão a dar a cara - e como deve doer essa lenta tortura! - estou muito mais descansada. A verdade é uma coisa relativa e quem diz o contrário é fundamentalista e intolerante. Às vezes, as pessoas simples de bem percebem muito mais destas coisas que as outras todas juntas. Sim, porque sentem, em vez de pensar ("a pensar morreu um burro", como bem diz o povo) e, com a Luz da Fé, a sua vista alcança coisas que escapam aos não iluminados.

Fiquei muito mais descansada, mas não completamente descansada. Só vou ficar completamente descansada quando ouvir que também Rita Salema, Alexandra Solnado e, por via desta, Jesus Cristo, estão a dar a cara pelo novo PM.

Modelo de Ser

Hoje ao almoço, uma peça sobre a venda de bilhetes para o concerto de Madonna, na Sic Notícias, chamou-me a atenção. Entrevistada por se sentir "feliz, feliz, feliz" com a realização desse concerto, uma rapariga explicou à repórter que Madonna era o seu "modelo de Ser". Tenho a certeza que o disse com maiúscula.

27.7.04

Contraste

Em consequência do contacto estabelecido no Sábado com as coisas que mais me interessam, os dias de trabalho, em gabinete fechado com paredes cinzentas e estores corridos por causa do calor mas sem luz, não estão a correr bem. Da comparação, inevitável, mais que desconforto, resulta nojo. Nojo inteiro, com tudo o que tem de náusea, luto e perda.

Um dia eu ia para a faculdade entregar uma trabalho, depois de uma directa a rever notas de rodapé e a imprimir, e, com aquela lucidez do cansaço, perguntei-me, ao cruzar-me com algumas árvores, que ligação tinha a minha tese com elas e com tudo o que verdadeiramente importa. Não tinha ligação nenhuma. Não tem.

As coisas que se inventaram para proteger os homens e para que estes pudessem, sem problemas, sentar-se à sombra das árvores, há muito perderam o rumo. Ninguém as vê como acessórias, ninguém se lembra que servem para servir. Tornaram-se fins em si. E tudo se ergue em torno desse desvio.

Que faço eu aqui?

Contacto

Mergulhar o rosto na água das fontes. Mergulhar os braços na água gelada e transparente das fontes, devagar, começando pela ponta dos dedos, até ficar debruçada sobre a pedra, e ir observando como a pele, dentro de água, vai ficando cinzenta e os gestos se demoram e arrefecem. Andar descalça na terra macia e áspera dos jardins. Ficar quieta nos subterrâneos e ouvir o som e o eco da água que corre. Ficar quieta dentro de edifícios nus, em pedra, quase sem luz. Estar onde a terra cheira intensamente a terra. Encher mãos e braços com terra molhada e cheirá-los.

Sábado fiz tudo isto.

26.7.04

Quarenta graus à sombra e uma gata pequena

O meu reino por uma mosquiteira!

23.7.04

Antecipação

Este ano o Outono chegou mais cedo e mais triste.

22.7.04

Os cavaleiros camponeses no ano 1000 no Lago de Paladru #2

Era um bom nome para um blog.

Extintor de pó químico seco

«1. Puxar a cavilha que fecha
2. Carregar no botão com força
3. Dirigir a pistola extintora para o fogo e pô-la em acção.»

O que é que fecha o extintor? A cavilha. Puxar a cavilha que fecha o extintor. O extintor tem um botão. Carregar no botão. Com força. Dirigir a pistola extintora para o fogo, que ficará na mira, e pô-la em acção.

Cavilha
Botão
Força
Pistola extintora
FOGO
Acção

A banheira

A minha gata descobriu a casa-de-banho. Há uma semana que os trabalhos começaram. Antes disso, quando me via entrar na banheira, ia para a porta da casa-de-banho e dali, mal eu abria a água, fugia para longe.

Depois foi-se aproximando. Durante uns cinco dias observou-me no duche escondida entre a parede e o cesto da roupa suja, atrás do suporte das toalhas, olhando por baixo da toalha mais baixa. Estratégia: ela via a banheira, mas a banheira não a via.

A banheira é uma criatura. Jorra água e quando não está a jorrar água é funda, escorregadia e suspeita. Que faço eu lá todas as manhãs é o grande mistério do universo da minha gata. De início, quando eu saía de lá, também fugia de mim.

Há uns dias que o medo se foi. Depois de ter aprendido a beber água a partir da torneira do bidé, fui encontrá-la dentro do lavatório a lamber a torneira fechada. Abri-lhe essa torneira para que compreendesse que a água é igual. Dois e dois são quatro e a gata deve ter suspeitado que a banheira seria uma criatura semelhante, embora maior e mais expressiva.

Agora, sempre que chego a casa, tenho as loiças da casa-de-banho cheias de marcas de patinhas. E esta manhã, para conseguir tomar duche, tive de a expulsar da banheira três vezes e fazer voz zangada. E já não observou escondida, mas descaradamente. Se isto continua assim, qualquer dia pede-me para tomar banho. Pode ser já amanhã.

16.7.04

Encruzilhada #2

Não há sol maior que o meio-dia sobre a pedra. O resto é medo.

Encruzilhada

Não se abre um bicho-da-seda impunemente.
Algo morre sob os olhos,
onde a escuridão é feita de sangue.

E se eu abrir o mundo?

5.7.04

Queimar pestanas

Nervoso miudinho – faltará algum livro ou artigo que não possa deixar de ler? Contar o número de páginas, o número de dias, calcular o ritmo de estudo, fazer as contas e estabelecer as metas diárias. Beber muitos cafés. Roer as unhas. Sentir insegurança. Sentir segurança. Estas são engraçadas porque a segunda tende a substituir a primeira à medida que se avança nas leituras e na hora-h tende a aparecer inteira, como no primeiro momento. Fumar cigarros e beber leite. Aprender coisas novas. Ter prazos e temer os prazos. Reaprender coisas antigas. Explicar as coisas novas e as coisas antigas à parede em frente à secretária, até ela ficar satisfeita e todos à volta pensarem que se está louco. Adormecer com algo mal compreendido na cabeça e acordar com a questão esclarecida. Não sei como, mas tinha saudades disto.

1.7.04

Das razões pelas quais os amigos dos meus amigos nem sempre regressam a minha casa #2

– Vais pôr um cd a tocar?
– Não, de vez em quando tiro um cd da capa e passeio-o pela sala. (sorriso)
– (sorriso amarelo) Gosto muito de música! Adoro ópera!
– (sorriso) E que ouves?
– Andrea Bocelli. Gostas?
– Não. Mas, que ouves? (grande sorriso)
– Bocelli.
– Sim, mas que preferes? (riso)
– Bocelli!!! (veias salientes)
– Bocelli canta muitas coisas: que preferes? (riso)
– És um bocado arrogante, sabias?!!! (veias salientes)
– Porquê? Por insistir na pergunta?
– Sim! Se eu não disse nada é porque não sabia, não achas?
– Eu não acho nada. Se querias que eu soubesse que não sabias devias ter dito isso mesmo.
– Pois mesmo sem saber gosto muito da voz dele, do sentimento que põe na voz, e além disso tem muito mérito porque é cego e...
– Se fosse cego e tirasse fotografias, e no pressuposto de que as fotografias eram porreiras, sim, seria grande o mérito, e se...
– (olhos muito abertos e veias a aparecerem)
– ... fosse surdo e ainda assim cantasse, se cantasse bem, teria mérito...
– (olhar indignado)
– ... mas Bocelli, sendo cego, canta, ainda por cima canta num tom lamechas insuportável, por isso não vejo onde está o mérito.
– (olhos esbugalhados) Como podes ser tão insensível?!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! (veias salientes) Gozar com uma pessoa cega!!!!
– Não estava a gozar mas a constatar alguns factos relativos a Bocelli, a partir de um comentário despropositado teu. É cego, não é? Acabei por não compreender se gostas de facto do senhor ou se condescendes na sua má cantoria porque é cego.
– Nunca conheci ninguém tão insensível como tu!!!!!
– Está bem. Queres mais café? (sorriso muito simpático)

Das razões pelas quais os amigos dos meus amigos nem sempre regressam a minha casa

– Tantos livros! Gostas de ler?
– Não, mas entre coleccionar caricas e coleccionar livros, pareceu-me melhor coleccionar livros porque são mais decorativos.
– (sorriso amarelo)
– (grande sorriso)
– Eu também gosto de ler. Gosto muito de Paulo Coelho, conheces? Gostas? (sorriso entusiasmado)
– Sim. Não. Escreve livros horríveis.
– (sorriso amarelo) Quem somos nós para julgar...? (sorriso condescendente a antecipar o triunfo do argumento).
– Somos os leitores.
– Deves pensar que és muito inteligente!!! (cada ponto de exclamação representa uma veia saliente no pescoço)
– Queres mais chá?(grande sorriso muito simpático)

15.6.04

Fenómenos paranormais #3

"Gosto de ler de tudo um pouco, pronto, é isso..." - Esta ouvi-a durante o almoço a uma senhora mística que tentava explicar a um jovem racionalista que a bombardeava com perguntas (ex. "Mas porque perde o seu tempo com essas patranhas?") o porquê de ler coisas tão edificantes como as conversas de Jesus com Alexandra Cabrita Solnado.

O almoço foi no Psi e, apesar de tardar o maravilhoso sumo de melancia, estava excelente. Um bom restaurante vegetariano não nos serve apenas o almoço. Serve-nos sempre, no tabuleiro da reflexão, um diálogo místico (pelo menos).

Os cavaleiros camponeses no ano 1000 no Lago de Paladru

Era o tema da tese de Camille Lalande neste filme e em segundos entrou no meu top 5 de ideias hilariantes. Até porque bem vistas as coisas não há tese neste mundo que se livre, numa ou noutra nota de rodapé, de se debruçar sobre a questão dos cavaleiros camponeses no ano 1000 no Lago de Paladru.

11.6.04

Armazém de matéria-prima #4

É muito fácil falar para ti, para nós ou falar de nós. A poesia é a maior das transcendências. Quero o mínimo diálogo, a maior solidão e, aqui, sem ninguém, saber se as árvores continuam a falar dentro do fogo, do lixo e da morte.

Armazém de matéria-prima #3

Não menosprezar a importância dos agrafadores, do furador de papel e da fita-cola. A pedra ao sol, no Verão, tem pó. O mesmo se passa com as mãos.

Armazém de matéria-prima #2

A palavra seguinte, na outra
linha,

cai.

O verbo seguinte, na outra
linha,

sem nome e sem mundo.

Conclusão, concluir:
o verso é nu,
o verso é insuportável.

Mapa-múndi do princípio do Verão

Há, no calor, uma ilusão de voo
e de desequilíbrio, suor e cansaço.
E as noites, entre todas as noites,
a arder inícios contra a ladainha do sono.

É áspero o tronco da árvore na palma da mão e
as flores são criaturas do ar - estão nos jardins,
nas ruas sem vento, entre as paredes por cair.

E o cheiro das flores está na morte.
E o calor no corpo, sobre o corpo.
E o sol na pedra, sobre a pedra.

4.6.04

A virar as paredes do avesso

Pelo cheiro das árvores dentro da casa percebi que estariam quietas. Fui à janela: lua cheia. Fiquei, mesmo quando o vento apareceu e as árvores voltaram a mexer-se e a soar. Depois, num momento, entre o som dos carros, espaçado, e o som dos grilos, começou a ouvir-se o silêncio e as árvores pararam outra vez. Quando a lua está muito grande, o silêncio fica maior. Há níveis de silêncio que eu nunca compreenderei. Níveis de silêncio como mapas do mundo, frios e quietos, sem eco. Isto expande-se ou isto contrai-se? Isto vem de onde? Há também as coisas no silêncio: a mão, a mão no vidro, o vidro frio, o vidro húmido da mão, o chão. E passos. E um som de vozes na rua, rápido, onde o silêncio se ouve mais. Poderia não dormir para ficar a ouvir. E ver na mesa, no lápis, no soalho, nos pés, no chão morno e no movimento do corpo em cima deles, nos gestos abertos na habituação dos olhos à escuridão, no cheiro das árvores a concentrar-se na casa entre os ventos, o silêncio a corroer as formas até tudo anoitecer.

29.5.04

Fenómenos paranormais #2

"Isto da canalização é uma coisa muito subjectiva." - ouvido na rua, da boca de um canalizador.

Fenómenos paranormais

Além de eu estar acordadíssima há horas nesta sagrada madrugada de Sábado que, no meu juízo perfeito, só poderia consagrar a Morfeu: quem é Terry Blaine? A entrada nas páginas amarelas da música não me ajuda muito. Tropecei neste disco há dias e, caramba, sim, são clássicos, e são deliciosos, não consigo parar de ouvir. Percebi hoje que teria pelo menos um cd da Hagel Records em casa e confirmei no site tratar-se da editora de Lyambiko. Mais nada a respeito de "With Thee I Swing" ou de Terry Blaine. No ciberburgo sonoro tuga não encontro uma - uma! - palavra a seu respeito ou a respeito de qualquer dos músicos de "With Thee I Swing" (e como o título do cd é justo!).

27.5.04

Da origem das claras em castelo

Mas qual é a dúvida? Foi Penélope, obviamente, enquanto esperava por Ulisses. Fazia e desfazia o véu?! Histórias, histórias são. Também há a do Pai Natal, a do Coelhinho de Páscoa e a do Menino Jesus. Get real.

Leitura de sobrevivência #4

"Artigo 1322º
(Enxames de abelhas)

1. O proprietário de enxame de abelhas tem o direito de o perseguir e capturar em prédio alheio, mas é responsável pelos danos que causar.

2. Se o dono da colmeia não perseguir o enxame logo que saiba terem as abelhas enxameado, ou se decorrerem dois dias sem que o enxame tenha sido capturado, pode ocupá-lo o proprietário do prédio onde ele se encontre, ou consentir que outrem o ocupe."

Código Civil Português (Livro das Coisas > Título II, do Direito de Propriedade > Capítulo II, da Aquisição da Propriedade > Secção II, da Ocupação)


Fica no ar a pergunta, a zumbir:
E se o proprietário das abelhas que enxamearam for surpreendido pela chuva enquanto as persegue e tiver à mão um saco de plástico?


Transformers

Se há coisa que me comove é a capacidade de adaptação humana e, dentro desta, a capacidade de adaptação à chuva, sobretudo quando inesperada [ambiguidade curiosa, esta, fica mesmo assim]. Há dias enviaram-me este exemplo delicioso. Não é bonito? Ainda por cima, pelo desenho do passeio atrás das senhoras, fica-se a pensar que provavelmente surgiram assim, de repente, vindas do recato de uma esquina – o inesperado, também nestes casos, cai sempre bem. Aqui há uns anos, em Fátima, surgiu-me, também vinda do nada (havia uma parede que reduzia o campo de visão), uma senhora de joelhos, à chuva, com um saco amarelo na cabeça - inesquecível momento! A propósito de Fátima, recebi também esta santinha.

25.5.04

A Terra não cai ao Sol porque gira sobre si mesma

Subo o Lavra a pé porque os elevadores estão parados a meio da rampa, em manutenção. Viro aí à esquerda para as escadinhas. Cá em cima, as árvores impossíveis da Rua Júlio de Andrade e as gaitas da Juventude da Galiza, ao mesmo tempo. De passagem, o Torel, ao fundo do qual se abre Lisboa, mas hoje tinha fome: enfio-me no café galego e lancho enquanto leio o Público de tal forma até ao fim que nem as notícias desportivas escapam. Que vergonha, Carlos Queiroz! Que vergonha, Nuno Ribeiro, "até há hora do fecho" não leva H e, no fim do quarto parágrafo, a "passagem de testemunho" está mal aplicada!

No fim do cigarro, depois do lanche, um dilema: ceder à preguiça e continuar a ler o jornal, o que implicaria ler o Bridge e uma coluna sobre os príncipes de Espanha, ou regressar a casa?

Levanto-me, pago, saio. Outra vez a Rua Júlio de Andrade. Sol, folhas verdes, vento e pássaros. Como eu adoro esta rua. No Campo Santana acabou a limpeza da fachada da faculdade e os andaimes estão agora no chão. No passeio em frente, um homem grande debruça-se e faz três festas rudes na cabeça de um rafeiro que fecha os olhos e abana a cauda, e logo a seguir cada um segue o seu caminho: o rafeiro, para a estátua do Sousa Martins; o homem, no sentido do Lavra.

Quando entro em casa, ainda há sol no soalho. Não ligo a música. Sento-me no chão e ouço a noite a chegar.

18.5.04

Andou Prometeu a roubar fogo aos deuses para isto #4

E ainda há aquela ideia linda das pessoas normais segundo a qual a música se descobre na adolescência e o cinema, o teatro, as exposições, os concertos se frequentam na idade do acasalamento, após o que cessam. Isto não é dito assim, claro. Quem adere à coisa explica-o de forma quase ingénua. Quem referiu acasalamento fui eu, que de tanto ouvir os avisos dos meus colegas ("cá chegará, cá chegará") os comecei a imaginar como pavões. O instinto da espécie para a preservação e continuação é mesmo poderoso. De outra forma como explicar que depois de estabilizada uma relação, a descoberta do mundo passe a ser desinteressante porque "há outras coisas a fazer"? Volta, Schopenhauer, estás perdoado.

Andou Prometeu a roubar fogo aos deuses para isto #3

Usar isto é um insulto. Conceitos jurídicos objectivos, como ilegalidade, réu, arguido, inconstitucionalidade e incompetência, são insultos. Quando cresceremos?

Andou Prometeu a roubar fogo aos deuses para isto #2

Mas este clássico não revela apenas a incapacidade geral para encaixar a crítica. Revela também, no caso concreto, um problema mal resolvido com o poder. Ter poder não é estar acima de todas as coisas e ao abrigo de todos os dedos. Pelo contrário. O poder, especialmente o público, existe para servir. Não soubesse eu como e há quanto tempo e dormiria muito mais descansada.

Andou Prometeu a roubar fogo aos deuses para isto

Eis um exemplo clássico de como se confunde, normalmente, a classificação do acto com a classificação da pessoa. O exemplo não é filho único. A crítica à atitude é sempre sentida como crítica à pessoa que age. As críticas feitas ao livro lido, ao texto escrito, à música ouvida, são sempre tidas como pessoais. E isto está em todo o lado: nos mercados, nas conversas de café, no trabalho e nos tribunais. E gasta-se dinheiro e abrem-se processos com isto. Porque é que os adultos não são pessoas crescidas, capazes do dom do discernimento, capazes de serem um pouco mais o que não se vê e só eles sabem e um pouco menos os sinais exteriores de existência com que se identificam e confundem?

17.5.04

Lost in translation

Todos os dias, ao fim da tarde, um pardal poisa na extremidade esquerda da corda onde estendo a roupa. Vejo-o através da janela da salinha. De início via-lhe a sombra, agora abro também a janela da marquise nesse sítio. Poisa. Canta duas vezes. Responde-lhe outro pardal que não posso ver. Canta outra vez e vai-se embora.

Fortuna

No regresso a casa, faço questão de me encostar às árvores na rampa do Instituto de Medicina Legal e descer junto a elas à hora em que o sol se põe e o vento surge. As árvores estão plantadas na rua, uns metros abaixo. À beira do varandim, no início da rampa, fica-se à altura das copas, as folhas largas ao alcance das mãos. Sou incapaz de dizer isto de outra maneira. Que o som de milhares de folhas a tremer não é mais um som entre todos, é certo. Lembro-me, quase sempre, dos mortos engavetados do outro lado da rampa e não me incomoda. O Campo Santana é essa promiscuidade de jardins, pássaros, macumbas e autópsias, uma mescla de gente, orientações e desorientações de vida, as lojas chinesas de lingerie, os revendedores de atoalhados e lençóis e peúgas, as agências funerárias, as floristas. E uma biblioteca municipal que, apesar de ter o nome de São Lázaro, está fechada há um ano e meio e ainda não ressuscitou. No Campo Santana tudo está presente. Até, incrivelmente, a evocação de Fausto no Göethe. Se Mefistófeles sobrevoasse Lisboa numa qualquer noite assombrada, sobrevoaria toda esta área. Fausto é só, de todos os livros, o livro que se mantém há mais tempo como o livro da minha vida, mas há muito deixei de agradecer à fortuna os seus acasos. Embora, por vezes, não saiba bem se deva. Não me ocorre outro lugar em Lisboa com tão densa concentração de coisas adoráveis e bizarras.

10.5.04

A Quintana

Este lugar fala. A fotografia não foi tirada por mim, mas foi assim que vi a Quintana pela primeira vez e sempre que regresso a Compostela faço questão de entrar na praça por ali. Nos três arcos mais à esquerda, ao fundo, há uma loja de recuerdos. O dono parece ter sessenta anos desde que lá vou, há quase vinte anos. É um homem de barbas longas e grisalhas, com ar de hippy que envelheceu feliz; põe colunas sob os arcos, viradas para a praça, e passa música celta over and over again.

A Quintana fica nas traseiras da Catedral e nas traseiras do Convento das Beneditinas. Não percebi ainda o que é mais bonito: se é o desenho da praça, se é a volumetria, se são as pedras lisas, castanhas e antigas, se é o som dos passos nesse chão, se é o eco, se são as figuras sinistras de pedra nos portais da Catedral. Estranho esta praça e o impacto que tem. Penso pouco nisso, volto sempre que posso. Chegar a Compostela é chegar à Quintana. Sair é muito complicado. Só consigo despedir-me depois de umas cinco ou seis tentativas falhadas. Aquilo é meu, tenho a certeza. Não é dos Reis de Espanha, não é dos galegos, é meu.

húmus

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