Isto é extremamente lento. Começou em Março deste ano e eu ainda não saí de New Orleans e não avancei além da década de 20. Estou constantemente a avançar e a retroceder para ouvir coisas que surgiram nesses primeiros vinte anos do século. Ler atrasa ainda mais as coisas. Mas também não tenho marcado nenhum exame. Posso dar-me ao luxo de passar o tempo que quiser em cada época e de ouvir cada música como se todas as outras ainda não existissem. Ou antes devo? Às vezes acho que devo. Que só pode ser assim.
25.11.04
I'm Going Away To Wear You Off My Mind # 2
O que ando a tentar fazer, na falta de uma máquina do tempo, é dar aos ouvidos aquilo que mais nenhum sentido meu pode ter. O livros ajudam a arrumar a informação e os sons, que se foram e vão acumulando, e a visualizar os tempos, porque inserem os factos num contexto mais amplo. Mas sobretudo ajudam a encontrar a música, a desamarrotar os anos antigos, de forma a que eu consiga ver neles os meses, os dias, e, em especial, as noites. Se eu procurasse e ouvisse antologias, sobrevoaria tudo isso, sem nunca chegar a descer. Mas eu quero as vielas, as ruas de terra, o som do frio nas noites de inverno, o cheiro do pó e do suor durante o estio, os motores lentos de alguns, poucos, carros, a porta entreaberta de um sítio suspeito e mal iluminado, o ruído das vozes e da música, o cheiro e o fumo do tabaco, entrar, estar lá da forma mais intensa que a imaginação permita, e ouvir.
Bloody blog # 2
Já está. E com o bónus de, para o título do blog, eu ter encontrado o clássico azul que entra pelos olhos dentro e parece mover-se, do qual sou admiradora desde os quatro ou cinco anos, altura em que o descobri, maravilhada, numa revista dos meus pais.
É provável que isto, a médio prazo, resulte cansativo. Chegada a esse limite, porei fim aos dias vermelhos do Húmus e tentarei dar-lhe um aspecto menos excessivo, de suavidade martin-parriana. Qualquer coisa, sei lá, florida...
Bloody blog
Estou a aproximar-me muito.
Era só para avisar.
Não percebi
24.11.04
Kafka sumiu mesmo
Dei pelo erro há um ou dois dias. Pensei que talvez tivesse estragado o link ao introduzir outro na lista dos blogs. Fui confirmar há pouco. Tudo bem com o meu link: Kafka sumiu. Kafka em Belo Horizonte, Volta de Kafka, Lupa do dia - tudo parado, como antes. Encontrei-os todos amotinados no Prosa e Poesia.
E agora? Como lê-lo? Como não lê-lo?
Vou ali fumar e já volto
Há qualquer coisa além da defesa da saudinha que alegra os não fumadores fundamentalistas por estes dias. Uma alegria no poder que podia até dar direito a farda, uma alegria parecida à que sentiram as mentes vitorianas com a aprovação da lei seca, um melindre moralista e moralizante, ressabiado, que, recalcado durante décadas, finalmente, encontra o seu escape.
E não é só o facto de cada não fumador fundamentalista ser agora um pequeno polícia com o seu pequeno planeta soberano para fiscalizar. É mesmo aquela coisa anterior e básica, que está dentro de todas as pessoas em menor ou maior grau, e na qual os pensamentos mais frágeis facilmente se inebriam: o homem, quanto mais pequeno é, mais gosta e mais precisa de exercer poder sobre. Sobre. Não interessa muito sobre o quê. À falta de melhor, sobre um cão, como disse Camus.
O essencial, todavia, é a imposição de si a outro, como se a identidade se formasse e a identificação se alimentasse das marcas exteriores deixadas sobre os outros, como se não houvesse a certeza de, em si, se ser alguma coisa. Agora é o tabaco, mas podia ser qualquer outra coisa. No fundo, os não fumadores fundamentalistas adoram ser fumadores passivos, coisa que lhes dá o direito de espernear como mais nenhuma.
Os que me rodeiam começam a implicar com o tabaco fumado a céu aberto. Ainda teremos ruas interditas. Não é a saúde, não, tem de haver disto em todos os tempos: uma forma legitimada de impor comportamentos aos outros, no plano das relações quotidianas entre particulares. E acho que depois de trinta anos sem ser possível denunciar os vizinhos à polícia por comerem criancinhas ao pequeno-almoço, já tardava, já fazia falta inventar um novo ascendente. E acho que, sem ser pela sua saudinha, a gente pequenina, que é muita, rejubila.
Eu, se não fumasse, começava agora a fumar.
As borbulhas
O que é que distingue um leitor de um estudante? O tamanho dos livros? A roupa? A quantidade de borbulhas?
23.11.04
Da dignidade poética dos fusíveis
– Ficou subitamente cheia de malmequeres, depois com febre e agora está ali deitada, coitada. Estamos à espera do filósofo. Chamámos um lacrimoso. A tua prima parece ter tido um ataque de lamechice.
– A sério? Onde tem ela os malmequeres?
– Rebentaram pelo corpo todo esta manhã. Mas ontem ao fim da tarde já eu a achei muito estranha. Tinha estado cá um tipo da companhia da luz, a arranjar uma caixa de fusíveis do prédio, e fui dar com a tua prima nas escadas, a dizer-lhe que os fusíveis não têm a dignidade poética das estrelas.
– Oh!
– Foi uma vergonha. Meti-a logo em casa. Mesmo assim não se calou com aquilo durante o jantar e, enquanto tomávamos café, começou a cantar.
– A cantar o quê?
– Começou mesmo a cantar... que os fusíveis não têm a dignidade poética das estrelas. Estava já fora de si, decerto. Mas eu só quando a vi cheia de flores é que me apercebi da gravidade disto.
– Que situação. E como é este lacrimoso? Já tratou alguém da família antes? Tratou o Jorge, não foi?
– Não, o lacrimoso chora, não é? Quem tratou o Jorge durante a fase mística foi um sarcástico. Em boa hora o curou. Já havia música zen em todas as divisões da casa.
22.11.04
A música também é como as cerejas
Ah, e a voz da Mirah dá ares mas não é a mesma coisa. É muito mais bonita.
Ela sentou-se em desdobrar de guardanapo
Ruben A. > Caranguejo
Assírio & Alvim
O Aforismo Suicida
"Além de ser muito chato um reinado paternalista é"
Nesse momento, o Aforismo, que vinha a cair desde o 12º andar, chegou ao chão, onde a queda prometida e irreversível em grande velocidade contra o solo duro se concretizou, vindo o Aforismo a morrer, muito antes da chegada de qualquer ambulância.
O Aforismo desfez-se em verdades e escorreu. Dizem os amigos que nunca o viram tão bonito. Pedaços do corpo do Aforismo, que se conseguiram apanhar e meter em tubinhos de ensaio, não ficaram em câmara ardente nem foram acompanhados por admiradores até à última morada porque foram bebidos:
"O Aforismo é Cultura e a Cultura bebe-se, ao contrário das alfaces, que"
Os amigos do Aforismo eram todos muito cultos e bebiam muitas coisas, mas nenhum comia verduras - concluí eu, desta vez sem aspas.
Outros pedaços do Aforismo evaporaram e entraram no ciclo das águas vindo mais tarde a regar e a alimentar alfaces que, por sua vez, foram comidas por pessoas que nem conheciam o Aforismo.
SIM ou NÃO?
Que chá gosta mais de beber após infusão prolongada, a sua mãezinha como vai, faz questão de moer sempre o café imediatamente antes de o fazer ou até tolera, por vezes, o pré-moído, se a pedra de Sísifo fosse de rocha sedimentar teria a filosofia ocidental tomado um rumo tendencialmente ascendente ou descendente?
20.11.04
18,5 GB
De música no computador. E não encontro sequer um princípio de banda sonora para uma mochila. Talvez num dos bolsos eu encontre a lista de supermercado. Terei de regressar e partir e regressar e partir e regressar e partir e regressar e. Onde foi que?
As mochilas que ninguém reclama
Nas estações. Suponho que se avança. Nas estações. E eu nem gosto de mochilas. Estar-se dentro porque não se está. E a descontinuidade, que é um ruído, cheia de perguntas. A lista do supermercado que foi para o lixo com os talões do multibanco tinha servido outros fins. Estava lá tudo. Ou a parte relevante.
- Onde foi que? Quando foi que?
- Caiu.
- Nem pensar. Onde?
“Lives without dining”
19.11.04
Vi televisão duas vezes
1. Hoje almocei mais cedo e no televisor da tasquinha a sic não estava a passar um noticiário mas um programa de entretenimento. Adoro a ideia entretenimento. Julgo que sirva para entreter e, segundo percebi, chama-se "10 Horas" e deve, portanto, começar às 10 da manhã. E que fizeram eles nos cinco minutos em que coexistiram com o meu almoço? Riram-se, disseram coisas imbecis, folhearam revistas idiotas e comentaram operações plásticas de figuras públicas que não conheço. Havia público. A música de elevador de fundo era, como acontece em geral com a música de elevador de fundo, muito má.
2. Ontem à noite fui comprar tabaco depois do jantar e no café via-se a Quinta das Celebridades, um programa mais grotesco do que eu supunha. Tinha ouvido dizer que dava muita vontade de rir e que pelo absurdo que era valia a pena ver um bocado. Também não entendo. Ok, são palhaços. Mas não é triste?
Discurso directo
Jornalista: Olá! Então, que achas desta nova medida?
Aluno: Acho bem, porque assim fico a saber que fumar mata.
18.11.04
Grandpa's Spells

Dr. Jazz teria de aparecer, porque ando a ouvir a versão limpinha dos piano rolls há dois dias, outra vez. Mas estas versões menos limpinhas que há no RHJ, caramba, são irresistíveis. Ouvi o 1937-38 da Ella assim que cheguei, duas vezes, e depois liguei o computador de propósito para ir ao RHJ ouvir piano rolls de Jelly Roll Morton e ainda não ouvi mais além de "Grandpa's Spells" porque adoro a forma como o piano soa do meio para o fim. Adoro tudo, mas essa parte não me deixa passar a outros temas*.
___________
O Som
Pronto, comecei a pensar em Ella e fiquei cheia de saudades disto.
Não tenho tops, mas este disco está entre os meus mais intensos afectos musicais. Começa com ruído de disco velhinho, depois as primeiras notas de "Big Boy Blue" e a seguir a voz de Ella Fitzgerald aos 20 anos. É encantador do princípio ao fim. Nunca o empresto, não gosto de me separar dele. Ouço-o hoje assim que chegar a casa.
Ella
Ainda consigo ver depois de leitura em monitor de recorte de jornal sobre Ella Fitzgerald, com letra meio apagada e miudinha, nada mau. O recorte foi deixado no Jazz Portugal por causa do tal pai português de Ella, mas gostei sobretudo do tom do texto do recorte muito caseirinho e quotidiano e quase visualizei tudo aquilo, de forma que durante a leitura me pareceu que Ella ainda existia e que tudo aquilo era o presente. Destaque para o terceiro parágrafo de "Salada e peixe" (começa com "19.30 h - Entra em cena para o primeiro espectáculo") no terceiro e último recorte.
O Jazz Portugal, no boletim de dia 15, pede ajuda para desvendar o mistério do pai português de Ella Fitzgerald. Espero que o autor do recorte seja/fosse um humorista daqueles que gostam de experimentar limites e de dizer coisas erradas, de propósito, para no futuro intrigar os outros. Porque se fosse verdade seria terrível: imagino grande folclore na televisão e nas revistas ocas, de repente programas da manhã com Manuel Luís Goucha a tecer elogios a Ella perante um público constituído por velhinhas surdas, jornalistas a perseguir adolescentes na Rua Augusta para lhes perguntarem "Sabe quem foi Ella Fitzgerald?", como fazem com Camões de tempos a tempos, ou, pior, para lhes perguntarem coisas arrepiantes e muito provincianas como "Sabe que Portugal tem um Grande Nome no Jazz?". Depois, ia aparecer um presidente de uma junta de freguesia qualquer, muito perdida no mapa, e ia dizer "O pai da Ella era daqui". E vinham com ele três velhinhas explicar que a tia de uma delas era muito amiga do rapaz. Em tempos. E depois vinha o Goucha e levava os quatro para o programa e os quatro dariam entrevistas aos vários telejornais nos dois meses seguintes e talvez lançassem um disco porque "na nossa terra toda a gente tem boa voz, é do ar que é munto bom, não é de admirar que Ella...".
Seria um circo. Ella não merece.
17.11.04
As coisas que eu sonho #2
Perseguiu-me todo o dia e agora começava a desaparecer, e eu até queria e eu até senti vergonha quando me lembrei dele ao acordar, mas é demasiado bizarro para me dar ao luxo de o deixar ir: esta noite sonhei que o meu pai era um sacerdote maçónico cuja função era dar pós-sacramentos pagãos. Sobre este conceito de sacerdote, que, ligeiro, me ocorreu enquanto observava as actividades do meu pai, e que acabo de reproduzir, nada tenho a dizer, excepto que, naturalmente, estava a dormir e que, desconhecendo-o como o desconheço – na existência e na inexistência -, não posso avaliar a dimensão do absurdo neste sonho; suspeito, todavia, tratar-se de um record.
Onde chegará isto?
Ou será que - todo um outro mundo especulativo - quando se escreve sobre uma coisa com a qual não é suposto brincar, sendo que o "Camelo do Rei Mago Belchior" está, certamente, incluído no tabu religioso, se espera do leitor uma omissão respeitosa de gozo?
p.s. Entretanto, vi:
"HOJE:
OVELHA"
Pelos mesmos 1,45 € que a Virgem Maria com banho de prata. A igualdade de tratamento, em teoria, é louvável, mas neste caso, uma variaçãozita, ainda que simbólica, no preço das peças, segundo a hierarquia sagrada, não ficava mal. Que a Virgem custasse 1,46 € e a ovelha (ou uma ovelha?) 1,44 €, por exemplo, ganhavam o mesmo e era mais bonito. Pedirem pela Virgem Maria o mesmo que pedem por uma ovelha (ou pela ovelha?) acho indelicado e a Senhora, com razão, é capaz de não gostar.
15.11.04
Quem vir isto vai pensar que não sou uma pessoa de bem acima de qualquer suspeita
Acho, porém, perfeitamente possível que jogos destes sejam compatíveis com o coração de manteiga que habita a minha pessoa caridosa. Mas já não acho normal que, quando dou as costas, personalizem o meu computador de forma infame. Como se eu, no meu perfeito juízo, pudesse ir longe ao ponto de brincar com coisas tão sérias como o nome dos discos.
Garanto que tomarei medidas.
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(*) Aos gritos, uma maravilha.
Post tipicamente de gaja
Desenganem-se os teóricos, reduzam-se as sumidades doutrinárias à sua insignificância: há poucas coisas tão românticas como um gajo fazer-nos o jantar. Mete flores, livros de arte, discos e outras maravilhas a um canto.
Enxoval para aulas de italiano
Ridere
io rido
tu ridi
lui/lei ride
noi ridiamo
voi ridete
loro ridono
Não resisti e fui ver o particípio, há dois, um presente e um passado: ridente e riso, respectivamente. Não podia ter gostado mais. Só por prudência mantenho no título disto a eventualidade: eu quero esta música.
Mal começou e já estão a vender a Mãe!
VIRGEM MARIA COM BANHO DE PRATA
POR APENAS 1.45 €" (*)
O que mais grave se torna quando não sabemos ainda, ao certo, se oferecem o Menino ou se o Menino é que oferece o presépio.
E o banho? Quem Lhe deu o banho? E como?
Isto sim devia ser motivo de preocupação, debate e votação na CEP.
(*) Hoje. Não me lembro se a nota estava no Jornal de Notícias ou no 24 Horas.
13.11.04
Contemplação
Depois passaram-se coisas que eu precisei esquecer e que estavam em todos os lugares da memória, mesmo no tacto. Mas a memória funcionava, certinha, como sempre. Foi necessário corrigi-la. Aprender a esquecer muito e depressa, aprender a não fixar, o que não se faz sem abrandar o pensamento. Fui falar com um amigo que me jurava ser capaz de olhar para o tecto durante tardes inteiras sem pensar em nada. Habilidade que eu, em segredo, desprezava.
- Contemplo o tecto?
- Não, isso é muito. Deitas-te no chão, por exemplo, e olhas para cima. Só.
- Sem música, sem nada?
- Nada.
- E para começar, pensas em quê?
- Em nada.
- Tem de haver uma sucessão de pensamentos que leve a nada, não pode ser de repente.
- Acho que há, mas já não te sei dizer o que é.
Um dia, consegui. Não sem antes pôr óculos nos olhos opacos e beatas velhas nos dedos esticados das estátuas que surgiam no tecto. Também já não me lembro o que veio a seguir. Excepto que a um dado momento, muito depois de abrandado o pensamento, esvaziada a memória e conquistada uma certa serenidade, estado que considerei imutável, dei comigo incapaz de escrever uma frase sem confirmar a exactidão de metade das palavras no dicionário. Palavras sempre escritas e sempre lidas e sempre escritas outra vez: no dia anterior, há cinco anos, há vinte anos. Estranhei o zelo passados meses. Não só pela estranheza propriamente dita, mas porque começou a ser irritante estar constantemente a abrir e a fechar o dicionário, porque nisso eu perdia cada vez mais tempo e me esquecia das frases que tinham pedido aquelas palavras. Porque, às tantas, no gesto de fechar o dicionário, compreendia que me esquecera também do que tinha acabado de ler. E porque, finalmente, numa tarde, me vi confirmar: pedra, chão, anis, fumo, til e água. Água.
11.11.04
O homem mente sempre quando fala de si próprio
Dostoievsky > A Voz Subterrânea
Trad. Célia Henriques/Vitor Silva Tavares
& Etc, Setembro de 1989, pp.52-53
(imagem daqui)
Castanhas assadas
Algumas coisas são modas. Algumas coisas não são modas. Algumas modas, especialmente nas roupas, acabam parecidas com a pele e desaparecem. A minha geração já não usa fatos-de-treino azuis escuros com riscas brancas de lado. A minha geração deu turmas de miúdos e miúdas vestidos com fatos-de-treino azuis escuros com riscas brancas de lado. Miúdos com a mania da diferença tinham uns que eram pretos e eram olhados de lado. Sinto falta de angústias de existir medidas em milénios. Daquelas permanentes. Mais ou menos. Isso ou chover pouco este Inverno.
10.11.04
A alegria quer a profunda eternidade
Homem, ouve!
Que diz a meia-noite com a sua voz grave?
«Eu estava mergulhado no sono,
Emergia de um sono profundo.
«O universo é profundo, profundo!
Mais do que o dia pode imaginar.
Profundos são o seu mal e a sua dor,
Mais profunda ainda é a sua alegria.
A dor diz: «Passa e perece!»
Mas a alegria quer a eternidade,
Quer a profunda eternidade.»
Friedrich Nietzsche
Canto da embriaguez | Assim Falava Zaratustra
Trad. Alfredo Margarido para a Guimarães
(11ª edição, 1997, p. 364)
Para onde vai este saxofone?
O Trem Azul apanha-se desde 14 de Outubro na Rua do Alecrim, n.º 21-A, descendo umas escadinhas logo a seguir à ponte, quando se está quase a chegar ao Cais do Sodré. Se não chover, as janelas devem estar abertas sobre a rua do Jamaica, relativamente à qual a loja já é alta (não me lembro como se chama a rua do Jamaica, mas é a típica rua que merece jazz vindo de cima e com isso de certeza que em baixo o filme se vai adensar). Há três sofás, leitores de cds e um cinzeiro de mola. Ouve-se jazz quando se entra, enquanto se está e algum tempo depois de sair. E quem lá está fala a mesma língua que nós. Muito bom. Os destinos são à escolha e os bilhetes variados: para qualquer lugar do jazz.
9.11.04
Estou doente
Ainda. Com o "Live in Tokyo", do Brad Mehldau. Num post sobre outro disco consegui ocupar um parágrafo com o "Live in Tokyo" e quando fui confirmar se o link para o preview estava a funcionar quase ia desligando o "Nearness of you" por causa daquele começo esmagador com "Things Behind the sun". Mas resisti. Não pode ser. Uma coisa de cada vez. É o que o meu pai me anda a dizer desde sempre, esperançoso de ver curada a minha tendência compulsiva e violenta para a indecisão dispersiva.
"Nearness of You: The Ballad Book" - Michael Brecker
No fim-de-semana passado um amigo apareceu cá em casa com este "Nearness of you" e eu, depois de ouvir a primeira faixa, expliquei-lhe que, não acreditando nenhum de nós em milagres, teríamos de realizar, antes dele se ir embora, o milagre da multiplicação. Não sei como conseguimos, mas ficou cá um para mim.
O Allmusic, ex-páginas-amarelas-da-música, hoje azuis, agora, além de estar mais pesado, pede-nos que façamos login para aceder aos créditos dos discos, mas o milagre saiu com ficha técnica e tudo:
Michael Brecker - tenor sax
Pat Metheny - guitars
Herbie Hancock - piano
Charlie Haden - bass
Jack DeJohnette - drums
James Taylor - vocals (2, 5)
Eu tenho andado no céu com este disco. Apetece sobretudo ouvi-lo à noite e, uma vez a soar, por muito cansada que esteja, acordo. Não ando a dormir nada bem por causa disto.

Eclectismo jornalístico
A primeira página de hoje traz destaques sobre a Quinta das Celebridades, o processo Casa Pia e a roupa interior de Jorge Gabriel. Tudo junto. Isto sim é amar o povo: saudável entretenimento, actualidade nacional e factos curiosos a respeito de celebridades, tudo na mesma publicação. E uns erros à mistura, não porque não saibam escrever, estou certa, mas para evitar melindres entre as pessoas singelas.
8.11.04
O homem mediterrânico de anorak. Visualizar conceitos. Desvio.
Ocorreu-me agora. O homem mediterrânico de anorak, luvas, cachecol, cheio de frio, contente, a beber chocolate quente e a ler Dostoievski. O "Recordações da Casa dos Mortos". E eu que sempre o tinha imaginado descalço e de calções, num terraço caiado, à sombra, a temperar uma salada com azeite e coentros, a beber uma cerveja e a ler, indolentemente, Ésquilo. "As Suplicantes".
POP carpe diem
- Na próxima semana tenho um dia de férias.
- Ai sim? Vais para onde?
- Fico em Lisboa.
- Mas, mas... tens de ir a qualquer lado. Que vais fazer em Lisboa?
- Ver filmes.
- O que é isso?
- Faço um plano, compro bilhetes e entro nas salas. Em princípio, um dia dá para quatro.
- Vais gastar um dia de férias para te meteres no cinema? Que desperdício! Ao menos vais fazer isso na Segunda?
- Não, saber que no dia seguinte é Sábado também é um activo.
- Um escândalo...
- Podia não ir ao cinema, podia tirar o dia só para não estar aqui. Dormia bem de manhã e à tarde não fazia nada.
- Um dia vais arrepender-te de aproveitar tão mal a vida. Há umas camisolas de senhora fantásticas em saldo no Corte Inglês, já as viste? Olha que não esperam por ti.
7.11.04
País
En el agua negra,
árboles yacentes,
margaritas
y amapolas.
Por el camino muerto
van tres bueyes.
Por el aire,
el ruiseñor,
corazón del árbol.
García Lorca
Suite del Agua
Na mercearia (ou a explicação do Direito)
- Boa noite.
- Bom dia.
- Como, se já passa da uma da manhã?
- Oficialmente só podemos estar abertos até às sete da tarde, caríssimo senhor.
- Mas agora estão abertos à uma da manhã.
- Oficialmente, estamos fechados: bom dia.
Pronto, arrumei a casa
Vou fazer imediatamente uma experiência com uma senhora que nunca abandona completamente o meu pensamento.
Mary Schneider
(a Yodelona)
Não é que nunca me abandone mesmo. E só me acompanha desde Março ou Abril deste ano, porque antes eu não tinha tido o prazer. Supostamente esta senhora canta a sério. Mas tenho em meu poder - gosto muito desta expressão - um mp3 de um programa de rádio onde Mary Schneider canta "Starway to Heaven" e ri dela com os que riem dela nesse programa.
Espero nunca vir a encontrar um mp3 semelhante da Natália de Andrade.
p.s. Não confundir com Maria Schneider. Lapsos verbais são perdoáveis, porque compreensíveis. Já não, dizer-se de Maria Schneider que "tem uma voz extraordinária, não é?", como a senhora da loja onde comprei o "Coming About".
5.11.04
A torta de açúcar
Uma amiga escreveu-me a dizer que, pelos vistos, eu como as tortas que só sabem a açúcar. MENTE!
Dúvida
Quem comerá aquelas tortas clássicas de pão-de-ló enrolado em qualquer coisa castanha escura que devia saber a chocolate mas que só sabe a açúcar?
As coisas que eu sonho
4.11.04
Pois faltava
"Os subscritores de jazzportug@l já são mais de 5.000 e só para eles que somos fica esta para acabar: a caminho vem um recorte antigo de um jornal diário português onde numa peça escrita e média de tamanho se afirma - Ella Fitzgerald era filha de um português! Só nos faltava mais esta..." - Boletim #140 * 01-11-2004 *.
Só eu vejo o que mais ninguém vê.
É impressionante como é difícil aceitarem-se as decisões das pessoas. Admitir que os outros podem decidir coisas. Não passa pela cabeça dos que não conseguem viver sem teorias da conspiração que não acreditar naquilo que lhes é dito e perder uns minutos a imaginar possibilidades alternativas é, de certa forma, uma ingerência e, novamente, não respeitar a liberdade de decisão dos outros.
Fora isto, as teorias da conspiração são sempre mais divertidas do que outra coisa qualquer porque, normalmente, os que são capazes de as gerar precisam delas, entre outras coisas, para se indignarem e a indignação de tais desesperados costuma ser hilariante.
As pessoas precisam ou gostam de dramas? Não sei, não entendo. Tudo isto é muito telenovelesco, as teorias da conspiração são muito telenovelescas... pena eu ter perdido, por exemplo, o link com a triste história do Germano. Pobre Germano, esse não é/era paranóico, mas uma verdadeira vítima.
3.11.04
O princípio da Fé
1.º Todas as coisas da cozinha levam à sua parte mais alta: do chão para a cadeira, da cadeira para a bancada, da bancada para o frigorífico, do frigorífico para a lâmpada do tecto e desta para a parte de cima dos armários.
2.º Todas as coisas da cozinha existem com o propósito de permitir chegar à sua parte mais alta. O frigorífico, por exemplo, dá peixe, que é energia para saltar.
3.º Se uma destas coisas falha, já nada disto resulta. Logo, a organização da cozinha é fruto da inteligência divina de um ser superior, criador de todas as coisas.
Como explico eu à minha gata que ninguém pensou nela enquanto se arrumava a cozinha e que a aparente perfeição dos trampolins não passa de um mero acaso? O princípio da Fé: confundir-se adaptabilidade com propósito.
22.10.04
Largo
das onze
e da cor húmida
do musgo
e da terra
nos joelhos
e do cheiro a lápis
e a borracha
do estojo.
De resto, podia perfeitamente ter crescido.
14.10.04
Vai um pratinho de tremoços?
A cumplicidade que a cervejinha introduz é mesmo importante. Descomprime quem serve a cervejinha, que é logo melhor servida, tornando-a ainda mais cervejinha do que quando foi pedida. A cervejinha diz ao empregado "Agora tu estás aí a atender-me mas mais logo quando acabar o teu trabalho também tu vais beber uma cervejinha... a tua cervejinha". É uma piscadela de olho, a cervejinha, é a expressão niveladora que equilibra a relação entre quem pede e quem atende.
Até pode pedir-se uma imperial ou uma cerveja quando se tem pouco tempo, mas quando se tem muito, como aos fins-de-semana ou em férias, é imperdoável não se pedir uma cervejinha, que também traz implícita uma longa interjeição de prazer não tipificada porque inseparável dos ditos que se lhe seguem: "Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaah!, que bom é sentar-me aqui sem nada para fazer... quando vier a cervejinha, será o céu". De notar que no momento em que a pessoa se senta, a interjeição atípica, se não é verbalizada, é intensamente sentida, e que os olhos, brilhantes de satisfação e de ansiedade, procuram já aquele que trará a cervejinha... e para que nada corra mal há que pedir uma cervejinha.
Se isto é assim entre dois estranhos, que em comum só têm um conhecimento intuitivo do significado da cervejinha, a cumplicidade desce fundo, enriquecendo-se, no caso do mesmo pedido ser feito entre pessoas que se conhecem bem, como em "Amigo, arranja-me uma cervejinha!". Verbo arranjar. E como explicar a um estrangeiro que a cervejinha não está avariada?
14.9.04
"Era uma casa muito engraçada
Não tinha teto, não tinha nada
Ninguém podia entrar nela não
Porque a casa não tinha chão
Ninguém podia dormir na rede
Porque a casa não tinha parede
Ninguém podia fazer pipi
Porque penico não tinha ali
Mas era feita com muito esmero
Na rua dos Bobos, número zero."
Tinha três anos quando aprendi a cantar isto. Passávamos as férias na Praia Verde. Eram os anos do PREC. Havia os meus pais, os amigos dos meus pais, os meus tios ainda sem os meus primos, tendas, cigarras, redes para dormir a sesta presas a pinheiros, vasos de resina. E o cheiro da resina. Havia fogueiras na praia, à noite, e guitarras. Eu adormecia ao colo da minha mãe, a ouvir a voz dos grandes a ficar mais arrastada e as canções ficarem a meio, misturadas com o som da rebentação.
O resto da minha infância gira em torno destas coisas: os pinheiros, a resina, o mar, um chapéu de palha que enchia a cara da minha mãe de sombras e pontinhos de sol, e a canção d’A Casa depois da praia.
13.9.04
Uma oportunidade única
- Vais ao concerto da Madonna?
- Não.
- Mas é uma oportunidade única!
- Não gosto. Não vejo onde está a oportunidade.
- Eu também não gosto, mas vou pelo espectáculo :-)
- Hã?
- Sim.
- Desculpa?
- Não é a música, entendes?, eu da música também não gosto, mas é uma oportunidade única de ver um espectáculo único.
- Não gostas da música mas a música não te incomoda e consegues permanecer num sítio onde o espectáculo é a música embora não gostes da música só pelo espectáculo; é isto? Não consigo compreender.
- Pá, olha, traduz como quiseres. A música é indiferente.
7.9.04
A música segundo o povão
Bill Evans, "You Must Believe In Spring" - música soporífera, música fúnebre
Count Basie, "Basie Meets Bond" - música a preto-e-branco
Jelly Roll Morton, "The Piano Rolls" - música de filme mudo
Keith Jarrett/Gary Peacock/Jack DeJohnette, "Whisper Not" - música secante, música fúnebre
Louis Armstrong, Antologia da "BD Jazz" – música velha
Miles Davis, "Kind Of Blue" - música de embalar
Morelembaum2/Sakamoto, "Casa" - música triste
Tom Jobim, "Inédito" - música triste
Tom Waits, "Blood Money" – música de bêbedo
29.8.04
Sexta-feira à tarde
e regaram.
A noite tremeu de frio.
Cortaram a relva nos jardins
e regaram.
Eu passo e agora não estou aqui,
agora só estou aqui.
Cortaram a relva nos jardins
e regaram.
A minha casa nasceu na água.
25.8.04
Desportos radicais
Escolher slides com uma gata pequena a mover-se à volta e por cima da mesa. Isto foi sem projector, a sacar um a um das caixinhas. Com projector não consigo imaginar. Que fará a gata cada vez que vir um slide a entrar na máquina? E a sair? E o som? Resta-me uma esperança: que as fotografias, enormes e luminosas, na parede, constituam diversão maior que qualquer outra.
16.8.04
Direitos de autor protegidos!!!
Nas piores páginas nunca se consegue usar a tecla direita do rato. Tudo tem direitos reservados, tudo tem direitos de autor protegidos (como se a protecção dependesse dos avisos), tudo, sempre, com três ou mais pontos de exclamação no fim, que dão um encantador tom histérico à coisa. O significado destas exclamações é um indignado "Como se atreve a tentar roubar-me?"
Quando digo as piores páginas quero mesmo dizer as piores páginas. Mas alguém vai roubar fadas, unicórnios, poemas de adolescente cheios de erros ortográficos e fotografias de margens esbatidas com cães e gatos abraçados e rodeados de flores? Compreenderão estas pessoas o ridículo dos avisos? E que, mais minuto, menos minuto, sempre se conseguem os endereços para enviar aos amigos via MSN, durante as conversas de escárnio e maldizer?
Gosto especialmente dos avisos que incluem os links para outras páginas. E daqueles que acabam com "Volte sempre!!!", o que por extenso quer dizer algo como "Não, não pode usar esta linda paisagem digital com mar verde, sol prateado e borboleta dourada com corpo de mulher azul e olhar bondoso como wallpaper, mas pode voltar para vê-la sempre que quiser." A partilha é uma coisa muito bonita :')
Um dia crio uma pasta nos favoritos e começo a coleccionar avisos. Seja como for, e ainda sem a colecção começada, o meu aviso preferido dificilmente será destronado. Está nesta página, onde se pode ouvir "Mocidade", de António Calvário. Só ouvir. Se tentarmos sacar o endereço do mp3 salta aviso "- Compra o CD nas lojas !". É maravilhoso :)
5.8.04
3.8.04
Podia ser sempre Verão
e às vezes chovia.
Chovia muito e depressa
e logo, outra vez
os dias eram quentes.
A terra ensopava
as fontes faziam-se
a terra evaporava.
29.7.04
Ah, mas assim a coisa muda de figura
Hoje acordei ao som de uma notícia, na Antena 1, em que se dizia que Joana Lemos, piloto, e Ricardo, futebolista, estão a dar a cara em apoio ao novo PM.
Eu acho que, por princípio, nunca se deve dar a cara porque a cara é necessária. Por isso, dar a cara é um gesto de coragem e um gesto de fé... de Fé. Fé é o que é preciso para viver em paz num país com este PM.
Como Joana Lemos e Ricardo estão a dar a cara - e como deve doer essa lenta tortura! - estou muito mais descansada. A verdade é uma coisa relativa e quem diz o contrário é fundamentalista e intolerante. Às vezes, as pessoas simples de bem percebem muito mais destas coisas que as outras todas juntas. Sim, porque sentem, em vez de pensar ("a pensar morreu um burro", como bem diz o povo) e, com a Luz da Fé, a sua vista alcança coisas que escapam aos não iluminados.
Fiquei muito mais descansada, mas não completamente descansada. Só vou ficar completamente descansada quando ouvir que também Rita Salema, Alexandra Solnado e, por via desta, Jesus Cristo, estão a dar a cara pelo novo PM.
Modelo de Ser
Hoje ao almoço, uma peça sobre a venda de bilhetes para o concerto de Madonna, na Sic Notícias, chamou-me a atenção. Entrevistada por se sentir "feliz, feliz, feliz" com a realização desse concerto, uma rapariga explicou à repórter que Madonna era o seu "modelo de Ser". Tenho a certeza que o disse com maiúscula.
27.7.04
Contraste
Um dia eu ia para a faculdade entregar uma trabalho, depois de uma directa a rever notas de rodapé e a imprimir, e, com aquela lucidez do cansaço, perguntei-me, ao cruzar-me com algumas árvores, que ligação tinha a minha tese com elas e com tudo o que verdadeiramente importa. Não tinha ligação nenhuma. Não tem.
As coisas que se inventaram para proteger os homens e para que estes pudessem, sem problemas, sentar-se à sombra das árvores, há muito perderam o rumo. Ninguém as vê como acessórias, ninguém se lembra que servem para servir. Tornaram-se fins em si. E tudo se ergue em torno desse desvio.
Que faço eu aqui?
Contacto
Sábado fiz tudo isto.
26.7.04
23.7.04
22.7.04
Extintor de pó químico seco
2. Carregar no botão com força
3. Dirigir a pistola extintora para o fogo e pô-la em acção.»
O que é que fecha o extintor? A cavilha. Puxar a cavilha que fecha o extintor. O extintor tem um botão. Carregar no botão. Com força. Dirigir a pistola extintora para o fogo, que ficará na mira, e pô-la em acção.
Botão
Força
Pistola extintora
FOGO
Acção
A banheira
A minha gata descobriu a casa-de-banho. Há uma semana que os trabalhos começaram. Antes disso, quando me via entrar na banheira, ia para a porta da casa-de-banho e dali, mal eu abria a água, fugia para longe.
Depois foi-se aproximando. Durante uns cinco dias observou-me no duche escondida entre a parede e o cesto da roupa suja, atrás do suporte das toalhas, olhando por baixo da toalha mais baixa. Estratégia: ela via a banheira, mas a banheira não a via.
A banheira é uma criatura. Jorra água e quando não está a jorrar água é funda, escorregadia e suspeita. Que faço eu lá todas as manhãs é o grande mistério do universo da minha gata. De início, quando eu saía de lá, também fugia de mim.
Há uns dias que o medo se foi. Depois de ter aprendido a beber água a partir da torneira do bidé, fui encontrá-la dentro do lavatório a lamber a torneira fechada. Abri-lhe essa torneira para que compreendesse que a água é igual. Dois e dois são quatro e a gata deve ter suspeitado que a banheira seria uma criatura semelhante, embora maior e mais expressiva.
Agora, sempre que chego a casa, tenho as loiças da casa-de-banho cheias de marcas de patinhas. E esta manhã, para conseguir tomar duche, tive de a expulsar da banheira três vezes e fazer voz zangada. E já não observou escondida, mas descaradamente. Se isto continua assim, qualquer dia pede-me para tomar banho. Pode ser já amanhã.
16.7.04
Encruzilhada
Não se abre um bicho-da-seda impunemente.
Algo morre sob os olhos,
onde a escuridão é feita de sangue.
E se eu abrir o mundo?
5.7.04
Queimar pestanas
Nervoso miudinho – faltará algum livro ou artigo que não possa deixar de ler? Contar o número de páginas, o número de dias, calcular o ritmo de estudo, fazer as contas e estabelecer as metas diárias. Beber muitos cafés. Roer as unhas. Sentir insegurança. Sentir segurança. Estas são engraçadas porque a segunda tende a substituir a primeira à medida que se avança nas leituras e na hora-h tende a aparecer inteira, como no primeiro momento. Fumar cigarros e beber leite. Aprender coisas novas. Ter prazos e temer os prazos. Reaprender coisas antigas. Explicar as coisas novas e as coisas antigas à parede em frente à secretária, até ela ficar satisfeita e todos à volta pensarem que se está louco. Adormecer com algo mal compreendido na cabeça e acordar com a questão esclarecida. Não sei como, mas tinha saudades disto.
1.7.04
Das razões pelas quais os amigos dos meus amigos nem sempre regressam a minha casa #2
– Vais pôr um cd a tocar?
– Não, de vez em quando tiro um cd da capa e passeio-o pela sala. (sorriso)
– (sorriso amarelo) Gosto muito de música! Adoro ópera!
– (sorriso) E que ouves?
– Andrea Bocelli. Gostas?
– Não. Mas, que ouves? (grande sorriso)
– Bocelli.
– Sim, mas que preferes? (riso)
– Bocelli!!! (veias salientes)
– Bocelli canta muitas coisas: que preferes? (riso)
– És um bocado arrogante, sabias?!!! (veias salientes)
– Porquê? Por insistir na pergunta?
– Sim! Se eu não disse nada é porque não sabia, não achas?
– Eu não acho nada. Se querias que eu soubesse que não sabias devias ter dito isso mesmo.
– Pois mesmo sem saber gosto muito da voz dele, do sentimento que põe na voz, e além disso tem muito mérito porque é cego e...
– Se fosse cego e tirasse fotografias, e no pressuposto de que as fotografias eram porreiras, sim, seria grande o mérito, e se...
– (olhos muito abertos e veias a aparecerem)
– ... fosse surdo e ainda assim cantasse, se cantasse bem, teria mérito...
– (olhar indignado)
– ... mas Bocelli, sendo cego, canta, ainda por cima canta num tom lamechas insuportável, por isso não vejo onde está o mérito.
– (olhos esbugalhados) Como podes ser tão insensível?!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! (veias salientes) Gozar com uma pessoa cega!!!!
– Não estava a gozar mas a constatar alguns factos relativos a Bocelli, a partir de um comentário despropositado teu. É cego, não é? Acabei por não compreender se gostas de facto do senhor ou se condescendes na sua má cantoria porque é cego.
– Nunca conheci ninguém tão insensível como tu!!!!!
– Está bem. Queres mais café? (sorriso muito simpático)
Das razões pelas quais os amigos dos meus amigos nem sempre regressam a minha casa
– Tantos livros! Gostas de ler?
– Não, mas entre coleccionar caricas e coleccionar livros, pareceu-me melhor coleccionar livros porque são mais decorativos.
– (sorriso amarelo)
– (grande sorriso)
– Eu também gosto de ler. Gosto muito de Paulo Coelho, conheces? Gostas? (sorriso entusiasmado)
– Sim. Não. Escreve livros horríveis.
– (sorriso amarelo) Quem somos nós para julgar...? (sorriso condescendente a antecipar o triunfo do argumento).
– Somos os leitores.
– Deves pensar que és muito inteligente!!! (cada ponto de exclamação representa uma veia saliente no pescoço)
– Queres mais chá?(grande sorriso muito simpático)
15.6.04
Fenómenos paranormais #3
"Gosto de ler de tudo um pouco, pronto, é isso..." - Esta ouvi-a durante o almoço a uma senhora mística que tentava explicar a um jovem racionalista que a bombardeava com perguntas (ex. "Mas porque perde o seu tempo com essas patranhas?") o porquê de ler coisas tão edificantes como as conversas de Jesus com Alexandra Cabrita Solnado.
O almoço foi no Psi e, apesar de tardar o maravilhoso sumo de melancia, estava excelente. Um bom restaurante vegetariano não nos serve apenas o almoço. Serve-nos sempre, no tabuleiro da reflexão, um diálogo místico (pelo menos).
Os cavaleiros camponeses no ano 1000 no Lago de Paladru
Era o tema da tese de Camille Lalande neste filme e em segundos entrou no meu top 5 de ideias hilariantes. Até porque bem vistas as coisas não há tese neste mundo que se livre, numa ou noutra nota de rodapé, de se debruçar sobre a questão dos cavaleiros camponeses no ano 1000 no Lago de Paladru.
11.6.04
Armazém de matéria-prima #4
É muito fácil falar para ti, para nós ou falar de nós. A poesia é a maior das transcendências. Quero o mínimo diálogo, a maior solidão e, aqui, sem ninguém, saber se as árvores continuam a falar dentro do fogo, do lixo e da morte.
Armazém de matéria-prima #3
Não menosprezar a importância dos agrafadores, do furador de papel e da fita-cola. A pedra ao sol, no Verão, tem pó. O mesmo se passa com as mãos.
Armazém de matéria-prima #2
A palavra seguinte, na outra
linha,
cai.
O verbo seguinte, na outra
linha,
sem nome e sem mundo.
Conclusão, concluir:
o verso é nu,
o verso é insuportável.
Mapa-múndi do princípio do Verão
e de desequilíbrio, suor e cansaço.
E as noites, entre todas as noites,
a arder inícios contra a ladainha do sono.
É áspero o tronco da árvore na palma da mão e
as flores são criaturas do ar - estão nos jardins,
nas ruas sem vento, entre as paredes por cair.
E o cheiro das flores está na morte.
E o calor no corpo, sobre o corpo.
E o sol na pedra, sobre a pedra.
4.6.04
A virar as paredes do avesso
Pelo cheiro das árvores dentro da casa percebi que estariam quietas. Fui à janela: lua cheia. Fiquei, mesmo quando o vento apareceu e as árvores voltaram a mexer-se e a soar. Depois, num momento, entre o som dos carros, espaçado, e o som dos grilos, começou a ouvir-se o silêncio e as árvores pararam outra vez. Quando a lua está muito grande, o silêncio fica maior. Há níveis de silêncio que eu nunca compreenderei. Níveis de silêncio como mapas do mundo, frios e quietos, sem eco. Isto expande-se ou isto contrai-se? Isto vem de onde? Há também as coisas no silêncio: a mão, a mão no vidro, o vidro frio, o vidro húmido da mão, o chão. E passos. E um som de vozes na rua, rápido, onde o silêncio se ouve mais. Poderia não dormir para ficar a ouvir. E ver na mesa, no lápis, no soalho, nos pés, no chão morno e no movimento do corpo em cima deles, nos gestos abertos na habituação dos olhos à escuridão, no cheiro das árvores a concentrar-se na casa entre os ventos, o silêncio a corroer as formas até tudo anoitecer.
29.5.04
Fenómenos paranormais #2
"Isto da canalização é uma coisa muito subjectiva." - ouvido na rua, da boca de um canalizador.
Fenómenos paranormais
Além de eu estar acordadíssima há horas nesta sagrada madrugada de Sábado que, no meu juízo perfeito, só poderia consagrar a Morfeu: quem é Terry Blaine? A entrada nas páginas amarelas da música não me ajuda muito. Tropecei neste disco há dias e, caramba, sim, são clássicos, e são deliciosos, não consigo parar de ouvir. Percebi hoje que teria pelo menos um cd da Hagel Records em casa e confirmei no site tratar-se da editora de Lyambiko. Mais nada a respeito de "With Thee I Swing" ou de Terry Blaine. No ciberburgo sonoro tuga não encontro uma - uma! - palavra a seu respeito ou a respeito de qualquer dos músicos de "With Thee I Swing" (e como o título do cd é justo!).
27.5.04
Da origem das claras em castelo
Mas qual é a dúvida? Foi Penélope, obviamente, enquanto esperava por Ulisses. Fazia e desfazia o véu?! Histórias, histórias são. Também há a do Pai Natal, a do Coelhinho de Páscoa e a do Menino Jesus. Get real.
Leitura de sobrevivência #4
"Artigo 1322º
(Enxames de abelhas)
1. O proprietário de enxame de abelhas tem o direito de o perseguir e capturar em prédio alheio, mas é responsável pelos danos que causar.
Código Civil Português (Livro das Coisas > Título II, do Direito de Propriedade > Capítulo II, da Aquisição da Propriedade > Secção II, da Ocupação)
Fica no ar a pergunta, a zumbir:
E se o proprietário das abelhas que enxamearam for surpreendido pela chuva enquanto as persegue e tiver à mão um saco de plástico?
Transformers
Se há coisa que me comove é a capacidade de adaptação humana e, dentro desta, a capacidade de adaptação à chuva, sobretudo quando inesperada [ambiguidade curiosa, esta, fica mesmo assim]. Há dias enviaram-me este exemplo delicioso. Não é bonito? Ainda por cima, pelo desenho do passeio atrás das senhoras, fica-se a pensar que provavelmente surgiram assim, de repente, vindas do recato de uma esquina – o inesperado, também nestes casos, cai sempre bem. Aqui há uns anos, em Fátima, surgiu-me, também vinda do nada (havia uma parede que reduzia o campo de visão), uma senhora de joelhos, à chuva, com um saco amarelo na cabeça - inesquecível momento! A propósito de Fátima, recebi também esta santinha.
25.5.04
A Terra não cai ao Sol porque gira sobre si mesma
Subo o Lavra a pé porque os elevadores estão parados a meio da rampa, em manutenção. Viro aí à esquerda para as escadinhas. Cá em cima, as árvores impossíveis da Rua Júlio de Andrade e as gaitas da Juventude da Galiza, ao mesmo tempo. De passagem, o Torel, ao fundo do qual se abre Lisboa, mas hoje tinha fome: enfio-me no café galego e lancho enquanto leio o Público de tal forma até ao fim que nem as notícias desportivas escapam. Que vergonha, Carlos Queiroz! Que vergonha, Nuno Ribeiro, "até há hora do fecho" não leva H e, no fim do quarto parágrafo, a "passagem de testemunho" está mal aplicada!
No fim do cigarro, depois do lanche, um dilema: ceder à preguiça e continuar a ler o jornal, o que implicaria ler o Bridge e uma coluna sobre os príncipes de Espanha, ou regressar a casa?
Levanto-me, pago, saio. Outra vez a Rua Júlio de Andrade. Sol, folhas verdes, vento e pássaros. Como eu adoro esta rua. No Campo Santana acabou a limpeza da fachada da faculdade e os andaimes estão agora no chão. No passeio em frente, um homem grande debruça-se e faz três festas rudes na cabeça de um rafeiro que fecha os olhos e abana a cauda, e logo a seguir cada um segue o seu caminho: o rafeiro, para a estátua do Sousa Martins; o homem, no sentido do Lavra.
Quando entro em casa, ainda há sol no soalho. Não ligo a música. Sento-me no chão e ouço a noite a chegar.
18.5.04
Andou Prometeu a roubar fogo aos deuses para isto #4
E ainda há aquela ideia linda das pessoas normais segundo a qual a música se descobre na adolescência e o cinema, o teatro, as exposições, os concertos se frequentam na idade do acasalamento, após o que cessam. Isto não é dito assim, claro. Quem adere à coisa explica-o de forma quase ingénua. Quem referiu acasalamento fui eu, que de tanto ouvir os avisos dos meus colegas ("cá chegará, cá chegará") os comecei a imaginar como pavões. O instinto da espécie para a preservação e continuação é mesmo poderoso. De outra forma como explicar que depois de estabilizada uma relação, a descoberta do mundo passe a ser desinteressante porque "há outras coisas a fazer"? Volta, Schopenhauer, estás perdoado.
Andou Prometeu a roubar fogo aos deuses para isto #3
Usar isto é um insulto. Conceitos jurídicos objectivos, como ilegalidade, réu, arguido, inconstitucionalidade e incompetência, são insultos. Quando cresceremos?
Andou Prometeu a roubar fogo aos deuses para isto #2
Mas este clássico não revela apenas a incapacidade geral para encaixar a crítica. Revela também, no caso concreto, um problema mal resolvido com o poder. Ter poder não é estar acima de todas as coisas e ao abrigo de todos os dedos. Pelo contrário. O poder, especialmente o público, existe para servir. Não soubesse eu como e há quanto tempo e dormiria muito mais descansada.
Andou Prometeu a roubar fogo aos deuses para isto
Eis um exemplo clássico de como se confunde, normalmente, a classificação do acto com a classificação da pessoa. O exemplo não é filho único. A crítica à atitude é sempre sentida como crítica à pessoa que age. As críticas feitas ao livro lido, ao texto escrito, à música ouvida, são sempre tidas como pessoais. E isto está em todo o lado: nos mercados, nas conversas de café, no trabalho e nos tribunais. E gasta-se dinheiro e abrem-se processos com isto. Porque é que os adultos não são pessoas crescidas, capazes do dom do discernimento, capazes de serem um pouco mais o que não se vê e só eles sabem e um pouco menos os sinais exteriores de existência com que se identificam e confundem?
17.5.04
Lost in translation
Todos os dias, ao fim da tarde, um pardal poisa na extremidade esquerda da corda onde estendo a roupa. Vejo-o através da janela da salinha. De início via-lhe a sombra, agora abro também a janela da marquise nesse sítio. Poisa. Canta duas vezes. Responde-lhe outro pardal que não posso ver. Canta outra vez e vai-se embora.
Fortuna
No regresso a casa, faço questão de me encostar às árvores na rampa do Instituto de Medicina Legal e descer junto a elas à hora em que o sol se põe e o vento surge. As árvores estão plantadas na rua, uns metros abaixo. À beira do varandim, no início da rampa, fica-se à altura das copas, as folhas largas ao alcance das mãos. Sou incapaz de dizer isto de outra maneira. Que o som de milhares de folhas a tremer não é mais um som entre todos, é certo. Lembro-me, quase sempre, dos mortos engavetados do outro lado da rampa e não me incomoda. O Campo Santana é essa promiscuidade de jardins, pássaros, macumbas e autópsias, uma mescla de gente, orientações e desorientações de vida, as lojas chinesas de lingerie, os revendedores de atoalhados e lençóis e peúgas, as agências funerárias, as floristas. E uma biblioteca municipal que, apesar de ter o nome de São Lázaro, está fechada há um ano e meio e ainda não ressuscitou. No Campo Santana tudo está presente. Até, incrivelmente, a evocação de Fausto no Göethe. Se Mefistófeles sobrevoasse Lisboa numa qualquer noite assombrada, sobrevoaria toda esta área. Fausto é só, de todos os livros, o livro que se mantém há mais tempo como o livro da minha vida, mas há muito deixei de agradecer à fortuna os seus acasos. Embora, por vezes, não saiba bem se deva. Não me ocorre outro lugar em Lisboa com tão densa concentração de coisas adoráveis e bizarras.
10.5.04
A Quintana
Este lugar fala. A fotografia não foi tirada por mim, mas foi assim que vi a Quintana pela primeira vez e sempre que regresso a Compostela faço questão de entrar na praça por ali. Nos três arcos mais à esquerda, ao fundo, há uma loja de recuerdos. O dono parece ter sessenta anos desde que lá vou, há quase vinte anos. É um homem de barbas longas e grisalhas, com ar de hippy que envelheceu feliz; põe colunas sob os arcos, viradas para a praça, e passa música celta over and over again.
A Quintana fica nas traseiras da Catedral e nas traseiras do Convento das Beneditinas. Não percebi ainda o que é mais bonito: se é o desenho da praça, se é a volumetria, se são as pedras lisas, castanhas e antigas, se é o som dos passos nesse chão, se é o eco, se são as figuras sinistras de pedra nos portais da Catedral. Estranho esta praça e o impacto que tem. Penso pouco nisso, volto sempre que posso. Chegar a Compostela é chegar à Quintana. Sair é muito complicado. Só consigo despedir-me depois de umas cinco ou seis tentativas falhadas. Aquilo é meu, tenho a certeza. Não é dos Reis de Espanha, não é dos galegos, é meu.





