15.1.05
14.1.05
No mínimo, Dylan Thomas sussurra-se. (Ler para dentro não dá.)
The force that through the green fuse drives the flower
Drives my green age; that blasts the roots of trees
Is my destroyer.
And I am dumb to tell the crooked rose
My youth is bent by the same wintry fever.
The force that drives the water through the rocks
Drives my red blood; that dries the mouthing streams
Turns mine to wax.
And I am dumb to mouth unto my veins
How at the mountain spring the same mouth sucks.
The hand that whirls the water in the pool
Stirs the quicksand; that ropes the blowing wind
Hauls my shroud sail.
And I am dumb to tell the hanging man
How of my clay is made the hangman's lime.
The lips of time leech to the fountain head;
Love drips and gathers, but the fallen blood
Shall calm her sores.
And I am dumb to tell a weather's wind
How time has ticked a heaven round the stars.
And I am dumb to tell the lover's tomb
How at my sheet goes the same crooked worm.
Dylan Thomas
The "Seagull" of the Krétakör Theatre
"When we started to work with the "Seagull" by Chekhov, after the first waves of enthusiasm and happiness - everybody knew on the forehand, still it was an adventure to experience what a perfect play it is - a bunch of questions and doubts have been raised. The analysing rehearsals lasted for a month, while, in lack of place, we discussed the drama in the flat of the director. We had extreme arguments about the meaning of certain sentences or scenes; about the features and intentions of the characters; about what Anton Pavlovitch might have thought here and there; and what messages does the play transmit for us. It was a question of main importance to reveal what are those elements of the play that now, a hundred years later, have the same meaning for us than it had for the contemporaries of Chekhov.
The performance was prepared in three stages: the main feature of the Krétakör Theatre working method, a ten days retirement succeeded the analysing rehearsals.
This time we withdrew to a wooden house in the forests of the Transylvanian Harghita Mountains." (Continua aqui)
Galeria aqui.
Sobre a tradução simultânea: 1) faz confusão nos primeiros 5 minutos, se tanto. Depois, é como se não estivesse lá, o que diz muito sobre a representação destes senhores; 2) ter lido Budapeste introduz prazeres paralelos.
Gaivota - dúvidas que me atormentam
Os violinos são violinos verdadeiros? São feitos de propósito para o Teatro Krétakör? A baixo preço, imensos, assim "Faça-nos aí cinquenta, baratinhos, que são para partir"? Quantos, no total, foram sacrificados até hoje? Não havia uma alma entre os despojos desta noite - porquê?
(em link a imagem inteira)
As associações de defesa dos direitos dos violinos deviam tomar medidas.
13.1.05
Da indisciplina dos livros quando ninguém está a vê-los
Não imaginava o que se passaria na minha biblioteca, enquanto durmo, há uns dez anos. Por nenhuma razão especial, porque enquanto estive na faculdade deixei de viver numa casa com uma biblioteca separada e só há poucos anos, quando tive a minha casa, os livros voltaram a ter uma divisão só deles. Mas nos primeiros tempos não dei por nada. Agora, sim, agora começa a personalizar-se. Não é racional, as bibliotecas não são criaturas, os livros são objectos inertes. Todavia, é um diapasão. Eu gosto que ele afine onde a biblioteca, contra todas as expectativas, acorda quando eu adormeço. Mais ou menos tanto quanto gosto dos sonhos david lynchianos que frequentemente me acontecem.
Vai daí, lembrei-me de um texto de Vicent Bengelsdorf, de Junho de 2003, chamado “Momento Fantástico”. Estava intacto nos arquivos do Bicho Escala Estantes :) Este post está linkado para lá. Mas vou fazer copy+paste para aqui. Faz parte do meu espólio de memórias da blogosfera e assim corro menos riscos de o perder. É a função "Arca de Noé" do blog.
«Momento Fantástico
Há dois dias atrás ficámos, eu e uma colega, a tomar conta de 60 mil livros. Problemas de horários e folgas estiveram na origem da situação. Fiquei receoso, quando me apercebi. Mas, como quando conduzo, pensei que nada iria correr mal até chegar mais alguém. Só que afinal, como num pesadelo, tudo se precipitou para a catástrofe.
O meu medo de motins de livros já vem de longe. Claro que é normal ouvi-los bichanar de vez em quando e atirarem-se de prateleiras abaixo quando passamos. Também é, de certa forma, corriqueiro eles chamarem-nos quando estamos de costas ou dizerem numeros alatórios para nos fazerem enganar enquanto contamos a caixa. Mas o motim sempre esteve presente nas histórias que os livreiros antigos contam para nos assustar. Diz-se mesmo que o incêndio do Chiado terá tido origem num motim iniciado numa estante de direito de uma livraria próxima, na Rua do Carmo.
Nessa manhã eles estavam um pouco mais agitados do que costume. Eu ouvia um bichanar vindo de algumas prateleiras. Dirigia-me ao que me parecia o foco de palratório e dava pequenas pancadinhas das lombadas dos livros que logo se calavam. Mas, quando eu virava as costas, a coisa recomeçava, cada vez com mais intensidade. Depois de três vezes eu ter batido em lombadas, comecei a perceber que havia um padrão. Aquele pequeno burburinho estava centrado na estante dos autores portugueses, na prateleira que tem os livros cujos autores têm apelidos começados por 'T'.
Aproximei-me. As vozes começavam a ter um maior volume e também já estavam na prateleira de baixo, a que tem autores de 'S'. Foi quando tirei um dos livros do Manuel Tiago, que uma voz começou a gritar
- A mim, camaradas. A mim! Pela Revolução
e, enfim, tudo se precipitou.
Os livros do José Saramago começaram por atirar-se a mim, para logo depois iniciarem respostas, e uma espécie de manguitos, aos insultos dos livros do António Lobo Antunes. No momemto a seguir já as obras de ambos estavam engalfinhadas no chão, tentando os calhamaços Antunianos submenter os volumes mais ligeiros, e por isso mais ágeis, do Nóbel.
Na poesia havia canibalismo. Numa prateleira em que o Sonetos de Shakespeare estava rodeado por autores desconhecidos, daqueles que pagam balúrdios para fazer edições de 200 ou 300 exemplares que ninguém compra, estes arrancavam-lhe páginas para depois as colarem na sua própria encadernação. Houve um que foi ainda mais bárbaro e desatou a subir prateleiras, arrancando ora aqui, ora ali, páginas a monstros consagrados como Pessoa, Neruda e Pedro Mexia.
O Medo, do Al Berto, no meio da confusão encontrou Uma Cerveja no Inferno, do Rimbaud. Ficaram parados um em frente ao outro. Depois, num passo apressado, com o Rimbaud à frente e o português atrás dele a uma certa distância, desapareceram num canto escuro da sala.
Uma pilha enorme de pequenos, mas organizados, Chomskys atirou-se a uma pilha dos pesos-pesados Diplomacia, do Henry Kinssinger. Estes últimos, com uma manobra de diversão, conseguiram que uma outra pilha ao lado, se atirasse aos pobres Chomskys que acabaram esfarelados no chão.
Entretanto, começaram a caír livros das prateleiras mais altas. Os Suícidas tínham tomado a decisão de se atirarem colectivamente. Um Silvya Plath caindo em direcção ao chão de alcatifa, acompanhado de um A Confissão de Lúcio, de um O Velho e o Mar e de um as Ondas. Atiravam-se para logo depois subirem para repetir a cena uma e outra vez.
Quem se distanciou do motim foi um grupo de livros encabeçados pelo Sei Lá e um Danielle Steel. Eram um grupo de sete ou oito, junto aos meus pés, gritando de terror perante mais uma página rasgada, uma queda de uma pilha ou o barulho do papel a ser amachucado. E quando não gritavam, conspiravam umas contra as outras, denigrindo-se quando alguma virava a contra-capa.
A confusão era enorme e eu sentia que nada podia fazer. Felizmente não entrei em desespero e mantive a calma.
Até que chegou o gerente e a senhora da limpeza. Ele olhou para a amálgama de livros que voavam, se arrastavam pelo chão e lutavam entre si. Depois, gritou bem alto
- Vá, todos para as prateleiras, já!
com voz de tanta autoridade que se houvesse uma prateleira onde eu coubesse, não hesitaria em me meter lá também.
Mas os livros zombaram dele e continuaram o motim.
O gerente olhou então para a senhora da limpeza e disse
- Querem jogo duro, não lhe parece?
ao que a senhora da limpeza repondeu com um abanar afirmativo de cabeça e um olhar malicioso meio louco.
- Eu tenho aqui um lança-chamas e não tenho medo de o usar, ouviram?
enquanto acendia a ponta do lança-chamas com um isqueiro.
Os livros pararam por instantes e depois começaram a provocá-lo, avançado para ele e chamando-lhe nomes.
O gerente apontou para um Amor é Fodido, do Miguel Esteves Cardoso, e as chamas tomaram conta do papel. Enquanto o livro ardia no chão, depois de ainda ter avançado em chamas para um Hotel Lusitano, do Rui Zink, todos os outros começaram a recuar e dirigir-se para as prateleiras respectivas. Aos meus pés, um Maria Roma e um Cristina Caras Lindas, desmaiaram. Enquanto o resto gritava em puro pânico.
Eventualmente tudo se resolveu e, passados poucos minutos, já a loja estava a funcionar outra vez.»
Vincent Bengelsdorf – Bicho Escala Estantes - Junho de 2003
Luís, Luís...
A 2000 chegarás, de 2000 não passarás...quantas vezes nos ríamos destas frases estúpidas. Mas a 2000 chegaste, e de 2000 não passaste. Cinco anos exactos. Ao princípio ficámos com raiva pois achámos que tiveste tudo na tua mão. Depois veio a revolta. Depois a saudade. Como é que não te íamos ouvir rir outra vez...nunca te vimos chorar. Ás vezes, como agora, fecho os olhos e consigo ouvir-te mas a tua imagem aparece desfocada. Ah, podias ter sido menos teimoso, podias. Tiveste que ter a última palavra. Gostava de saber o que nos terias dito há precisamente 5 anos quando nos viste completamente inconsoláveis - na melhor das hipóteses chamaste-nos estúpidos.Dia 13, foi mesmo azar...melhor que um 11 dirias. A última semana foi angustiante pois todos os dias morrias um pouco, foi uma contagem decrescente em crescendo mas muuuuiiiitttooooo lenta. Ninguém queria carregar no OFF.
Mudando de assunto...tens encontado pessoal conhecido por aí? Imagino que sim. Deve ser uma animação, ou pelo menos faz-me acreditar que sim. Nós cá continuamos, uns casados, outros divorciados, outros caçando e recolectando que não há quem os compre, facadas, bocas parvas, enfim, o costume...uma pasmaceira.
Lembras-te desta música (não perguntes de quem é!)?:
You told me once, but i forgot
So tell me now and tell me true
So i can say, I am here for you.
Of all the friends i've ever met,
You are the one i won´t forget.
And if i die before you do,
I´ll go to Heaven and wait for you.
Por isso vê se abres a porta à malta! Não sei se demoro, se apareço sem avisar, se ligo antes...um dia apareço! Sim, vou dando notícias!
Um abraço assim grande e um beijo ainda maior.
você é um idiota
Busquei incessantemente nos meus arquivos um texto que já tinha lido há uns bons anos, e que era perfeito para expressar o que, da Esquerda à Direita, e de Norte a Sul, designamos por TRALHA. Finalmente encontrei-o espalmado pela biografia do Charles Bukowski - o livro de POEMAS de Bertolt Brecht da Editorial Presença, agora reeditado pela Campo das Letras.
Verão ser de muita utilidade pois quantas vezes o quisémos dizer mas nos faltou a forma e o conteúdo...experimentem, olhos nos olhos, é verdadeiramente terapêutico.
Sente-se.
Está sentado?
Encoste-se tranquilamente na cadeira.
Deve sentir-se bem instalado e descontraído.
Pode fumar.
É importante que me escute com muita atenção.
Ouve-me bem?
Tenho algo a dizer-lhe que vai interessá-lo.
Você é um idiota.
Está realmente a escutar-me?
Não há pois dúvida alguma de que me ouve com clareza e distinção?
Então
Repito: você é um idiota.
Um idiota
I como Isabel, D como Dinis, outro I como Irene,
O como Orlando, T como Teodoro, A como Ana.
Idiota.
Por favor não me interrompa.
Não deve interromper-me.
Você é um idiota.
Não diga nada. Não venha com evasivas.
Você é um idiota.
Ponto final.
Aliás não sou o único a dizê-lo.
A senhora sua mãe já o diz há muito tempo.
Você é um idiota.
Pergunte pois aos seus parentes
Se você não é um I.
Claro, que não lho dirão
Porque você se tornaria vingativo como todos os idiotas.
Mas
Os que o rodeiam já há muitos dias e anos sabem
que você é um idiota.
É típico que você o negue.
Isso mesmo: é típico que o I negue que o é.
Oh, como se torna difícil convencer um idiota de que é um I.
É francamente fatigante.
Como vê preciso de dizer mais uma vez
Que você é um I.
E no entanto não é desinteressante para você saber que o é
E no entanto é uma desvantagem para você não saber o que
toda a gente sabe.
Ah sim, acha você que tem exactamente as mesmas ideias
do seu parceiro.
Mas também ele é um idiota.
Faça favor, não se console a dizer que há outros I.
Você é um I.
De resto isso não é grave.
É assim que você poderá chegar aos 80 anos.
Em matéria de negócios é mesmo uma vantagem.
E então na política!
Não há dinheiro que o pague.
Na qualidade de I você não precisa de se preocupar
com mais nada.
E você é I.
(Fomidável, não acha?)
Você ainda não está ao corrente?
Quem há-de então dizer-lho?
O próprio Brecht acha que você é um I.
Por favor, Brecht, você que é um perito na matéria
dê a sua opinião.
Este homem é um I.
Nada mais.
Não basta tocar o disco uma só vez.
12.1.05
70x7=Leon Ferrari
Tive o primeiro contacto com estas imagens através da newsletter da revista The Economist a propósito de um briefing sobre Buenos Aires. O Público já lhe tinha feito referência no dia 6 de Janeiro, dando conta da decisão de um juíz de BA que decidiu permitir a reabertura da exposição. Parece, então, que por causa deste senhor caíu o Carmo e a Trindade. Estas obras fazem parte de uma exposição que se encontra no Centro Cultural da Recoleta em BA, antigo convento doado pela Igreja Católica. A primeira reacção do Clero argentino foi "Who the hell does he think he is?"

"La civilización occidental y cristiana"
León Ferrari - 1965

idem

idem
Um dia na vida de uma alcoviteira andarilha
A alcoviteira andarilha vai no andor sobre a água. Leva um farnel de abadivas de conserva e agáricos em azeite. Da nascente para a foz a água é ampla, a água é extensa; de margem a margem a água é estreita. O ar está abafado. A alcoviteira andarilha abana-se num afã. Ajeita-se no andor. Impacienta-se. O povo amontoa-se à beira do rio ou acompanha a alcoviteira andarilha pelo chão alagadiço da margem direita. A alcoviteira alvoroça-se. O povo alegra-se. A alcoviteira alarma-se. O povo admira-a. A alcoviteira andarilha mostra a anágua. O povo rejubila, os álamos curvam-se de assombro. O povo, ardente de despeito, irrita-se: apedreja a alcoviteira andarilha, ateia fogo entre os álamos.
- Basta! - diz a alcoviteira andarilha, que também é rainha.
O povo assusta-se. Os bombeiros chegam e apressam-se a auxiliar os álamos. Conseguem. Porém, nessa azáfama, alagam os campos da margem direita do rio e alargam o rio. O andor da alcoviteira andarilha começa a afundar-se. A alcoviteira andarilha também. No último segundo, ala-se e escapa. Ao ver isto, o povo, que se havia refugiado num monte próximo antes da chegada dos bombeiros, ajoelha-se e reza trinta Ave-marias.
Accidente

Accidente
Ponce de Léon
1936
La escena, aunque no pueda ser considerada como estrictamente surrealista, sino más bien mucho más cercana al Realismo mágico, posee ciertas connotaciones de visión onírica, sensación a la que contribuyeb varios factores como la muy extraña posición de cuerpo, cuyos miembros se pierden entre los faros y la carrocería del coche, la luz que alumbra al accidentado - que, desde luego, no procede de los faros del autonóvil - y, sobre todo, la inusual manera en que el personaje, probabelmente ya sin vida, se señala la frente con su ensangrentado dedo índice. El potente foco de luz, que define contornos y proyecta misteriosas sombras, es también uno dos elementos más desconcertantes, proporcionando al lienzo una aparencia casi fantasmal. La exuberante vegétación que irrumpe en la zona derecha, recordando a los tapices vegetales del aduanero Rousseau, es asimismo otro factor que genera inquietud en el espectador.
(in Guía Museo Nacional Centro de Arte Reina Sofía - La Colección Permanente)
11.1.05
O livre arbítrio, esse desconhecido
Na tasca, ao almoço: notícia sobre restaurante de Guimarães em que os telemóveis passaram a ficar na portaria, à guarda de um funcionário, para que os clientes possam comer em paz. Um repórter da Sic-notícias entrevista o gerente do restaurante, que explica que a decisão foi tomada depois de uma peixeirada armada por cliente durante conversa telefónica com um namorado ou afim, em que todo o restaurante, incomodado, se sintonizou involuntariamente (isto passa, porque sei que há graus de ruído e que nem todos conseguimos desligar a partir de certo ponto, sobretudo quando o espaço alberga muita gente ao mesmo tempo, e porque sei que algumas pessoas não conseguem desligar de som algum, por menor que seja). Depois de entrevistado o gerente, o repórter dá umas voltinhas à sala de refeições para (interromper a paz?) conversar com alguns clientes e inteirar-se do que pensam sobre a medida: um homem com uns quarenta anos e picos, fala na primeira pessoa e louva a inovação, diz que sim, que aprova, que gosta muito mais de almoçar sem o telemóvel por perto, que assim já não tem de atender ninguém enquanto almoça. Não é lindo?
5x2
«Deus inventou o sexo, nós inventámos o amor. Ele tinha razão.»
Vergílio Ferreira
9.1.05
Madrid.
Nada aconselhável para pessoas com o vício de Madrid é a sequência de posts que o Pedro deixou esta semana: este, este e este.
fotografia do Pedro
É mesmo este amarelo ao fim da tarde e quase cheiro aquele frio. Alguns quadros, no Prado e no Thyssen, chamam-me como se fossem pessoas e tenho saudades deles como se fossem pessoas. Se não tivéssemos já decidido regressar no fim de Fevereiro, começava agora a melgar hehe
8.1.05
Memórias do Eterno Presente (*) - Schuiten & Peeters
Quando saí do trabalho, li o resto. A clonagem do Sol. O Grande Cataclismo. O velho Museu abandonado com todas as máquinas e com todos relógios do mundo. O Jardim das Delícias. Não me apetecia acreditar que existisse um fim. Havia, claro, um fim. E no fim havia o mar. O mar pela primeira vez.
Chegada a casa vim à internet para ficar a saber que Schuiten tem uma ligação forte à Arquitectura e que (ai de mim) desenha sempre assim as suas cidades. Dois ou três links depois naufraguei. Pouco depois, dei à costa nas Cidades Obscuras.
Vinte e um anos de mundo por descobrir. Devia ter suspeitado: o mar nunca é o fim de nada.
E agora reparo (estive a escrever o post com a sensação de o endereço não me ser estranho e a somar umas coisas) que já tinha estado no site. À procura da capa virtual do Megapoles, de Bruno Letort e Stefan Rodesco. Um disco que, em 2000, me chamou pela capa. Ilustrações? François Schuiten. Confirmei agora no cd. É belo. Merece o cliché (so help me, God) e eu mereço perdão - some things are meant to be.
_________
* adaptação do filme Taxandria, de Raoul Servais
Ano Mundial da Física
Regra geral, não gosto de Física. A excepção é a Física Quântica, coisa mailinda. Quais Maxwell quais quê; E = mc^2 é a equação mais bonita de toda a Física - a ideia de equivalência massa-energia é de cortar a respiração. (Correcção: esta equação faz parte da Relatividade e não da FQ. Mas continuo a gostar de ambas.)
«(...) A famosa fórmula de Einstein (...) diz-nos que massa (m) e energia (E) se podem converter uma na outra. (...) Um exemplo impressionante, em que o efeito da relação de Einstein para a equivalência entre massa e energia é levado às suas últimas consequências, é o do decaimento de uma certa partícula subatómica, chamada mesão. Trata-se, sem dúvida alguma, de uma partícula material, com uma massa bem definida (e positiva). Ela desintegra-se, ao fim de aproximadamente 10^(-16) segundos (...), dando quase sempre origem a dois fotões.»
(in A Mente Virtual, Roger Penrose, Gradiva)
Sábado de manhã
Casa vazia, chego à sala, os jornais de hoje em cima da mesa. Preparo o pequeno-almoço, para poder desfrutar da leitura jornalística matinal em toda a sua plenitude. Sento-me e só então reparo no montinho ao fundo da mesa. Vivaldi (Expresso), Beethoven (Público) e Bizet (Altaya). Decisions, decisions.
The Burial of the Dead
What are the roots that clutch, what branches grow
Out of this stony rubbish? Son of man,
You cannot say, or guess, for you know only
A heap of broken images, where the sun beats,
And the dead tree gives no shelter, the cricket no relief,
And the dry stone no sound of water. Only
There is a shadow under this red rock,
(Come in under the shadow of this red rock),
And I will show you something different from either
Your shadow at morning striding behind you
Or your shadow at evening rising to meet you;
I will show you fear in a handful of dust.
(in The Waste Land, T. S. Eliot)
Há várias noites que a última coisa que faço antes de dormir é ler isto. E não consigo passar daqui, não consigo virar a página.
7.1.05
Fantasmas
Bem sei que a minha casa é casa antiga, suspeita. Mais cedo ou mais tarde acabaria por ouvir, cristalino, inegável, vindo de recanto sombrio, o som de uma impressora de nove agulhas.
Monopoly Night Sky
Esta edição, como a clássica, inclui o jogo paralelo não oficial mundialmente designado como Monopólio Batota, nas modalidades soft e descarada, que continua a ser fonte de grande prazer, sobretudo perante parceiros de jogo que de facto se convencem que estão a comprar galáxias, a construir nelas hotéis e a ganhar uma pipa de massa com um ar tão respeitável e credível como o dos papéis que nas montras espanholas anunciam as rebajas... convenhamos, por mais amigo que se seja, é como deixar bacalhau a demolhar durante a noite, em cima da bancada da cozinha, em casa onde exista um gato: irresistível (a propósito, o público felino continua a estragar o jogo com entusiasmo).

Os Lobos nas Paredes
Neil Gaiman - ilustrações de Dave McKean
E é melhor calar-me e linkar o post para um artigo de João Miguel Tavares que diz tudo o que eu não sei dizer e que não exagera nada.
Ainda por cima fica-se com um afecto bizarro pelo objecto, que inesperadamente se personaliza. E não se consegue escondê-lo entre os outros, reduzindo-o a uma mera lombada, nem passar por ele em casa sem sorrir, como se a ausência do sorriso pudesse deixar o livro triste (coisa que não se pode fazer a um livro especialmente querido). As coisas que os livros nos fazem.
6.1.05
Great Expectations
Como se faltassem razões para seguir 1bsK, desde dia três há uma que vale por si só: a prometida "surpreendente justaposição de artigos da Lei do Tribunal Constitucional e sabores de iogurte". O post tem três dias. Espero algo assim desde 1991.
5.1.05
Redundância expressa sobre óbvio silente
Sim, as colunas dos livros e dos discos estão desactualizadas. Tenho tido preguiça. Além de ter estado sem internet nos últimos dias (alguém, eventualmente, acabará por acreditar em mim).
4.1.05
As árvores #1
podiam estar nas palavras
ou podiam ser do olhar
- com ou sem óculos -
podiam encontrar-se no mercado
nos gritos e nas vozes
na banca das hortaliças
ou no chão, entre as escamas e a humidade dos peixes
- o cheiro da morte antecipa o do limão e o dos coentros
antecipa o chapéu, o sol e a sombra
antecipa a tua voz e os teus gestos indolentes, ao almoço,
o corpo vago e disperso do tamanho do terraço
ao longe
e vivo
sobretudo vivo -
mas só a máquina
- a que retém
a qualquer hora -
concebe
a nervura elástica
ou - se eu quiser mesmo dizer -
a nervura nervosa onde se fiam os meses
antes e depois nada passa do som
o som do sapato no chão
o som da porta do frigorífico a abrir-se
o som do motor do carro
- não importa em que movimento -
e - se eu quiser mesmo dizer - o silêncio grande
que nenhum outro sítio da cidade permite
(excepto esse entre os ramos
intransitável)
3.1.05
Post desafinado
__________
(#) Sim, ainda sei toda. E não é, nem de perto nem de longe, a única. E também sei de cor a lengalenga da formiga que prendeu o pé na neve.
(*) Olá, Isabel :)
2.1.05
Post de gaja
(sim, Ana, também eu)
Em arrumações recentes, descobri umas VHS antigas com as minhas partes preferidas do Headbanger's Ball (MTV). Fiquei nostálgica, confesso. E apeteceu-me vir aqui pôr o ídolo da minha adolescência:
Pete Steele, Type O Negative
A apresentadora do HBB, por seu lado, era a minha musa inspiradora:
Vanessa Warwick
Desisti de me tentar parecer com ela, depois de perceber que nunca iria poder furar o nariz - estou constantemente constipada. (Aliás, era só mesmo isso que nos distinguia. Not.)
Noronha da Costa
Sempre que vejo um quadro de Noronha da Costa, lembro-me de umas pinturas que fazia na primária: passava uma folha A3 de papel cavalinho por um alguidar cheio de água e colocava-a em cima da mesa; depois, pintar. Mas o efeito! Pegar num pincel, colocar a pontinha na folha e imediatamente a tinta espalhar-se. A inexistência de contornos bem definidos maravilhava-me. Eram as minhas preferidas.
Há uns dias, vi dois quadros dele à venda. Depois de algum tempo a olhar para eles na montra, ainda me aventurei a entrar e perguntar o preço do mais pequeno. Enfim, lá terei de acertar no totoloto.
Ironia natalícia
Alguém já reparou que as grandes estrelas vermelhas penduradas pelos corredores do Colombo estão invertidas?
30.12.04
Diz-me como brincas...
A minha ingenuidade é insondável. Até aos 20 e poucos anos, achava que toda a gente lia livros e os tinha em casa e/ou que frequentava semanalmente a biblioteca pública mais próxima. Até à mesma idade, também, ignorava que para algumas pessoas o dicionário é um livro didáctico juvenil que nunca deve ser consultado depois de concluído o 12.º ano e que a violação desta regra é uma vergonha (“quem consulta um dicionário é burro: se soubesse, não consultava” – ignorava também esta comovente explicação do tabu). Até começar a dar aulas, achava que todos os universitários sabiam escrever, que todos conheciam o mapa-múndi, e que tinham hábitos diários de leitura e de escrita desde a infância. Sem dúvida, a universidade abriu-me os horizontes, pois destruiu e libertou-me destas utopias.
Hoje descobri que é possível brincar com bonecas de forma perfeitamente estéril – durante quinze minutos, uma miúda com uns oito ou nove anos vestiu e despiu uma boneca, comentando com a mãe que outras roupas gostaria de coleccionar e porquê. Quando eu brincava com bonecas contava-lhes ou lia-lhes histórias. Depois, fazia-lhes perguntas sobre essas histórias. Como não abriam a boca, dava-lhes “Não Satisfaz” (tinham cadernetas). Se gostava mesmo de alguma, imaginava-a a dar respostas brilhantes e dava-lhe boa nota. Em dias menos sisudos, expunha-lhes teorias improváveis, irritava-me porque não as compreendiam e prendia-as (atirando-as para o vão de canto entre as estantes do meu quarto, de onde só poderiam sair a voar), não sem antes lhes gritar admoestações arrogantes, cobrindo-as de vergonha. Não serve isto para comparação: é uma constatação. Há lugares da vida onde, por qualquer razão, nunca vivi. De vez em quando, aterro, sempre de forma súbita. E espanto-me. Espanto-me muito.
29.12.04
Chama-se "Música"

Chama-se "Música - minha antiga companheira desde os ouvidos da infância", é uma antologia de Raúl Hestnes Ferreira e Romeu Pinto da Silva, feita a partir de entradas musicais dos diários de José Gomes Ferreira. É de Outubro de 2003 (Campo da Música/ Campo das Letras). Encontrei-o ontem. Eu gosto de ler José Gomes Ferreira em qualquer registo e sobre seja o que for. E este livro tem textos deliciosos. Por exemplo, aquele que me fez trazê-lo para casa, um texto sobre o detestável (no) fado, que li com forte empatia já que o título aí mais espezinhado é o da Mariquinhas, também um dos meus ódios de estimação (pior mesmo só Uma Casa Portuguesa, esse hino à alegria na pobreza e no fascismo). Excerto:
"Estava eu estirado na melhora cadeira de repouso da varanda, a olhar sonolento para a paisagem de árvores em redor, quando principiei a ouvir, num aparelho de rádio ao longe, a melodia dum fado, muito saltitante e repenicadinho que logo, com o automatismo habitual, me esforcei por não ouvir. Mas ouvi. Sobretudo os versos que me picavam por todos os lados como vespas vorazes.
Em vão os sacudi, para não ficarem na memória. Mas isso sim! Agarravam-se teimosos e agudos. Sobretudo os que acabavam em «inhas». «Ginginhas», «lingrinhas», «tabuinhas», «tainhas», «tinhas», «pinhas», «Mariquinhas», «morrinhas», «pinguinhas», «vinhas», «ex-rainhas», «peixe com espinhas», «pilinhas», «sardinhas», «tristes viuvinhas». "
Eu, na expectativa, já tinha gostado muito de "saltitante e repenicadinho". Quando vi ao que se aplicava, pronto, comprei o livro :)
27.12.04
Luz ao fundo do túnel
Cada vez que um professor diz qualquer coisa do tipo (quadrado Fi) implica (bolinha quadrado Fi), uma pessoa fica na dúvida se tomou as decisões certas na vida.
Depois, acontece uma coisa destas e sente-se um certo alívio.
26.12.04
O homem não pode escapar à filosofia porque não pode escapar à sua liberdade
" «Em França, equacionam problemas sem os resolver», dizia-me um dia um americano. - «Nós não os equacionamos, resolvemo-los.»
Resumia neste gracejo agressivo as acusações que sempre foram dirigidas ao pensamento especulativo: não ajuda a viver e até o dificulta. É necessário viver.
Actualmente, quando se ataca o existencialismo, não é, de ordinário, por se preferir uma outra filosofia definida, mas antes por se recusar todo o crédito à filosofia em geral.
Uma tal atitude é inata na sua raiz, repousa sobre opções que não são nem axiomas à priori nem leis experimentais, e interessa por isso, ela mesma, à filosofia.
Por exemplo, não é verdade que a massa dos contendores do existencialismo olhe o mundo com ingenuidade: eles apreendem-no através dos lugares comuns que constituem a Sabedoria das Nações, incoerente, contraditória; no entanto, essa sabedoria é uma visão do mundo que convém pôr em causa. E, se a submetermos a um exame sério, compreenderemos que não poderá satisfazer um espírito sério: é apenas por preguiça que tanta gente opta por ela.
Do mesmo modo, não pode reprovar-se a estética existencialista em nome de princípios absolutos, inexistentes, pois a literatura é aquilo que o homem a faz ser. De facto, opõe-se-lhe uma outra estética, geralmente um vago naturalismo que não possui garantia incondicionada. Um dos domínios em que se recusa mais intensamente a intrusão da filosofia é o domínio político: o realismo político não tem de se enlear, diz-se, em considerações abstractas. Mas, se olharmos mais de perto, aperceber-nos-emos rapidamente que os problemas políticos e morais estão indissoluvelmente ligados: trata-se, em qualquer caso, de fazer a história humana, de fazer o homem, e, já que o homem está por fazer, ele é interrogação: é essa interrogação que está, ao mesmo tempo, na origem da acção e da sua verdade.
Por detrás da política mais limitada, a mais obstinada, há sempre uma ética que se dissimula. Eis o que se descobre com evidência, quando se considera o caso concreto.
O problema do castigo que perturbou tantas consciências no dia seguinte à libertação não poderia resolver-se nem sobre um plano puramente político nem da acordo com com as normas de uma moral abstracta, escolhendo a caridade de preferência à justiça, o rigor de preferência à clemência, justificando todos, ao olhar dos outros homens, uma atitude global que é, precisamente, a atitude metafísica: põem-se inteiramente em causa em face do mundo inteiro. O homem não pode escapar à filosofia porque não pode escapar à sua liberdade: esta implica a recusa do dado e a interrogação. Eis o que estes ensaios se esforçam por mostrar. Não procuram definir uma vez mais o existencialismo, mas defendê-lo contra a acusação de frivolidade e de gratuidade que, de um modo frívolo e gratuito, se dirige de bom grado, desde Sócrates, a todo o pensamento organizado. Na verdade, não há divórcio entre filosofia e vida.
Toda a tentativa viva é uma escolha filosófica e a ambição de uma filosofia digna desse nome é ser um modo de vida que contenha em si a sua justificação."
Simone de Beauvoir - O existencialismo e a Sabedoria das Nações
Tradução de Manuel de Lima e Bruno da Ponte
Editorial Estampa, 2ª edição, 1967
Personna

Mitológica personagem - parece
Um falcão do Egipto
Sob seu lógico discurso permanece
Intacto o não dito
Mas algo de falcão nele se inscreve
Hieróglifo indecifrável
E o deus que ele foi ou nele esteve
Desarticula seu olhar instável
Sophia Andresen As Ilhas
22.12.04
Agenda cultural das Berlengas
"Vai estar patente nas Berlengas, por tempo indefinido, a maior exposição de velhinhas do mundo. Com a chancela do Ministério da Agricultura das Berlengas, este é um evento cultural a não perder.
A Galeria das Velhinhas, na Cidade das Berlengas, Berlengas, inaugura no próximo mês, uma exposição de Velhas com mais de 100 anos.
Apostando numa exposição de dimensão internacional, os organizadores conseguiram garantir a presença de representantes de mais 100 países.
A galeria só vai abrir as portas de 3 em 3 dias, durante apenas duas horas. O objectivo é não cansar as obras em exposição e dar tempo para renovar a exposição, caso alguma das peças se danifique.
Para o caso de algo correr mal com as velhinhas em exposição, a Cruz Encarnada das Berlengas, vai estar em alerta permanente durante os dias de abertura ao público, pois “algumas das velhinhas terão muita dificuldade em aguentar-se de pé durante duas horas”, afirmou o proprietário da galeria.
A exposição estará aberta ao público por tempo indefinido, mas terminará obrigatoriamente quando 8 das obras em exposição morrerem, pois a seguradora “Dona Elvira”, apenas aceitou fazer o seguro de vida para oito das obras. [...]" - Cabeça de Pescada
Perdoai-me, Senhor
Por ter blasfemado o plural de papel, pronunciando, com gozo, papeles, a meio de conversa sobre coisas com as quais não se brinca. Por ter confundido Tchaikovsky com Prokofiev e Prokofiev com Tchaikovsky, com ligeireza e sem arrependimento posterior imediato ou de qualquer outro tipo. Por ter sucumbido a tentação tipicamente feminina, consumista e natalícia e ter gasto metade de uma estadia de quatro dias em Madrid, comprometendo profícua coexistência com a Extracção da Pedra da Loucura, num par de sapatos + os DVDs de Yes, Prime Minister.
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Claro del Reloj
Me senté
en un claro del tiempo.
Era un remanso
de silencio,
de un blanco silencio,
anillo formidable
donde los luceros
chocaban con los doce flotantes
números negros.
Federico García Lorca
20.12.04
A dactilografia correctiva aplicada às árvores
O corrector tem tinta branca ou é uma fita branca. No tempo das máquinas de escrever, o corrector era uma pequena folha branca e rectangular, um pouco menor que um bilhete da Carris, cuja face desprotegida se virava para o papel, atingindo-a pelo lado plastificado com a letra que por engano tínhamos premido. Não posso usá-lo agora, seja em que modalidade for: mesmo que eu quisesse corrigir as folhas que caem ia notar-se sempre o remendo. As folhas nunca são brancas. Talvez por vezes. Na neve e à neve o corrector não adere.
Cá está
Eu não disse que o verdadeiro brilho da prata era verde e vermelho?
"A jovem democracia portuguesa acordou, há cerca de três semanas, surpreendida por um acto Presidencial inusitado para que não estava preparada e que parece ter, a despeito das muitas omissões, um pelo menos aparente agasalho constitucional." - António de Sousa-Cardoso, no Público de hoje, sobre a morte do prematuro (sublinhados meus)
Asserção
Quem te acordou na hora que precede a alvorada - o último momento e o mais longo, o da multidão - não te avisou que pisarias música sobre o chão vazio, se o silêncio te encontrasse descalça?
Os relógios estão partidos, os ponteiros estão na gaveta dos garfos.
19.12.04
The Naming of Cats
The naming of cats is a difficult matter
It isn't just one of your holiday games
You may think at first I'm as mad as a hatter
When I tell you a cat must have three different names
First of all, there's the name that the family use daily
Such as Peter, Augustus, Alonzo, or James,
Such as Victor or Jonathan, George or Bill Bailey -
All of them sensible, every day names.
There are fancier names if you think they sound sweeter
Some for the gentlemen, some for the dames,
Such as Plato, Admetus, Electra, Demeter -
But all of them sensible, everyday names.
But I tell you a cat needs a name that's particular
A name that's peculiar, and more dignified
Else how can he keep up his tail perpendicular
Or spread out his whiskers, or cherish his pride?
Of names of this kind, I can give you a quorum
Such as Munkustrap, Quaxo or Coricopat
Such as Bombalurina, or else Jellylorum -
Names that never belong to more than one cat
But above and beyond there's still one name left over
And that is the name that you never will guess
The name that no human research can discover
But the cat himself knows and will never confess
When you notice a cat in profound meditation
The reason, I tell you, is always the same:
His mind is engaged in a rapt contemplation
Of the thought, of the thought, of the thought of his name
His ineffable, effable, effanineffable
Deep and inscrutable singular name.
T. S. Eliot
18.12.04
Super Pop limão

17.12.04
Recreio das 11
Um dia eu gostaria de compreender que coisa leva um homem aparentemente normal, um pai de família frequentador da missa, a achar, entre outras coisas comoventes, que um relógio de senhora que não vai comprar é motivo de interesse e entusiasmo para três – três – horas de monólogo, disfarçado de diálogo. Ainda por cima, pouco lhe falta para chorar de emoção. Hoje é o dia dos relógios. Ontem foi o dia dos sapatos. Na segunda-feira foi o dia do salário dos outros. Na quarta-feira foi o dia dos carros. Na terça-feira foi o dia dos hotéis de luxo. Estou há três horas concentrada num trabalho que me distribuíram ontem ao fim da tarde, para estar pronto na quarta-feira passada. Estou entusiasmada. Estou ansiosa. E sempre que venho à tona por uns segundos o tipo está nisto. Ele é normal, e eu, à força, sou autista.
16.12.04
Feriados patrióticos atípicos
Este blog tem estado em silêncio porque entrou em estado de choque, deslumbramento, encantamento e admiração com a publicação, num jornal nacional como é o Público, da edição popular da Constituição da República Portuguesa, que assim, por apenas 3 € e mais que o presépio do 24 Horas e do JN, passou a iluminar tantos lares. O verdadeiro brilho da prata é verde e vermelho.
13.12.04
10.12.04
Aulas de CC #2: Semelhanças
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How I need a drink, alcoholic in nature, after the heavy lectures involving quantum mechanics!
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Poe, E.
 Near a Raven
Midnights so dreary, tired and weary.
Silently pondering volumes extolling all by-now obsolete lore.
During my rather long nap - the weirdest tap!
An ominous vibrating sound disturbing my chamber's antedoor.
"This", I whispered quietly, "I ignore".
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Resposta: contar as letras de cada palavra.
Ver aqui o resto do poema e explicações.
Gógol & Kureishi
O nariz de Kovaliov, acessor de colégio, desaparece, assim, sem mais nem menos. Noutra parte da cidade, o barbeiro Ivan Iákovlevitch descobre um nariz dentro do pão que iria comer ao pequeno-almoço. Entretanto, Kovaliov procura desesperadamente o seu nariz, nariz esse que Ivan Iákovlevitch atira de uma ponte.
O Nariz, Nikolai Gógol (Assírio & Alvim, colecção Gato Maltês)
O pénis de Doug, actor porno, desaparece, assim, sem mais nem menos. Noutra parte da cidade, o cabeleireiro Alfie descobre um pénis no bolso do casaco, onde foi procurar algo enquanto tomava o pequeno-almoço. Entretanto, Doug procura desesperadamente o seu pénis, pénis esse que Alfie atira de uma ponte.
O Pénis, Hanif Kureishi (in Meia-Noite Todo o Dia, Teorema, colecção Outras Estórias)
Através de pesquisa googliana por "gogol nose kureishi penis", nada encontrei que me elucidasse sobre a relação entre os dois contos.
Aulas de CC #1
Proposição: A Função Universal é computável.
Isto provou a existência de computadores 30 anos de serem construídos. Computação rulz!
A propósito, saiu há pouco tempo O Computador Universal - Matemáticos e as Origens do Computador (Martin Davis, Bizâncio, colecção A Máquina do Mundo). Eu sei que sou parcial, mas... Vale a pena!
Histórias da Ciência - Epílogo
Só para acabar, recomendo vivamente estas conferências. A próxima sessão é dia 14 de Janeiro - Geologia: afinal houve um princípio e vislumbra-se um fim, Prof. Fernando Barriga. Às 18h30, no Pequeno Auditório da Culturgest, entrada gratuita.
Histórias da Ciência
Apesar do que possa parecer no post anterior, gostei muito da conferência de hoje - A selecção sexual, de Darwin aos nossos dias, Prof. Teresa Avelar.
Visto que os meus conhecimentos acerca do assunto são muito básicos (Biologia 12º e bastantes horas de BBC Vida Selvagem), transcrevo o texto da folha que distribuiram na Culturgest:
«No seu livro A Origem das Espécies (1859), Darwin argumentou que ocorre evolução através da selecção natural. A selecção natural é o resultado de diferenças no sucesso reprodutor dos indivíduos: alguns possuem características herdáveis que lhes permitem sobreviver e reproduzir-se melhor do que outros. Deste modo, as características benéficas tornam-se mais frequentes na população ao longo do tempo. Este mecanismo explica as características adaptativas dos seres vivos. No entanto, em muitas espécies os machos são diferentes das fêmeas de modos que não são fáceis de explicar de acordo com os padrões de "eficiência" no dia a dia: possuem armas ofensivas ausentes nas fêmeas, ou exibem ornamentos mais ou menos elaborados. Para explicar estes casos, Darwin sugeriu um mecanismo adicional, o da selecção sexual e distinguiu entre os casos em que os machos lutam directamente (daí as armas ofensivas), e o vencedor monopoliza as fêmeas, e os casos em que os machos se exibem (daí os ornamentos) e as fêmeas "escolhem" o que lhes "agrada" mais. Darwin desenvolveu estas ideias no livro The descent of man, and selection in relation to sex (1871).
 Os contemporâneos de Darwin aceitaram a ideia de que os machos lutavam pela posse das fêmeas, mas não aceitaram que as fêmeas em animais "escolhessem" e que pudessem ter um impacto tão grande no processo evolutivo. Um dos críticos foi Wallace, co-descobridor da selecção natural, e que achou o processo postulado por Darwin demasiado esbanjador.
 A selecção sexual, em especial a "escolha" pelas fêmeas, continuou a ser criticada ou ignorada após Darwin. Uma das razões foi a ideia de que a selecção natural funcionava para o "bem da espécie", e portanto uma adaptação tinha que ser algo funcional, e não uma extravagância. O renascer do interesse pela selecção sexual por volta de 1970 coincidiu com a reconsideração do nível a que a selecção age: ou seja, o dos indivíduos e não o da espécie. A existência de características extravagantes mas que aumentam o sucesso reprodutor dos indivíduos passou a ser credível.
 Dada a existência de uma preferência por parte das fêmeas, a evolução de ornamentos por parte dos machos é explicável. A grande questão é a origem das preferências nas fêmeas, e várias sugestões estão a ser discutidas: a preferência poderá ser arbitrária (como Darwin sugeriu), ou poderá ter sido seleccionada por trazer vantagens para as fêmeas. A selecção sexual é hoje um dos domínios mais activos da biologia.»
Jornal do Insólito
Ouvir uma bióloga dizer que o macho «faz coisas» à fêmea tem a sua piada. Ou que «a ave macho fica em cima da ave fêmea, por assim dizer».
Post de Elsinore
Anuncia "O Famoso Shampoo Casulo". A minha aposta quanto ao nome do champô é: casulo -> bicho da seda -> casulo feito de seda -> lavados com regularidade, de quinze em quinze dias ou, até, de oito em oito dias, os cabelos adquirem a suavidade e o brilho da seda.
8.12.04
Llasa (L) e o público da Aula Magna (PAM)
L - O meu pai...
PAM - CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP
L - O meu pai...
PAM - CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP
L - O meu pai...
PAM - CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP
7.12.04
Please don't talk about me when I'm gone
O alinhamento dos cds do volume BD Jazz de Sidney Bechet está aqui. "Please don't talk about me when I'm gone" é o 18.º tema e são temas assim que me fazem capitular perante um músico. Eu tinha lido que Duke Ellington teria dito (e procurei confirmação na net mas só encontrei resumos disso) que Bechet era o tipo mais genial que ele conheceu. Mas eu, ao contrário de Abraão, não me deslumbro com vozes sonantes e só sacrificaria um filho na condição de ser essa uma decisão minha. Ah, mas ouvir Sidney Bechet cria todo um novo território existencial (e soberano). Sobretudo porque ele se divertia. Isto eu não li. Mas Sidney Bechet divertia-se a tocar. Eu sei que sim.
Para a Íris Trepadeira: The Rum Tum Tugger
The Rum Tum Tugger is a Curious Cat:
If you offer him pheasant he would rather have grouse.
If you put him in a house he would much prefer a flat,
If you put him in a flat then he'd rather have a house.
If you set him on a mouse then he only wants a rat,
If you set him on a rat then he'd rather chase a mouse.
Yes the Rum Tum Tugger is a Curious Cat--
 And there isn't any call for me to shout it:
 For he will do
 As he do do
 And there's no doing anything about it!
The Rum Tum Tugger is a terrible bore:
When you let him in, then he wants to be out;
He's always on the wrong side of every door,
And as soon as he's at home, then he'd like to get about.
He likes to lie in the bureau drawer,
But he makes such a fuss if he can't get out.
Yes the Rum Tum Tugger is a Curious Cat--
 And there isn't any use for you to doubt it:
 For he will do
 As he do do
 And there's no doing anything about it!
The Rum Tum Tugger is a curious beast:
His disobliging ways are a matter of habit.
If you offer him fish then he always wants a feast;
When there isn't any fish then he won't eat rabbit.
If you offer him cream then he sniffs and sneers,
For he only likes what he finds for himself;
So you'll catch him in it right up to the ears,
If you put it away on the larder shelf.
The Rum Tum Tugger is artful and knowing,
The Rum Tum Tugger doesn't care for a cuddle;
But he'll leap on your lap in the middle of your sewing,
For there's nothing he enjoys like a horrible muddle.
Yes the Rum Tum Tugger is a Curious Cat--
 And there isn't any need for me to spout it:
 For he will do
 As he do do
 And theres no doing anything about it!
Old Possum's Book of Practical Cats, T. S. Eliot
6.12.04
Massas, esta é uma flauta de pau [beijinho]. Quena, estas são as massas [beijinho]
Hoje vi anunciar na televisão um cd com grandes sucessos da flauta de pau, um dos quais é "Nasce Selvagem", dos Delfins.
Quanta violência!
Tareco na primeira pessoa. Pobre tareco
Roubado, com grande lata mas muito respeitinho, que a coisa é ruim, daqui.
5.12.04
Sidney Bechet - BD Jazz
Ainda não consegui a antologia das Victor Sessions, mas para meu espanto, que me tinha esquecido (para uma pessoa esquecida, recordar-se é sempre motivo de espanto), a colecção da BD Jazz tem um volume dedicado a Sidney Bechet, conforme constatação na Fnac do Chiado na sexta-feira. Estou a gostar muito. De ouvir. Mesmo muito. Mas preciso de temas mais antigos, como, precisamente, estes.
3.12.04
Panorama ciego de Nueva York
Si no son los pájaros
cubiertos de ceniza,
si no son los gemidos que golpean las ventanas de la boda,
serán las delicadas criaturas del aire
que manan la sangre nueva por la oscuridad inextinguible.
Pero no, no son los pájaros,
porque los pájaros están a punto de ser bueyes;
pueden ser rocas blancas con la ayuda de la luna
y son siempre muchachos heridos
antes de que los jueces levanten la tela.
Todos comprenden el dolor que se relaciona con la muerte,
pero el verdadero dolor no está presente en el espíritu.
No está en el aire ni en nuestra vida,
ni en estas terrazas llenas de humo.
El verdadero dolor que mantiene despiertas las cosas
es una pequeña quemadura infinita
en los ojos inocentes de los otros sistemas.
Un traje abandonado pesa tanto en los hombros
que muchas veces el cielo los agrupa en ásperas manadas.
Y las que mueren de parto saben en la última hora
que todo rumor será piedra y toda huella latido.
Nosotros ignoramos que el pensamiento tiene arrabales
donde el filósofo es devorado por los chinos y las orugas.
Y algunos niños idiotas han encontrado por las cocinas
pequeñas golondrinas con muletas
que sabían pronunciar la palabra amor.
No, no son los pájaros.
No es un pájaro el que expresa la turbia fiebre de laguna,
ni el ansia de asesinato que nos oprime cada momento,
ni el metálico rumor de suicidio que nos anima cada madrugada,
Es una cápsula de aire donde nos duele todo el mundo,
es un pequeño espacio vivo al loco unisón de la luz,
es una escala indefinible donde las nubes y rosas olvidan
el griterío chino que bulle por el desembarcadero de la sangre.
Yo muchas veces me he perdido
para buscar la quemadura que mantiene despiertas las cosas
y sólo he encontrado marineros echados sobre las barandillas
y pequeñas criaturas del cielo enterradas bajo la nieve.
Pero el verdadero dolor estaba en otras plazas
donde los peces cristalizados agonizaban dentro de los troncos;
plazas del cielo extraño para las antiguas estatuas ilesas
y para la tierna intimidad de los volcanes.
No hay dolor en la voz. Sólo existen los dientes,
pero dientes que callarán aislados por el raso negro.
No hay dolor en la voz. Aquí sólo existe la Tierra.
La Tierra con sus puertas de siempre
que llevan al rubor de los frutos. 
Autorretrato en Nueva York
Federico García Lorca
Catarro autobiográfico do Capitão Gancho (sem banda, sonora ou outra)
Setenta por mim. Nada mau. Deus é pai e o mar é grande.
Hilaridade qualificada
Este Inimigo Público é de guardar. Já se esperava. Mas a cereja em cima do bolo não tem nada que ver com a morte do prematuro: é a tabela de atenuantes do STJ para crimes conjugais. Na página inimiga n.º 6.
Pesar
Pelo meu espanador, que
após meses de violência gratuita
violência sem fundamento
violência v-e-r-d-a-d-e-i-r-a
pereceu, por fim
entre as unhas
e os dentes
de gata insensível
que lhe arrancou
- divertindo-se
muito -
cada pena.
(Esta noite, foi-se a última.)
Era amarelo.
Já reparou que...
«Câmara Irrita Lisboetas com Cartazes Sobre Túnel
Ana Henriques © Público.pt
Âmbar
Um tijolo
sabe a casa
e toda sua
mágica linguagem
de portas,
janelas,
outros tijolos
e espaços vazios.
Sabe a linhagem
e o alinhavo
de seus mortos,
as panteras
fosforescentes
de seus vivos.
Um tijolo
sabe a casa
mesmo que
falem apenas
as ruínas
e mesmo
que se calem,
um tijolo
sempre sabe.
Micheliny Verunschk
Rápido monólogo do caçador com sua caça
Trago
Pardos
Os olhos
De cobiça
Que atiro
Sobre ti,
Teu verbo/teu sexo:
Tua presa
de
marfim.
Micheliny Verunschk
[por que é que cada linha destas, a vazia incluída, me parece durar uma colcheia?]
2.12.04
Leitura de sobrevivência # 6
«Envolvente e altura dominante são conceitos vagos e indeterminados que, perante o quadro da situação de facto, podem ser sindicados pelo tribunal.» - Acórdão do Supremo Tribunal Administrativo, de 14 de Outubro de 2004, Processo n.º 220/04, 1ª Subsecção do Contencioso Administrativo.
(Quase toda a jurisprudência sobre conceitos vagos e indeterminados é bonita, mas nunca tinha encontrado um acórdão sobre envolvente e altura dominante... um empurrãozinho no arranjo formal e a coisa torna-se poética.)
Sonho de Natal
Numa loja cheia de gente, aproximar-me de alguém com embrulhos festivos e dizer: «Boa tarde. Acredita em fantasmas?»
E resistir pelo exagero?


1.12.04
Lei bloguística
Corolário
O crescimento é tanto maior quanto menor for o prazo de entrega.
Universos múltiplos
Cada vez que jogo Solitaire ou Freecell, penso na quantidade de universos que criei.
The book of Bunny Suicides

Ver aqui algumas imagens.
Existe uma edição da Europa-América (sem problemas: não há texto).
30.11.04
29.11.04
Registado com aviso de recepção
Cara Alice,
Nada mais há a dizer.
Registo, todavia, os sentimentos dados a conhecer.
Com os melhores cumprimentos e estima pessoal,
Xavier
Vai a assinar ao Dr. Xavier com a restante correspondência da empresa.
Segue imediatamente.
Leitura de sobrevivência # 5
a) A – cão de companhia;
b) B – cão com fins económicos;
c) C – cão para fins militares, policiais e de segurança pública;
d) D – cão para investigação científica;
e) E – cão de caça;
f) F – cão-guia;
g) G – cão potencialmente perigoso;
h) H – cão perigoso;
i) I – gato.»
_______________________
Ministérios das Finanças, da Administração Interna, da Agricultura, Desenvolvimento Rural e Pescas e das Cidades, Ordenamento do Território e Ambiente © 2004
26.11.04
Dava um bom rapaz para a Anita
Eu gosto dos filmes de menear-de-anca do Elvis. No romance de cordel costuma haver uma moça cheia de virtudes vagamente perdida no mundo e sem rumo. Vagamente, porque não se dá conta, perdida, porque de facto o está, não possuindo normalmente nem terra, nem família, nem laços de qualquer espécie, e sem rumo porque, se o tivesse, não poderia ser salva e não existiria história. Essa moça, nos filmes do Elvis é um moço: é o Elvis. A fazer de Elvis ou de Elvis com óculos escuros e sob pseudónimo. O Elvis chega do nada e vira qualquer aldeia havaiana do avesso, deixando as raparigas em ponto de alvoroço. Coisa que não espanta, pois o Elvis, apesar de vagamente perdido e sem rumo, é culto, meditativo, trabalhador, corajoso, sedutor, porém sério, sabe cantar e, por vezes, dança.
Quando canta o Elvis? Quando dança o Elvis? Nunca se sabe. Precisamente. Sendo certo que, esteja ele a lavar a louça, a reparar um automóvel, a camelo no deserto, se decidir cantar, das alturas celestias soará a orquestração necessária e, se estiver rodeado de pessoas, a essas pessoas será concedida a graça da dança.
Sempre que vejo filmes dele faço apostas a propósito das cenas em que ele vai cantar e dançar. Mais pelo acréscimo de gozo porque, é justo dizê-lo, esses momentos são sempre inesperados.

Elvis Culto / Elvis Pensador / Elvis Trabalhador

Elvis Corajoso / Elvis Sedutor / Elvis Sério

Elvis Cantor / Elvis Dançarino / Elvis nas Arábias
A meu favor
A meu favor
Tenho o verde secreto dos teus olhos
Algumas palavras de ódio algumas palavras de amor
O tapete que vai partir para o infinito
Esta noite ou uma noite qualquer
A meu favor
As paredes que insultam devagar
Certo refúgio acima do murmúrio
Que da vida corrente teime em vir
O barco escondido pela folhagem
O jardim onde a aventura recomeça.
Alexandre O'Neill
25.11.04
I'm Going Away To Wear You Off My Mind # 4

"The year is 1938. In the quiet, well-lit environment of the Coolidge Auditorium, housed within the United States Library of Congress, a lone man sits at the piano, comping as he tells his life story. It is the story of a hustler, pool player, cardsharp, fight promoter, pimp, and musician, and it is peppered with outrageous claims, ribald tales, and remembrances of events that stretch the credulity of even the most generous listener. Periodically he punctuates his stories with full-fledged songs, the piano ringing out with knuckle-busting stomps, joined by high-spirited vocals singing often-bawdy lyrics. The recording machine that runs continuously, tended by the only other person present in the auditorium, captures all of this. [...]"
Um cálice sagrado, essa é que é essa, ouvir isto.
O que me arrepia mesmo quando penso na existência destas gravações, além de nelas Jelly Roll Morton contar a sua vida e tocar a sua música, é ele ser um tipo que esteve lá e contar como foi. Não é um livro de história. É mil vezes melhor: é a primeira pessoa do singular.
I'm Going Away To Wear You Off My Mind # 3
Isto é extremamente lento. Começou em Março deste ano e eu ainda não saí de New Orleans e não avancei além da década de 20. Estou constantemente a avançar e a retroceder para ouvir coisas que surgiram nesses primeiros vinte anos do século. Ler atrasa ainda mais as coisas. Mas também não tenho marcado nenhum exame. Posso dar-me ao luxo de passar o tempo que quiser em cada época e de ouvir cada música como se todas as outras ainda não existissem. Ou antes devo? Às vezes acho que devo. Que só pode ser assim.
I'm Going Away To Wear You Off My Mind # 2
O que ando a tentar fazer, na falta de uma máquina do tempo, é dar aos ouvidos aquilo que mais nenhum sentido meu pode ter. O livros ajudam a arrumar a informação e os sons, que se foram e vão acumulando, e a visualizar os tempos, porque inserem os factos num contexto mais amplo. Mas sobretudo ajudam a encontrar a música, a desamarrotar os anos antigos, de forma a que eu consiga ver neles os meses, os dias, e, em especial, as noites. Se eu procurasse e ouvisse antologias, sobrevoaria tudo isso, sem nunca chegar a descer. Mas eu quero as vielas, as ruas de terra, o som do frio nas noites de inverno, o cheiro do pó e do suor durante o estio, os motores lentos de alguns, poucos, carros, a porta entreaberta de um sítio suspeito e mal iluminado, o ruído das vozes e da música, o cheiro e o fumo do tabaco, entrar, estar lá da forma mais intensa que a imaginação permita, e ouvir.
Bloody blog # 2
Já está. E com o bónus de, para o título do blog, eu ter encontrado o clássico azul que entra pelos olhos dentro e parece mover-se, do qual sou admiradora desde os quatro ou cinco anos, altura em que o descobri, maravilhada, numa revista dos meus pais.
É provável que isto, a médio prazo, resulte cansativo. Chegada a esse limite, porei fim aos dias vermelhos do Húmus e tentarei dar-lhe um aspecto menos excessivo, de suavidade martin-parriana. Qualquer coisa, sei lá, florida...
Bloody blog
Estou a aproximar-me muito.
Era só para avisar.
Não percebi
24.11.04
Kafka sumiu mesmo
Dei pelo erro há um ou dois dias. Pensei que talvez tivesse estragado o link ao introduzir outro na lista dos blogs. Fui confirmar há pouco. Tudo bem com o meu link: Kafka sumiu. Kafka em Belo Horizonte, Volta de Kafka, Lupa do dia - tudo parado, como antes. Encontrei-os todos amotinados no Prosa e Poesia.
E agora? Como lê-lo? Como não lê-lo?
Vou ali fumar e já volto
Há qualquer coisa além da defesa da saudinha que alegra os não fumadores fundamentalistas por estes dias. Uma alegria no poder que podia até dar direito a farda, uma alegria parecida à que sentiram as mentes vitorianas com a aprovação da lei seca, um melindre moralista e moralizante, ressabiado, que, recalcado durante décadas, finalmente, encontra o seu escape.
E não é só o facto de cada não fumador fundamentalista ser agora um pequeno polícia com o seu pequeno planeta soberano para fiscalizar. É mesmo aquela coisa anterior e básica, que está dentro de todas as pessoas em menor ou maior grau, e na qual os pensamentos mais frágeis facilmente se inebriam: o homem, quanto mais pequeno é, mais gosta e mais precisa de exercer poder sobre. Sobre. Não interessa muito sobre o quê. À falta de melhor, sobre um cão, como disse Camus.
O essencial, todavia, é a imposição de si a outro, como se a identidade se formasse e a identificação se alimentasse das marcas exteriores deixadas sobre os outros, como se não houvesse a certeza de, em si, se ser alguma coisa. Agora é o tabaco, mas podia ser qualquer outra coisa. No fundo, os não fumadores fundamentalistas adoram ser fumadores passivos, coisa que lhes dá o direito de espernear como mais nenhuma.
Os que me rodeiam começam a implicar com o tabaco fumado a céu aberto. Ainda teremos ruas interditas. Não é a saúde, não, tem de haver disto em todos os tempos: uma forma legitimada de impor comportamentos aos outros, no plano das relações quotidianas entre particulares. E acho que depois de trinta anos sem ser possível denunciar os vizinhos à polícia por comerem criancinhas ao pequeno-almoço, já tardava, já fazia falta inventar um novo ascendente. E acho que, sem ser pela sua saudinha, a gente pequenina, que é muita, rejubila.
Eu, se não fumasse, começava agora a fumar.
As borbulhas
O que é que distingue um leitor de um estudante? O tamanho dos livros? A roupa? A quantidade de borbulhas?
23.11.04
Da dignidade poética dos fusíveis
– Ficou subitamente cheia de malmequeres, depois com febre e agora está ali deitada, coitada. Estamos à espera do filósofo. Chamámos um lacrimoso. A tua prima parece ter tido um ataque de lamechice.
– A sério? Onde tem ela os malmequeres?
– Rebentaram pelo corpo todo esta manhã. Mas ontem ao fim da tarde já eu a achei muito estranha. Tinha estado cá um tipo da companhia da luz, a arranjar uma caixa de fusíveis do prédio, e fui dar com a tua prima nas escadas, a dizer-lhe que os fusíveis não têm a dignidade poética das estrelas.
– Oh!
– Foi uma vergonha. Meti-a logo em casa. Mesmo assim não se calou com aquilo durante o jantar e, enquanto tomávamos café, começou a cantar.
– A cantar o quê?
– Começou mesmo a cantar... que os fusíveis não têm a dignidade poética das estrelas. Estava já fora de si, decerto. Mas eu só quando a vi cheia de flores é que me apercebi da gravidade disto.
– Que situação. E como é este lacrimoso? Já tratou alguém da família antes? Tratou o Jorge, não foi?
– Não, o lacrimoso chora, não é? Quem tratou o Jorge durante a fase mística foi um sarcástico. Em boa hora o curou. Já havia música zen em todas as divisões da casa.
22.11.04
A música também é como as cerejas
Ah, e a voz da Mirah dá ares mas não é a mesma coisa. É muito mais bonita.
Ela sentou-se em desdobrar de guardanapo
Ruben A. > Caranguejo
Assírio & Alvim









