11.4.05

Quadros que roubaria no Thyssen se fosse uma ladrona esguia detentora da ginástica e das roupas pretas adequadas – X


Salomon Jacobsz van Ruysdael
Vista de Alkmaar desde el mar, c. 1650

Sortido rico

1. Ouvir na rádio, chegada de uma porta entreaberta, parte de uma notícia e depois correr a imprensa escrita online atrás de uma confirmação que não encontro. Enviar mails a pedir ajuda. Que se passa/passou no Taborda?

p.s. Encontrei.

2. Hoje acordei com vontade de ter 500 páginas novas da Pior Banda do Mundo para ler. Pelo menos 500. Bem sei que é um desejo irracional, fruto dos malefícios que o vício por esses livros inflige na minha capacidade de discernimento. Mas há lugares onde nos deixam continuar a ser putos e continuar a crescer: amigos, livros, músicas. A Pior Banda do Mundo é um sítio desses.

10.4.05

O Papa?


Velazquez > Pope Innocent X, 1650


Francis Bacon > Head VI, 1949


Francis Bacon > Pope II (Pope Shouting), 1951


Francis Bacon > Study for the Head of a Screaming Pope, 1952


Francis Bacon > Study for Portrait VIII, 1953


Francis Bacon > Study after Velazquez's Portrait of Pope Innocent X, 1953


Francis Bacon > Pope and Chimpanzee, 1962


Francis Bacon > Study from Innocent X, 1964


Francis Bacon > Second Version of "Study for a Red Pope 1962", 1971

El Color


Manuel Alvarez Bravo (1966)
© Familia Alvarez Bravo y Urbajtel

A Peste > O princípio da reflexão

«A morte do porteiro, pode dizer-se, marcou o fim deste período, cheio de sinais desconcertantes, e o início de um outro, relativamente mais difícil, em que a surpresa dos primeiros tempos se transformou, pouco a pouco, em pânico. Os nossos concidadãos - era agora que davam por isso - nunca tinham pensado que a nossa pequena cidade pudesse ser um lugar particularmente designado para que os ratos lá morressem ao sol e que os porteiros lá perecessem de doenças estranhas. Sob este ponto de vista, era evidente que estavam em erro e que as suas ideias tinham de ser revistas. Se tudo tivesse ficado por aí, os hábitos, sem dúvida, teriam vencido. Outros, porém, de entre os nossos concidadãos, nem sempre eram porteiros nem pobres, e também seguiram o caminho que Michel tinha tomado em primeiro lugar. Foi a partir desse momento que começou o medo e, com ele, a reflexão.» - A Peste > Albert Camus (trad. Ersílio Cardoso), Lisboa, Livros do Brasil - p. 34

A Peste > Orão, uma cidade inteiramente moderna

«Sem dúvida, nada há de mais natural, hoje em dia, que ver as pessoas trabalharem de manhã à noite e perderem em seguida, a jogar as cartas, no café ou a dar à língua, o tempo que lhes resta para viverem. Mas há cidades e países onde as pessoas têm, de tempos a tempos, a suspeita de que existe mais alguma coisa. Isso, em geral, não lhes modifica a vida. Simplesmente houve essa suspeita, e sempre é um ganho. Orão, pelo contrário, é uma cidade sem suspeitas, quer dizer, uma cidade inteiramente moderna.» - A Peste > Albert Camus (trad. Ersílio Cardoso), Lisboa, Livros do Brasil - pp. 14-15.

A Peste > Estado de espírito

Não me perguntem porquê, mas a banda sonora oficial da releitura d'A Peste é o requiem que Zbigniew Preisner fez para Kielowski. E o Aberdeen, também do Preisner. E o 10 Easy Pieces for Piano, idem. Assim, por esta ordem. É um itinerário, nitidamente, e tudo o resto além da sua urgência é, para mim, uma névoa. Estou no princípio do requiem.



No ano passado, quando andei a passar para o computador sublinhados de outros livros de Camus, havia algo semelhante a uma náusea. A ideia de ter de voltar a Camus de outra forma que não a de passar sublinhados dos livros dele, uma releitura propriamente dita, actualizada e corrigida, e também assuntos pendentes por resolver. Camus não é para mim mais um escritor e os seus livros não são propriamente livros. Camus é um homem, interessa-me o que viu e o que pensou, Camus está morto, está longe, os livros permitem-me, apesar de tudo isso, encontrá-lo.

A Peste > A santidade

Há meia-hora senti necessidade de reler A Peste como se A Peste fosse o único livro do mundo. O livro esteve em casa de uma prima minha durante dois anos. Devolveu-mo na Páscoa e eu arrumei-o na biblioteca, junto aos outros. Desapareceu num ápice porque a minha biblioteca se parece com o deserto e todos os dias os livros mudam de sítio. Fui procurá-lo e não o encontrei imediatamente. Foi em frente às estantes que compreendi que o que quero mesmo reler é a ideia da santidade. O que implica reler o livro todo e seguir um homem. Rieux ou Tarrou? Não me lembro.

A Peste > O mar

A Peste foi o meu primeiro livro de Camus porque Orão estava de costas viradas para o mar. Li, portanto, as primeiras cinco páginas na livraria e, chegada aqui,

«Pode apenas lamentar-se que ela [Orão] esteja construída de costas voltadas para essa baía e que, por conseguinte, seja impossível ver o mar, que é sempre preciso ir procurar.»

levei o livro para casa.

9.4.05


© Alexandra Boulat

+ aqui

›Intimacies‹


Aimee’s Saircase © Raïssa Venables

8.4.05

Em New Bedford

Era em New Bedford: um barco
partia para Nantucket.
Tremo fascinado pelo deserto
branco desse nome.
Melville, Moby Dick, o mar – de súbito
tudo rompia daquelas sílabas;
um mar feliz de cachalotes coroados
por jorros de espuma,
as núpcias do touro branco
com a baleia azul
no manso prado das águas,
a misteriosa fonte da alegria,
os saltos para o sol, o canto
fundo, a valentia, o ardor
entre homens e baleias. Era também
a morte. A morte nunca é limpa.
A morte cresce no escuro,
propaga-se no ar, entra pelas narinas.
Só o deserto é branco;
a morte não; só o mar.

Eugénio de Andrade

Se viajar de metro, não leia. (não é a primeira vez, mas hoje bati o record)

À hora de almoço vou ao Chiado. Faço o que tenho a fazer e a seguir apanho o metro na Baixa/Chiado para regressar ao Marquês. Abro o livro. Próxima estação? Parque. Saio da carruagem, subo um lanço de escadas, desço outro, espero pelo metro para o Marquês. Quando chega, entro e sento-me. Abro o livro. Próxima estação? Restauradores. Saio da carruagem, subo um lanço de escadas, desço outro, espero pelo metro para o Marquês. Entro e sento-me. Anoto mentalmente «Desta vez é que é, não me vou distrair.». Abro o livro. Próxima estação? Parque. Enervo-me: ainda não almocei. Subo um lanço de escadas, desço outro lanço de escadas, espero pelo metro para o Marquês. Entro, sento-me e abro o livro. «É agora.». Próxima paragem? Avenida. Saio e regresso ao Marquês a pé, de livro fechado.

7.4.05

São Bento


(maior aqui)


(maior aqui)

A primeira fotografei-a porque ultimamente vejo lódãos em toda a parte (eu sei) e fiquei contente por encontrar um tão grande ontem à tarde, sobretudo porque me dei conta quando passava debaixo, naquela sensação fenomenal que assalta muitas vezes os distraídos: se-fosse-um-cão-mordia-me. O cheiro fez-me parar e olhar para ela, as folhas e o tronco confirmaram a suspeita. A segunda não sei o que é. Gosto da escala que impõe ao casario e à gente que passa.

Estas árvores estão em frente ao Palácio. Temi que os seguranças me aborrecessem quando levei a mão ao bolso para ir buscar a máquina. Mas correu tudo bem e no fim ainda consegui desviar os pés de regresso ao bom caminho, depois de terem, sozinhos, começado a andar na direcção da livraria parlamentar. Uma das minhas livrarias preferidas. Ah, pois é. Felizmente também fazem a Feira do Livro e uma vez por ano chega-me. Confesso que me faltam números raros dos Relatórios do Provedor à Assembleia da República e que isso me assombra o coração. E feliz, feliz a sério, só fico quando leio as conversas em família:

«Disse o grande governador de Moçambique António Enes num dos seus relatórios que explorar a bebedice do indígena era o principal objectivo da actividade agrícola e comercial da província. E acrescentou que «o indígena trabalhava para poder embriagar-se, e bebeu, bebe e há-de beber sempre».
É evidente que o indígena consumia, como ainda consome, especialmente bebidas cafreais, ou sejam as obtidas geralmente por fermentação de frutos, cereais, miolo de cana de açúcar, etc.; e são tão nocivas que em 1905 a Associação Comercial de Lourenço Marques propôs a proibição da sua importação ali, por arruinarem a saúde do indígena, e acentuou que era uma mixórdia sem nome, que, a pouco e pouco, envenenava a raça indígena.
Vozes: - Muito bem !
O Orador: - Também Freire de Andrade referiu, nos seus relatórios de 1907, 1909 e outros, os inconvenientes do uso de tais bebidas, dizendo que elas enfraqueciam, dia a dia, as raças indígenas, tão propunhas a embriaguez por vício inveterado. E manifestou-se no sentido de que, embora o indígena prefira o vinho, o uso ou abuso daquelas bebidas só podia ser impedido mediante uma fiscalização enérgica.
Ignoro se existem actualmente medidas gerais proibitivas ou restritivas do fabrico das bebidas cafreais e que sejam eficientes; mas sei que as há limitativas de venda dos vinho comuns, pois essa está quase impedida, pelo menos no distrito da Beira, onde é muito difícil obter licença ou alvará para venda de vinho a retalho; e, assim, não admira que o indígena, além das bebidas cafreais, chegue a ingerir álcool desnaturado, perfumes e outros ingredientes inconcebíveis. Uma espécie de cocktail indígena, talvez servido com jazz de batuque ...
» (1955-01-27, Assembleia Nacional)

Como não gostar desta transparência? "o indígena trabalhava para poder embriagar-se, e bebeu, bebe e há-de beber sempre". Sempre que ruído em excesso se instala na comunicação social (cada vez mais frequente), em alturas de eleições e outras, vou ler debates da 2ª República. Estão lá a transparência do passado e, por comparação, a explicação de muitos tiques e achaques presentes... ou a demagogia quando não era vergonha explicada às crianças do futuro. É água mole em pedra dura, mas gosto de coisas de lenta apreensão, como esta da percepção dos estilos - saber como fala quem quer mandar em mim:

«O rapaz até que não é burro
tem é falta de uso
mete o nariz onde não é chamado
como um parafuso
ó meu rapaz, tu só és senhor
do nariz que é teu
aqui paro para explicar uma coisa:
é que o rapaz sou eu
e assim fala quem quer mandar em mim
e assim fala quem quer mandar em mim
e assim fala quem quer mandar em mim
não protestes
não desfiles
não contestes
não refiles
já joguei ao boxe, já toquei bateria (trapum)
p´ra ver se me livrava desta energia
nada feito, que arrelia

isto no fim não passa de uma fase
que passa com o uso
foi muita liberdade de uma vez
e o rapaz está confuso
agora é tempo de apertar com ele:
olha, acabou-se a farra
ai, ai que este país está de pantanas
e não há quem o varra
assim fala quem já me quis varrer
assim fala quem já me quis varrer
assim fala quem já me quis varrer
não protestes
não desfiles
não contestes
não refiles
já joguei ao boxe, já toquei bateria (trapum)
p'ra ver se me livrava desta energia
nada feito, que arrelia

durante algum tempo foi necessário
pôr o rapaz a uso
pô-lo a gritar sobre o prestigio pátrio
e o orgulho luso
agora só nos faltava ele querer
virar o feitiço
contra o feiticeiro que o pôs a render
é que nem pensar nisso
assim fala quem me pôs a render
assim fala quem me pôs a render
assim fala quem me pôs a render
não protestes
não desfiles
não contestes
não refiles
já joguei ao boxe, já toquei bateria (trapum)
p'ra ver se me livrava desta energia
nada feito, que arrelia»

6.4.05

Pátrias

Há alturas em que não consigo ouvir Zeca Afonso. São raras, mas acontecem. São alturas em que não estou sintonizada naquele tom e naquele eco. Normalmente, consigo ouvi-lo todos os meses do ano. Às vezes, muitas vezes, tenho saudades de certas músicas nos sítios e nos momentos mais variados. Ouço-as para dentro facilmente, na falta de um disco. Só elas me reconciliam com o silêncio e com o tempo. Chico Buarque, também.

O meu pai viciou-me, desde sempre, a acordar com som. Nos dias de semana, o da rádio, com notícias e músicas não escolhidas. Ao fim-de-semana, o som dos discos. Pode ser um disco qualquer de que eu goste. Se for Beethoven, que é muito velho na minha cabeça, acordo entusiasmada. Se for Zeca Afonso, acordo serena, como se a minha infância fosse o primeiro dia de um país. Se for Carlos Paredes, acordo feliz da vida e a lembrar-me do desejo absurdo de sofrer de Cesário Verde.

Confesso que no ano passado, na manhã em que ouvi a notícia da sua morte, antes de sair de casa, o pus a tocar. Não fazia sol nessa manhã e a praça estava cinzenta. Carlos Paredes também é pátria. Eu fui à janela ver o dia, estava um velho sentado num banco da praça, alguns pombos perto, e enquanto a música durou – ouvi nessa manhã o Canto do Rio, em silêncio, porque o meu corpo, muito mais o meu corpo do que a minha cabeça, não consentiria continuar sem isso – não passaram pessoas ou carros, ficaram só o velho e os pombos. E os lódãos, não esquecer os lódãos.

Outro tipo que de vez em quando me assalta, mas que não consigo ouvir para dentro com tanta facilidade, é Sérgio Godinho. Ah, isto vinha tudo a propósito de Sérgio Godinho, não me lembro de viver sem as canções de Sérgio Godinho (entrei, definitivamente, em fase de falar pelos cotovelos, o que em mim ocorre com a frequência dos eclipses e como os eclipses... é aqui que compreendo melhor Elisabeth, o silêncio de Elisabeth, a necessidade de silêncio de Elisabeth). O que eu não dava para ouvir agora mesmo Sérgio Godinho e Jorge Palma em Mudemos de Assunto, como aqui:



«Andas aí a partir corações
como quem parte um baralho de cartas
cartas de amor
escrevi-te eu tantas
às tantas, aos poucos
às tantas, aos poucos
eu fui percebendo
às tantas eu lá fui tacteando
às cegas eu lá fui conseguindo
às cegas eu lá fui abrindo os olhos

E nos teus olhos como espelhos partidos
quis inventar uma outra narrativa
até que um ai me chegou aos ouvidos
e era só eu a vogar à deriva
e um animal sempre foge do fogo
e eu mal gritei: fogo!
mal eu gritei: água!
que morro de sede
achei-me encostado à parede
gritando: Livrai-me da sede!
e o mar inteiro entrou na minha casa

E nos teus olhos inundados do mar
eu naveguei contra minha vontade
mas deixa lá, que este barco a viajar
há-de chegar à gare da sua cidade
e ao desembarque a terra será mais firme
há quem afirme
há quem assegure
que é depois da vida
que a gente encontra a paz prometida
por mim marquei-lhe encontro na vida
marquei-lhe encontro ao fim da tempestade

Da tempestade, o que se teve em comum
é aquilo que nos separa depois
e os barcos passam a ser um e um
onde uma vez quiseram quase ser dois
e a tempestade deixa o mar encrespado
por isso cuidado
mesmo muito cuidado
que é frágil o pano
que veste as velas do desengano
que nos empurra em novo oceano
frágil e resistente ao mesmo tempo

Mas isto é um canto
e não um lamento
já disse o que sinto
agora façamos o ponto
e mudemos de assunto
sim?»

As casas

As casas habitadas são belas
se parecem ainda uma casa vazia
sem a pretensão de ocupá-las
tornam-se ténues disposições
os sinais da nossa presença:
um livro
a roupa que chegou da lavandaria
por arrumar em cima da cama
o modo como toda a tarde a luz foi
entregue ao seu silêncio

Em certos dias, nem sabemos porquê
sentimo-nos estranhamente perto
daquelas coisas que buscamos muito
e continuam, no entanto, perdidas
dentro da nossa casa

José Tolentino Mendonça

Experiment in terror *

É só para avisar que acho que descobri como pôr as tais flores martin-parrianas no fundo disto.



Não o farei. Todavia, vou começar hoje a procurar uma casa-de-banho ou uma cozinha dos anos 70, com azulejos dessa época, horríveis, que eu possa fotografar e trazer para o blog.

* Deu jeito, o título, mas só porque vinha a pensar nisso: não é que a Cinemateca vai passar o filme no dia 27 às 15:30? E eu já a imaginar o som de Mancini no cinema (são fantásticos os estímulos de cada um, não são?). Grrr. Podia ser outro planeta habitado, até um com vida inteligente, que eu não me daria conta por estar a trabalhar: terão sido os efeitos nocivos do trabalho alguma vez considerados pela SETI enquanto obstáculos à comunicação entre os povos do universo?

5.4.05

Ainda os lódãos

Página catalã tem fotografias das folhas com escala visível em centímetros. Assim:



A mesma fotografia, mas maior e com todo o detalhe, está aqui.

Por baixo das folhas, a flor:

4.4.05

Um Homem é Um Homem

«O Teatro do Bairro Alto, em Lisboa, estreia no dia 7 de Abril uma comédia de Bertolt Brecht cuja acção se situa numa colónia imaginária. Nesta parábola política, três soldados do exército britânico, aterrorizados pelo seu sargento, são forçados a candidatar-se à substituição de um dos homens da sua secção de metralhadora que sofreu um pequeno acidente.
Depois de muitas ameaças e chantagens, o estivador Galy Gay é o escolhido para substituir o colega. O subtítulo da peça é "A transformação do estivador Galy Gay no acampamento militar de Kilkoa no ano de 1925" e resume todo o enredo. É que, para sobreviver, Galy muda de nome e transforma-se em soldado. Perde a identidade para se integrar no colectivo e dão-se outras modificações: Galy Gay torna-se chefe militar e o violento sargento é humilhado e passa a civil. Três horas de espectáculo com referências ao militarismo, à guerra e à relação entre os seres humanos.» - PÚBLICO.PT

Já não será a primeira vez, mas apetece-me muito:

«Los encuentros de un caracol aventurero


Hay dulzura infantil
en la mañana quieta.
Los árboles extienden
sus brazos a la tierra.
Un vaho tembloroso
cubre las sementeras,
y las arañas tienden
sus caminos de seda
-rayas al cristal limpio
del aire-.
En la alameda
un manantial recita
su canto entre las hierbas.
Y el caracol, pacífico
burgués de la vereda,
ignorado y humilde,
el paisaje contempla.
La divina quietud
de la Naturaleza
le dio valor y fe,
y olvidando las penas
de su hogar, deseó
ver el fin de la senda.

Echó a andar e internose
en un bosque de yedras
y de ortigas. En medio
había dos ranas viejas
que tomaban el sol,
aburridas y enfermas.

"Esos cantos modernos
-murmuraba una de ellas-
son inútiles". "Todos,
amiga -le contesta
la otra rana, que estaba
herida y casi ciega-.
Cuando joven creía
que si al fin Dios oyera
nuestro canto, tendría
compasión. Y mi ciencia,
pues ya he vivido mucho,
hace que no lo crea.
Yo ya no canto más..."

Las dos ranas se quejan
pidiendo una limosna
a una ranita nueva
que pasa presumida
apartando las hierbas.

Ante el bosque sombrío
el caracol se aterra.
Quiere gritar. No puede.
Las ranas se le acercan.

"¿Es una mariposa?",
dice la casi ciega.
"Tiene dos cuernecitos
-la otra rana contesta-.
Es el caracol. ¿Vienes,
caracol, de otras tierras?"

"Vengo de mi casa y quiero
volverme muy pronto a ella".
"Es un bicho muy cobarde
-exclama la rana ciega-.
¿No cantas nunca?" "No canto",
dice el caracol. "¿Ni rezas?"
"Tampoco: nunca aprendí".
"¿Ni crees en la vida eterna?"
"¿Qué es eso?
"Pues vivir siempre
en el agua más serena,
junto a una tierra florida
que a un rico manjar sustenta".

"Cuando niño a mí me dijo
un día mi pobre abuela
que al morirme yo me iría
sobre las hojas más tiernas
de los árboles más altos".

"Una hereje era tu abuela
.
La verdad te la decimos
nosotras. Creerás en ella",
dicen las ranas furiosas.

"¿Por qué quise ver la senda?
-gime el caracol-. Sí creo
por siempre en la vida eterna
que predicáis..."
Las ranas,
muy pensativas, se alejan.
y el caracol, asustado,
se va perdiendo en la selva.

Las dos ranas mendigas
como esfinges se quedan.
Una de ellas pregunta:
"¿Crees tú en la vida eterna?"
"Yo no", dice muy triste
la rana herida y ciega.
"¿Por qué hemos dicho, entonces,
al caracol que crea?"
"Por qué... No sé por qué
-dice la rana ciega-.
Me lleno de emoción
al sentir la firmeza
con que llaman mis hijos
a Dios desde la acequia..."

El pobre caracol
vuelve atrás. Ya en la senda
un silencio ondulado
mana de la alameda.
Con un grupo de hormigas
encarnadas se encuentra.
Van muy alborotadas,
arrastrando tras ellas
a otra hormiga que tiene
tronchadas las antenas.
El caracol exclama:
"Hormiguitas, paciencia.
¿Por qué así maltratáis
a vuestra compañera?
Contadme lo que ha hecho.
Yo juzgaré en conciencia.
Cuéntalo tú, hormiguita".

La hormiga, medio muerta,
dice muy tristemente:
"Yo he visto las estrellas."
"¿Qué son las estrellas?", dicen
las hormigas inquietas.
Y el caracol pregunta
pensativo: "¿Estrellas?"
"Sí -repite la hormiga-,
he visto las estrellas,
subí al árbol más alto
que tiene la alameda
y vi miles de ojos
dentro de mis tinieblas".
El caracol pregunta:
"¿Pero qué son las estrellas?"
"Son luces que llevamos
sobre nuestra cabeza".
"Nosotras no las vemos",
las hormigas comentan.
Y el caracol: "Mi vista
sólo alcanza a las hierbas."

Las hormigas exclaman
moviendo sus antenas:
"Te mataremos; eres
perezosa y perversa.
El trabajo es tu ley."

"Yo he visto a las estrellas",
dice la hormiga herida.
Y el caracol sentencia:
"Dejadla que se vaya.
seguid vuestras faenas.
Es fácil que muy pronto
ya rendida se muera".

Por el aire dulzón
ha cruzado una abeja.
La hormiga, agonizando,
huele la tarde inmensa,
y dice: "Es la que viene
a llevarme a una estrella".

Las demás hormiguitas
huyen al verla muerta.

El caracol suspira
y aturdido se aleja
lleno de confusión
por lo eterno. "La senda
no tiene fin -exclama-.
Acaso a las estrellas
se llegue por aquí.
Pero mi gran torpeza
me impedirá llegar.
No hay que pensar en ellas".

Todo estaba brumoso
de sol débil y niebla.
Campanarios lejanos
llaman gente a la iglesia,
y el caracol, pacífico
burgués de la vereda,
aturdido e inquieto,
el paisaje contempla. »

Federico García Lorca > Libro de Poemas

Celtis australis (eu pedi paciência)

Nesta página encontrei isto:



É um tronco bonito, não é? Com a vantagem de ficar negro em contacto com a água e de produzir noites de Inverno sinistras e mágicas. O verde escuro das folhas é verdade e acontece na agonia do Verão, lá para Agosto, Setembro. As folhas nascem num tom entre o verde alface transparente e o dourado e a partir daí, até ao Verão, todos os dias (e isto não é mais um dos meus exageros) o verde muda de tom, e olhar para elas é um grande júbilo. Por estes dias, as folhas das minhas árvores são de cor verde vivo e a praça está completamente transfigurada. As árvores rivalizam com os prédios, com os automóveis e com o som da cidade e estão tão bonitas que a tudo oferecem redenção. E isto não é poesia, caramba, isto é o mundo que interessa, o mundo onde nos medimos. E eu gosto.

Celtis australis

Foi-me necessário decorar a designação em Latim dos lódãos para os encontrar num manual de árvores espanhol. Fiquei a saber que o fruto é doce e comestível e daqui a umas semanas penso comprová-lo. Outra vantagem de agora lhes conhecer a designação é que assim consigo mais imagens nas buscas pela internet. Tenham paciência. Os lódãos são árvores ornamentais, sem grande peso literário, mas são as árvores que eu tenho por perto e, naturalmente, tenho vindo a gostar cada vez mais delas.

As coisas que eu consigo com um nome em Latim :)


= imagem maior (aliás, enorme) aqui =

Origem? Esta página. A lista das imagens das árvores está aqui.

3.4.05

Quadro que não preciso roubar


sem título © António Azevedo Rua
óleo sobre madeira (60 cm x 18 cm)


(maior aqui)

p.s. Não queres postar um dos teus?

2.4.05

E chove.

Por aqui, cozinha-se, conversa-se e desarruma-se a casa. A gata, à falta de sol no soalho, observa as operações culinárias em cima do frigorífico, faz esperas à porta da casa-de-banho para assustar quem sai, aninha-se e adormece no colo de quem se senta.

O leitor de cds está em repeat com estes discos:





31.3.05

A media voz



Com direito a musa de Brancusi e tudo, arquivo de textos e de sons, aqui; «A casada infiel» de Lorca por Herrero está aqui.

Onde está Rubén Darío?

Rubén Darío, Mario Benedetti, Jaime Gil de Biedma, Miguel Hernández, Pedro Salinas, García Lorca, Juán Ramon Jiménez, Miguel Ángel Asturias, Unamuno, Luis Cernuda, Jorge Guillén, Octavio Paz, Blas de Otero. Não tem fim esta página. Andava à procura de outro poema de Pedro Salinas quando fui lá parar, estou capaz de largar aos pulos pela casa. Descubro agora que a página tem som e que - oh delírio dos delíros - está lá Lorca por Miguel Herrero, dá para acreditar? Não é lindo? Audível, na net, uma das coisas mais bonitas alguma vez gravadas? Ouçam "La casada infiel", por favor. Eu não consigo linkar o som aqui, mas está na lista dos poemas com voz. Ah, o nome da página, não me posso esquecer: Palabra Virtual: antología de poesía hispanoamericana. Que grande festa é esta página.

(Cuidado com a música: em quase todas as páginas da Palabra Virtual é facil desligá-la, mas na dos sons principal há uma intro de Neruda e esqueceram-se do interruptor. É chato porque, por vezes, a página recomeça e, então, Neruda recomeça.)

En una piedra está la paciencia del mundo

Hoy son las manos la memoria.
El alma no se acuerda, está dolida
de tanto recordar. Pero en las manos
queda el recuerdo de lo que han tenido.

Recuerdo de una piedra
que hubo junto a un arroyo
y que cogimos distraídamente
sin darnos cuenta de nuestra ventura.
Pero su peso áspero,
sentir nos hace que por fin cogimos
el fruto más hermoso de los tiempos.
A tiempo sabe
el peso de una piedra entre las manos
.
En una piedra está
la paciencia del mundo, madurada despacio.
Incalculable suma
de días y de noches, sol y agua
la que costó esta forma torpe y dura
que acariciar no sabe y acompaña
tan sólo con su peso, oscuramente.
Se estuvo siempre quieta,
sin buscar, encerrada,
en una voluntad densa y constante
de no volar como la mariposa,
de no ser bella, como el lirio,
para salvar de envidias su pureza
.
¡Cuántos esbeltos lirios, cuántas gráciles
libélulas se han muerto, allí, a su lado
por correr tanto hacia la primavera!
Ella supo esperar sin pedir nada
más que la eternidad de su ser puro.
Por renunciar al pétalo, y al vuelo,
está viva y me enseña
que un amor debe estarse quizá quieto, muy quieto,
soltar las falsas alas de la prisa,
y derrotar así su propia muerte.

También recuerdan ellas, mis manos,
haber tenido una cabeza amada entre sus palmas.
Nada más misterioso en este mundo.
Los dedos reconocen los cabellos
lentamente, uno a uno, como hojas
de calendario: son recuerdos
de otros tantos, también innumerables
días felices
dóciles al amor que los revive.
Pero al palpar la forma inexorable
que detrás de la carne nos resiste
las palmas ya se quedan ciegas.
No son caricias, no, lo que repiten
pasando y repasando sobre el hueso:
son preguntas sin fin, son infinitas
angustias hechas tactos ardorosos.
Y nada les contesta: una sospecha
de que todo se escapa y se nos huye
cuando entre nuestras manos lo oprimimos
nos sube del calor de aquella frente.
La cabeza se entrega. ¿Es la entrega absoluta?
El peso en nuestras manos lo insinúa,
los dedos se lo creen,
y quieren convencerse: palpan, palpan.
Pero una voz oscura tras la frente,
-¿nuestra frente o la suya?-
nos dice que el misterio más lejano,
porque está allí tan cerca, no se toca
con la carne mortal con que buscamos
allí, en la punta de los dedos,
la presencia invisible.
Teniendo una cabeza así cogida
nada se sabe, nada,
sino que está el futuro decidiendo
o nuestra vida o nuestra muerte
tras esas pobres manos engañadas
por la hermosura de lo que sostienen.
Entre unas manos ciegas
que no pueden saber. Cuya fe única
está en ser buenas, en hacer caricias
sin casarse, por ver si así se ganan
cuando ya la cabeza amada vuelva
a vivir otra vez sobre sus hombros,
y parezca que nada les queda entre las palmas,
el triunfo de no estar nunca vacías

La memoria en las manos - Pedro Salinas

29.3.05

Verde que te quiero verde. *



Tarte de espinafres, Liszt e sumo de laranja

Hoje almocei num shopping. Não desgosto da comida do shopping. Num dos sítios até fazem sumo de ananás com hortelã. Porém, evito a todo o custo comer lá e, 99,9% das vezes, sou bem sucedida.

O meu problema são os 500 m2 de espaço central reservado às mesas de todos os restaurantes e prontos a comer, os dois ou três écrans de televisão, a música e, recentemente, um piano de cauda e o respectivo pianista. Ok, ria-se da mesma coisa no Atrium Saldanha: mas, ao menos, o piano de lá não está abafado (ou não estava) e, eventualmente, embora não faça questão, já me tem acontecido ouvi-lo.

Porém, neste outro shopping, próximo, algumas mesas foram afastadas, repito, algumas mesas foram afastadas, diria que umas oito, para dar lugar ao piano e ao pianista, colocados que foram mesmo no meio da cantina. As outras mesas começam a meio metro do piano, na melhor das hipóteses. Imagine-se 500 m2 cheios de gente que come, fala e fuma ao mesmo tempo, o som dos televisores, o som das rádios dos diversos tascos e o som do piano. É extremamente desagradável. E a promiscuidade é muita.

Além disso, por mais voltas que dê à cabeça, não compreendo o piano ali: não há condições de som, as pessoas, eles de cinzento, camisa azul e gravata, elas de castanho mortiço e madeixas platinadas, estão demasiado ocupadas a mastigar, a conversar e a fazer filas para o almocito. O tipo, hoje, estava a tocar Liszt. Noutra semana, sempre que lá fui levantar dinheiro, tocava Beethoven. A música fica baça com o fumo e fica baça porque é mais um som entre muitos e não ganha a guerra ao ruído insuportável de trezentas vozes juntas e aos gritos. Sobretudo, a música fica baça da banalização.

Eu dei a volta ao meu azar como pude e escolhi o único restaurante com interior e do qual não se consegue ver a cantina. Do ruído e do piano é que não pude fugir. Decididamente, nestes dias não há lugar para o silêncio, mas este nível de ruído e de mistura de sons é já o extremo da intolerância.

Quando lá tenho de almoçar, como hoje, a única coisa que me salva é imaginar que Brian chega, descido de um raio de luz, digo, Luz, põe o povo todo a entoar «We are all individuals!», acompanhado pelo pianista e que, findo o comício, nos brindam com uma interpretação cuidada da "Idiot Song".

Joe Gould, Jelly Roll Morton e um poema

«Amo os gestos imprecisos
um que tropeça, o outro
que bate com o copo,
o que não se lembra,
os distraídos, o sentinela
que não sabe deter o piscar
breve das pálpebras,
trago-os no coração
porque vejo neles o tremor,
o tinido familiar
do mecanismo avariado.
O objecto intacto cala-se, não tem voz
mas só movimento. Aqui pelo contrário
a máquina deu de si,
e o jogo das partes,
um pedaço separa-se,
anuncia-se.
Dentro alguma coisa dança.»

Valerio Magrelli, A espinha do P
(Prefácio de Maria Carlos Loureira, tradução
colectiva, Lisboa, Quetzal Editores, 1992)

28.3.05

I se-e-es I

A terna indiferença do mundo, que Meursault à beira da morte adorava, exige um mundo. E, no mínimo, Sísifo exige uma montanha, uma pedra, dois braços, duas pernas, força, dias com sol que o preservem, noites amenas. O absurdo exige um mundo isento de sentido, mas esse mundo é um mundo habitado, consciente: o absurdo tem de ser pensado. Ok, ok. Eu e os meus exageros. Mas que faço eu a estes anos todos de céu enquanto a Terra se consome? Sonho com Thalassa?

I see skies of cxzzchhh

«Qué, de min, fica quieto na montaña?
Ave de paso,
qué se me vai errante
no alén das garzas?»
-
X. Seoane

O que eu não suporto na destruição do mundo é ter passado a questionar os itinerários dos poemas. A errância é coisa para um espaço sem paredes. A destruição é uma parede nova todos os dias. Um tecto por cima das noites. O mar num claustro. Beethoven condenado.

24.3.05

Bolas, bolas, bolas.

Que aconteceu aos guarda-chuvas?

Jason Moran - "Same Mother"



gangsterism on the rise

Quadros que roubaria no Thyssen se fosse uma ladrona esguia detentora da ginástica e das roupas pretas apropriadas, embora goste que me façam falta – VIII e IX


El Greco
Anunciación, 1590-1600


El Greco
La Inmaculada Concepción, 1607-1613

Estes eu não era capaz de roubar mesmo com os atributos adequados. Nem conseguiria roubar "La Fabula" que está no Prado. Gosto tanto deles que quando os vejo deixo de me conseguir mexer. Voltar-lhes as costas é um problema que eu resolvo, sim, que remédio, mas sempre com a sensação de ter ficado lá e de aqui, longe deles, os meus olhos não serem tão felizes.

Quanto a "La Fabula", impõe-se um off-topic, já que todos os pretextos são poucos para o rever e para o mostrar:


El Greco > La Fábula, 1570/77
Oleo sobre lienzo 49 x 64 cm.


Este quadro, para mim, é o Prado todo. Sim, sim, há as pinturas negras de Goya, Dürer e Bosch aos molhos, Velásquez, Ribera, Bruegel. Zurbaran. O Prado tem tantas coisas de que gosto tanto. Nenhum outro quadro, porém, é tão íntimo. A primeira vez que o vi doeu-me o sangue dos braços. Esta criatura, que não é bem só um quadro, está sempre a dizer coisas. É uma noite só, corrida e, por alguma razão, é de lá que eu sou.

Incitación da viaxe

As estrelas viaxan.
Viaxan os penedos, as pradelas, as árvores.
O horizonte viaxa.
Viaxa o mar.

Qué, de min, fica quieto na montaña?
Ave de paso,
qué se me vai errante
no alén das garzas?

Xavier Seoane - Eu tamén oín as vozes do orvallo > VII
Bahia Edicións, A Coruña, 1994

naces da luz porque es

naces da luz porque es
vivo asombro de nua claridade

tés o corpo de orvallo
ao despertar

tés o que anseia o rio para andar
o que embebe a águia ardente para no alto abrasar-se

descoñeces qué camiños te trouxeron ao abrazo
perguntas-te en qué máxico rocio se iniciou a tua viaxe

de maio a maio alentas sobre o mar

a pura luz desperta ao contemplar-te

Xavier Seoane - Regreso e Advenimento > I-I
Castro/Moret, A Coruña, 1990

cando habites se acaso na terra que alimenta

cando habites se acaso na terra que alimenta
e non poidan os ollos que me guian
dirixir ao teu corpo que foi xoven
unha piadosa mirada de rocio primeiro
que poderei pedir à eternidade
para que o milagre cruel da tua presenza
irradie nos meus ollos o sol dos dias que arderon

quixera despir-te tantas vezes
como o sol cai nas trevas
ou as areias silvan nas praias de occidente
quizera contemplar tan delongadamente a tua beleza
que acaso comprendese
por que unha ave sonámbula trapasa o horizonte e non regresa

es tan fermosa e xoven
tan natural e bela
que a natureza incita o meu desexo
sen limite nem esmorecimento
a tua presenza é un rio misterioso
que entra extenuado no meu ser
a tua alegria un sulco
de punzante exaspero
que me toca e me fere

meu amor
o dia en que ao acaso alén do océano
sexas pasto das trevas
e un rio misterioso che dé folgos para un novo nacer
lembra a vida sombria e miserenta
na que nunca me saciei de beber
para acaso reter-te

Xavier Seoane - Regreso e Advenimento > II-XVIII
Castro/Moret, A Coruña, 1990

23.3.05

"Jesus, me chicoteia!"

Obrigada, Pedro, pela descoberta do dia. Sou mesmo distraída, há quanto tempo estaria ali? Foi direitinho para os favoritos. Tenho estado a ler, encantada. São estas coisas que me comovem :') Ainda não sei bem o que destacar, se for caso disso, acho tudo genial e estou submersa numa gargalhada contínua há umas horas, mas para já tenho de linkar este post.

p.s. Por acaso até sei o que quero destacar, um excerto de um dos primeiros posts - "O Pecado Original" - do blog, Lúcifer na cobra a convencer Eva a provar o fruto:

"[...]— Ô! Ei! Psiu! Mulé!
— O que é isso? Desde quando cobra fala?
— Você nasceu semana passada e tá pensando que já sabe de tudo, é? Escuta, minha filha, é verdade que deus proibiu vocês de comerem do fruto daquela — apontando com o chocalho — árvore?
— Sim, é verdade.
— Que absurdo... Mas por que isso?
— Ele diz que teremos o conhecimento do bem e do mal se provarmos do fruto.
— Ora, e você quer melhor que isso, conhecimento? Vocês vão saber tudo sobre as coisas da terra, do céu e do mar, o movimento das estrelas, o ciclo das chuvas e das marés, vocês poderão construir moradas resistentes e confortáveis. Deus não quer porque tendo o conhecimento vocês também conhecerão a natureza dele, e o bichão morre de medo disso.
— Não vem com papo. Estamos proibidos e pronto.
— Hum... Vocês vão saber os números da Mega Sena sempre que acumular...
— Não.
— Você vai saber quais serão as tendências da moda do próximo verão meses antes...
— Ôpa
.[...]" - Marco Aurélio > Jesus, me chicoteia!

Correntes de ar nos recantos da casa.

É quase 100% garantido que qualquer CD de Dave Holland que eu compre será ouvido até à doença. Em 2002 não consegui comprar "What goes around", e ontem, numa ida à loja com o consciente propósito de me desgraçar, encontrei-o. Confirma-se que, como os outros, será ouvido até à doença, em fases de semanas, pelos anos fora. Confirma-se que se respira melhor dentro de um disco destes.

Ligações perigosas

Aqui reinam a indolência e a velocidade inconsistente, não é novidade para ninguém. Durante meses a actualização de links esteve em atraso. Fiz há uns dez dias uma intervenção muito rápida no template para actualizar o link mais verde de todos e introduzir o blog de um amigo. Mais recentemente sublinhei a negrito os blogs que leio todos os dias, mais para me facilitar a vida do que outra coisa qualquer: são blogs feitos, na sua maioria, por pessoas que conheço e de quem gosto. Ao fim-de-semana há tempo para ler todos.

Nós não temos sitemeter, nem gostaríamos de ter, embora por vezes nos tente. O blog começou por ser uma coisa escondida numa gaveta, que dois ou três amigos meus conheciam. Depois, as coisas mudaram, mas não ter sitemeter é esse resquício de gaveta que eu gostaria de manter, a bem da minha necessidade de, tanto quanto possível, ignorar a exposição. Só apanhamos o que o technorati deixa apanhar ou, melhor ainda, as novidades que nos enviam para o e-mail.

O que aqui não reina é a troca de links. Os blogs não são cromos e a nossa lista não é uma caderneta. É feita com os blogs que gostamos de ler e não abdicamos disso. E é actualizada, como diria Cristóvão P., quando é actualizada. Hoje, foi.

Da água

A existência perpendicular:


Water/Garden © Keith Johnson, 2005

Lisboa que amanhece

Cansados vão os corpos para casa
dos ritmos imitados de outra dança
a noite finge ser
ainda uma criança
de olhos na lua
com a sua
cegueira da razão e do desejo

A noite é cega e as sombras de Lisboa
são da cidade branca a escura face
Lisboa é mãe solteira
amou como se fosse
a mais indefesa
princesa
que as trevas algum dia coroaram

Não sei se dura sempre esse teu beijo
ou apenas o que resta desta noite
o vento enfim parou
já mal o vejo
por sobre o Tejo
e já tudo pode ser tudo aquilo que parece
na Lisboa que amanhece

O Tejo que reflecte o dia à solta
à noite é prisioneiro dos olhares
ao cais dos miradouros
vão chegando dos bares
os navegantes
amantes
das teias que o amor e o fumo tecem

E o Necas que julgou que era cantora
que as dádivas da noite são eternas
mal chega a madrugada
tem que rapar as pernas
para que o dia não traia
Dietrichs que não foram nem Marlenes

Não sei se dura sempre esse teu beijo
ou apenas o que resta desta noite
o vento enfim parou
já mal o vejo
por sobre o Tejo
e já tudo pode ser tudo aquilo que parece
na Lisboa que amanhece

Em sonhos, é sabido, não se morre
aliás essa é a única vantagem
de, após o vão trabalho,
o povo ir de viagem
ao sono fundo
fecundo
em glórias e terrores e venturas

E ai de quem acorda estremunhado
espreitando pela fresta a ver se é dia
a esse as ansiedades
ditam sentenças friamente ao ouvido
ruído
que a noite, a seu costume, transfigura

Não sei se dura sempre esse teu beijo
ou apenas o que resta desta noite
o vento enfim parou
já mal o vejo
por sobre o Tejo
e já tudo pode ser tudo aquilo que parece
na Lisboa que amanhece

Sérgio Godinho


(maior dentro)

Quadros que roubaria no Thyssen – VII



Hans Cranach
Hércules en la corte de Onfalia, 1537

«La historia mitológica que nos narra esta tabla se refiere a las vejaciones que tuvo que sufrir Hércules en la corte de la reina Onfalia, a la que había sido vendido como esclavo para que penase el asesinato de su amigo Ifito. Convertido en amante de la reina, tuvo que vestirse con ropas de mujer y realizar labores femeninas. Aquí aparece con la cofia y dispuesto, pese a su evidente desagrado, a hilar, rodeado de mujeres que se burlan de su situación. Firmada "HC" (Hans Cranach), el estilo de la obra responde al del padre, Lucas Cranach, que ya había tratado este tema jocoso.»

22.3.05

O Livro da Tila

No Domingo das Legislativas almocei, entre viagens, em casa dos meus pais. Durante uma hora, a minha mãe e eu acabámos sozinhas a conversar e a beber café. É preciso explicar que não tenho livros nenhuns da infância porque a minha mãe foi fazendo com eles uma biblioteca, na escola onde deu aulas, biblioteca essa que ficou quando se veio embora. Por outro lado, naquela casa nunca se fez um recenseamento de livros e há estantes do rés-do-chão ao sótão e grupos ocultos de edições dentro de móveis diversos, porque não cabem nas estantes. Por fim, entre tios, primos e amigos mais íntimos, existe uma rede recíproca de distribuição, requisição, empréstimo e pilhagem de livros. Em suma, parte substancial dos livros nunca sabemos bem se está e onde está, embora a maior improbabilidade seja mesmo a de encontrar livros da minha infância. Nessa tarde, a meio da conversa, levantámo-nos, fomos a uma estante que era o paradeiro mais provável de um livro de José Gomes Ferreira de que a minha mãe se lembrou, e começámos a procurá-lo.

Veio então parar-me às mãos O Livro da Tila, de Matilde Rosa Araújo, com cantigas pequeninas. Não é sequer de um tempo em que eu soubesse ler, ainda que mal. É do tempo em que a minha mãe me lia tudo. A capa pareceu-me familiar de forma intensa e, porque não era suposto eu ter-me esquecido do livro, de forma desagradável. O tempo em que a minha mãe me lia tudo foi um estado de graça. Passávamos muito tempo juntas com as histórias e as cantigas e, quando eu era deixada a brincar, a minha mãe ficava por perto, em silêncio, a ler os livros dela. Havia uma sala cheia de sol, em frente a um jardim, a mesma que eu loucamente quis encontrar quando, em Lisboa, procurei uma casa para mim (fiz a vida negra a muitos agentes imobiliários até ficar satisfeita: «Não tem sol», «Não há árvores», «Não penso comprar uma casa para ter de sair dessa casa e ir para uma esplanada sempre que quiser ler ao sol, não faz sentido»).

O Livro da Tila, que esteve na biblioteca da escola e regressou da biblioteca da escola (o Hades dos livros da minha infância, o que faz do livro um Ulisses entre os seus hehe), voltou às minhas mãos muito gasto, quando já não era suposto eu voltar a vê-lo. Enquanto o folheava, sempre a pensar que não podia ser o mesmo, lembrei-me de uma coisa que fazia nos livros naquela idade: estradinhas a subir e a descer entre as linhas e as palavras. Encontrei-as como a uma assinatura. Trouxe o livro comigo porque não resisti. Ainda não sei se gosto de poder tocar-lhe.

Quadros que roubaria no Thyssen se fosse uma ladrona esguia detentora da ginástica e das roupas pretas apropriadas VI


Hans Baldung Grien
Retrato de una dama, 1530(?)

Inconsistent speed, eu?!

Fui achincalhada nas ex-páginas-amarelas-da-música-agora-azuis.

Harlem on my mind

A caçada de Sábado não foi grande coisa. Ou, por outra, até foi, eu é que estou completamente viciada na versão que tenho há um ano. Terry Blaine (voz) e Mark Shane (piano), em "With Thee I Swing". E swingam mesmo. Nunca um título foi tão honesto.



Got em'ralds in my bracelets and diamonds in my rings
A Riviera chateau and a lot of other things
And I'm blue, so blue am I
Got lots of ready money in seven diff'rent banks
I counted it this morning, it was about a million francs
But I'm blue, so blue, and I know why

I've got Harlem on my mind
And I'm longing to be lowdown
And my "parlez-vous" does not ring true
With Harlem on my mind

I've been wined and I've been dined
But I'm heading for a showdown
'Cause I can't go on from night 'til dawn
With Harlem on my mind

I go to supper with a French Marquis
Each evening after the show
My lips begin to whisper "Mon Cheri"
But my heart keeps crying "Hi-de-ho"

I've become too damned refined
And at night I hate to go down
To that high-falutin' flat that Lady Mendel designed
With Harlem on my mind

I've got Harlem on my mind
And I'm longin' to be lowdown
And my "parlez-vous" does not ring true
With Harlem on my mind

I've been dined and I've been wined
But I'm headin' for a showdown
'Cause I can't go on from night 'til dawn
With Harlem on my mind

And when I'm bathing in my marble tub
Each evening after the show
I get to thinkin' 'bout that Cotton Club
And my heart keeps crying "Hi-de-ho"

I've been too damned refined
And at night I hate to go down
To that flat with fifty million Frenchmen taggin' behind
With Harlem on my mind

Irving Berlin

21.3.05

Grofé in blue



Serão passado a arrumar mp3. Em três meses de preguiça acumularam-se 53 - cinquenta e três - pastas por classificar e arrumar por - step one - autores. 53 é o que posso dizer agora. No início do serão tinha, apenas, centenas de mp3 misturados. Bonito mesmo é isto: ver a Rapsodhy in Blue, aquela que Ferdinand Grofé orquestrou, vir à tona no meio do caos dos ficheiros e fazê-la ouvir-se. Acho que, na verdade, sou desarrumada e perco as coisas para que o prazer do reencontro se aproxime o mais possível do prazer da descoberta. Esse que, como se sabe, nunca se pode ter uma segunda vez.

Verde com chuva.


(maior lá dentro)

Gosto disto antes dos conceitos: o verde dentro dos olhos, absoluto, e palavra nenhuma, nada, excepto a casa maior da seiva e do sangue.

19.3.05

Os animais domésticos e a caça.

Ordens ao pássaro azul para sábado de manhã:
- Vai. Vai e não voltes sem dez versões de Harlem on my mind.
- Dez? - quase crasha o pássaro.
- Dez. Pelo menos.

E ele foi.

18.3.05

«Os homens não se medem pelos poemas que leram, mas talvez fosse melhor.»

«Maria Bloom olhava para um poema como se este fosse um auxiliar administrativo convocado para fazer funcionar a alegria ou, em oposição, a angústia.

Um poema não é uma coisa que se coloca sobre o teu dia como um condimento sobre o teu almoço. A vida de uma pessoa não tem material semelhante a nada que conheças. Existir é feito de peças impossíveis de copiar. E a poesia não entra nesse material único – a vida de uma pessoa – como o avião no ar ou o acidente do avião na terra dura. Um poema não é manso nem meigo, não é mau nem ilegal.

Os homens não se medem pelos poemas que leram, mas talvez fosse melhor. O que é a fita métrica comparada com algo intenso? Há poemas que explicam trinta graus de uma vida e poemas que são um ofício de demolição completa: o edifício é trocado por outro, como se um edifício fosse uma camisa. Muda de vida ou, claro, muda de poema.

Certos poemas fazem-te entender melhor o morto. E outros fazem-te entender melhor o bebé que nasceu. Por vezes o mesmo poema alcança os dois sítios opostos, e em cada destino exerce força e intensidade. Sabes como se exerce a intensidade. A intensidade exerce-se em silêncio, em imobilidade absoluta. Mas a intensidade é uma invenção de quem sabe que o mundo não termina aqui. Nenhuma excitação é tão forte como a que existe em alguém que se prepara para fazer algo.

E ninguém é nomeado por uma bala. Pelo contrário: cada bala que mata rouba um nome: com o tempo o nome dos mortos é menos citado que o nome dos vivos.

Não se preparam os sentimentos como
se prepara uma conferência. Os
sentimentos são coisas da ordem do repentino.
Surpreendem quem os exibe como o
ouro súbito colocado no bolso do
pobre. Daí que a falência do coração seja mais
provável que as outras. E mais usual.
Tal como as ervas daninhas existem em maior
quantidade que a rosa de cor certa. E há
livros que nos fazem perder a saliva.
Ficamos mudos.
E explicações que nos fazem perder
o desejo que do nosso corpo
parte para o mundo, perturbando-o. Ninguém
tem beijos se não tiver a quem os dar.
Precisamos com urgência
de uma ciência obcecada pelo falso, de
uma ciência que se desinteresse do verdadeiro
ou pelo menos do explicável.
Não és capaz de descrever a água.
Não há fórmulas químicas, por exemplo,
para o banho depois do amor
ou para o banho depois do assassinato. A água
não é a mesma nas duas situações.
H2O? Que ridículo.
A água respeita mais um poeta que
o livro de leis.
Interrompe o jardim (doméstico), meu caro,
com o bosque (bruto).
Inventa pontos de fúria numa frase,
e ainda pontos tranquilos.
Imita-te, e falha. A criatividade é isto.»

Gonçalo M. Tavares – A Perna Esquerda de Paris | Bloom Books
A PERNA ESQUERDA DE PARIS SEGUIDO DE ROLAND BARTHES E ROBERT MUSIL
Relógio d’Água Editores, Lisboa, Novembro de 2004 – pp. 45-46.

Sleeping by The Mississippi


Alec Soth

A Orquestra Vegetal de Viena

Existe desde 1998 e toca exclusivamente com instrumentos vegetais.
Sons a ouvir aqui, aqui e aqui.

húmus

a alcoviteira andarilha a luz nas telhas a noite dança alec soth alex maclean alexandra boulat alfredo cunha alice in chains allo allo andou prometeu a roubar fogo aos deuses para isto andré kertész andrew wyeth antibalas anywhen arizona amp and alternator armi e danny arthur dove as árvores aulas de CC bach bartleby beatles bergman bill evans bompovo brad mehldau brecht bunny suicides calexico camponesa camus carl sandburg carlos paredes carta topográfica de lisboa caspar david friedrich cassandra wilson cato salsa experience centenário do grande temporal centrifugação blogger charlie parker chico buarque christian schad christopher r. harris cig harvey coisas que ninguém diz e que toda a gente sabe dan nelken daniel blaufuks dave holland dave mckean decisions deus inventou o sexo diário de bordo ditty bops divas dostoievsky dr. jazz dylan thomas e. e. cummings el greco ella fitzgerald elvis e anita emil nolde enid blyton eugene smith eugénio de andrade evil genius fausto bordalo dias fenómenos paranormais francis bacon françois clouet fredrik marsh future bible heroes gaivota galiza garcía lorca geografia georges gonon-guillermas gilbert and george gógol e kureishi gonçalo m. tavares góngora HAL hans baldung grien hans cranach henrik ibsen hopper horas da ciência howe gelb hp5 húmus hyeyoung kim i'm going away to wear you off my mind ironia natalícia jan van eyck jason moran jerry lodriguss jesus na comida jornal do insólito josé barata moura josé carlos fernandes josé gomes ferreira josé mário branco josé tolentino mendonça Kafka sumiu keith jarrett keith johnson ken rosenthal king oliver's creole jazz band laura veirs lei bloguística leitura de sobrevivência león ferrari lewis carroll load "" louis jordan madrid maelesskircher manuel alvarez bravo maria schneider mario abbatepaolo martin parr matéria-prima mau feitio mauro fiorese michael brecker micheliny verunschk miguel rio branco miles davis mirah missy gaido allen momento fantástico do bicho escala estantes monk movimento televisão sem som neil gaiman nick brandt nietzsche noronha da costa o aforismo o piano de tom jobim o sono e os sonhos o'neill orquestra vegetal de viena os cavaleiros camponeses no ano 1000 no lago de paladru pão com manteiga pat metheny patience and prudence paul strand pedro salinas peggy washburn pentti sammallahti philip larkin philippe halsman piero de la francesca ponce de léon post de gaja preisner pronto-a-vestir quadrado fi Quadros que roubaria no Thyssen quino R.E.M. raïssa venables regina guimarães robert doisneau ruben a. rui knopfli ruy belo ruysdael sarastro schuiten e peeters sequoia sempervirens sérgio godinho shampoo casulo shannon wright sidney bechet simone de beauvoir sophia andresen soviet group stieglitz t.s.eliot tagsmustbedestroyed tennessee williams terry blaine the 1913 armory show tom chambers trem azul trepadeira universos múltiplos valerio magrelli velásquéz você é um idiota winslow homer xavier seoane yes prime minister yousuf karsh zeca zurbaran

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