26.4.05

Alfabeto do Quotidiano - Diário de Bordo

Fui lá parar há dias através dos links do Improvisos ao Sul.

JM, do Diário de Bordo, construíu um alfabeto do quotidiano com letras encontradas na realidade. E mostrou-o em duas imagens: primeira, origens, segunda, alfabeto.

Não deve ficar bem roubar um post logo na primeira visita que se faz a um blog, mas não consegui comportar-me.



25.4.05

Quadro que não preciso roubar#2


Comecei por colocá-lo aqui, mas acho que ficam melhor juntinhos no Lago Paladru. É mais fácil o Bodião ir ao Lago, do que o Lago ir ao Bodião.



sem título © António Azevedo Rua
óleo sobre tela (50cm x 20cm)

24.4.05



Se me perguntarem onde estava eu no 25 de Abril de 1974, responderei que estava em casa a tentar perceber porque raio estava o meu irmão a colocar um cravo numa espingarda?! Porquê ele e não eu?! Só no Verão quente de 75, já com outra maturidade, é que tudo aparentemente se desmistificou...foi um choque...aquela criança não era, afinal, o meu irmão. Descobri que nem todas as crianças com caracóis loiros eram o meu irmão nem davam pelo nome de João. Descobri que o mundo era maior do que a minha casa, que era talvez do tamanho de três casas. Descobri tudo isto com 2 anos e 9 meses. Dez a doze anos mais tarde cairíam outros dois mitos - o SAMOUCO existia mesmo, e os SALOIOS eram de carne e osso e moravam na região Oeste!!! O Mundo é admirável...e novo.

22.4.05

Bom fim-de-semana


© Alfredo Cunha

Estado de conservação



Encadernação – Original com esfoliação da pele, cantos quebrados, lacunas de várias dimensões, restauros anteriores de má qualidade e ataque de insectos

Corpo do livro – Sujidade superficial, acidez do suporte, foxing, manchas de diversas origens, intervenções anteriores de restauro, fraca resistência mecânica e vestígios de ataque de insectos


Biblioteca Nacional – Campanha Salve um Livro

É caro, o restauro. Para samaritanos abonados. Aquilo que me fez ler as fichas todas foi o elenco das maleitas de cada livro. Entre eles há um paciente memorável:



Ó Velha Negra

Deixei dormir o bebé
e acendi a sua cabeça de fósforo
para realçar a escuridão à volta do berço.
Para a imagem final
era um sinal de bom começo.

Nem sempre faca de abrir livros
nem sempre vontade de urinar
entre duas correntes de ar.
Nem sempre sono escrito:
quem de mim foge
ora entre as pernas se esconde
ora sabe deus onde.

Moisés negro voga na sarjeta
ninguém chama as coisas pelo nome
e elas tomam posse de outros cargos
outros poderes lhes sopram
dias mais amargos.
Vale tudo, varinha de condão
chibata, uma velha chalaça
e até o mau cheiro de quem passa.

Moisés azul colado a uma mama
ou a uma nuvem em forma de corneta
ou ao silêncio que desfaz a cama.

Está seca a tinta de pintar o céu:
quem se livra és tu
meu besouro solto por um beijo
de um véu evadido.

Ó ave desfolhada na sacristia
flor depenada em pleno voo
o que de nós seria
eu, Moisés, as cores
se o terror da poesia
não nos tivesse disposto
neste escuro demasiado claro
para fecharmos os olhos.

Juntam-se a nós
os pesadelos de primeira necessidade
e o ouro que tocamos
transforma-se em pó
em riso
em rio.

Regina Guimarães
Terry Morgan > Lua Negra > Assírio & Alvim

21.4.05

20.4.05

Do aniversário da Queda de Berlim à descoberta de Jumpology.

Comecei a circular pela Magnum por causa das fotografias do Soviet Group. Depois fui ver os álbuns da Magnum Group determinada a encontrar uma fotografia de que a galinhola falou aqui. A minha atenção foi desviada para o álbum dos New Yorkers. Comecei a vê-lo. Às tantas, depois de fotografias recentes, aparece-me uma de 1943:


© Philippe Halsman

Joe Gould, caramba! Que emoção. Segundos depois, inevitavelmente, estava a ver todos os álbuns de Philippe Halsman disponíveis online. Até que vejo Huxley



e a seguir Tati



e o Nixon



Um ovo de colombo genial. A relação das pessoas com o corpo. Com ou sem trampolim. Um tratado de movimento em fotografia.

Capa:



Philippe Halsman e Marilyn Monroe na fotografia da capa:



Van Cliburn não quis saltar. Não sei ao certo se não quis mesmo ou se, como o gato de Elliott Erwitt a meio do Dog Dogs, não é uma piada, mas pronto.



Diz Phillipe Halsman sobre esta fotografia, a única parada da série: «"Last year a magazine asked me to make a cover photograph of Van Cliburn. After an agonizing sitting with the famous pianist - he does not care to pose for photographers - I rearranged my speedlights, pulled out my Rollei and asked him whether he would jump for me. Van Cliburn refused. Politely I inquired what his reasons were for not wanting to jump. The artist put his arms behind his back, lifted his chim and said, "There is no need for explanations". Semiautomatically my finger pressed the release and I obtained a photograph of Mr. Cliburn at this stirring moment."»

Não é lindo? Tenho de ter este livro.

Artes decorativas

Às vezes apercebo-me que também entre as pessoas com quem cresci há aquelas para as quais a arte, afinal, se viu reduzida ao estatuto de colarinho, de cachucho de curso ou de capachinho. Que deixou de respirar e que se deixou de respirar nela. Imagino que seja da ordem natural das coisas para a generalidade das pessoas que pouco a pouco os quadros deixem de entrar na corrente sanguínea, que já não faça tropeçar na rua a sua lembrança, que passe a existir um tempo para trabalhar, separado de um tempo para a recriação e que a arte passe a fazer parte desse tempo, que se mantenha do lado de fora das coisas sérias e importantes, que passe a entrar sem surpresas pela porta de serviço, para a limpeza semanal, mais ou menos como os bibelots estão na parte de cima das televisões existentes nas casas que o Martin Parr fotografa, como peças decorativas cuja classificação e alcance determina o grau de provincianismo (sofisticado ou não) a que de facto se pertence e o status que ingenuamente se deseja.

Não é a arte. Não são os livros ou quem os assina, nem o cinema, nem o teatro, nem os discos, nem as fotografias, nada disso: é o mundo através dessas coisas e nós estarmos nele. É condição e é identidade. Não me podia ser mais indiferente que a generalidade das pessoas adormeça. Eu não conheço a generalidade das pessoas. Mas lixa-me quando acontece a um amigo meu. Devia haver um comunismo das capacidades intelectuais, devia surgir um Marx da inteligência, revoluções pelo mundo, a cabeça a quem a usa, algo assim, e a quem adormecesse devia ser retirado e distribuído o cérebro aos que não têm outro remédio além de extasiar perante telenovelas mexicanas. Era mais justo. A mim, olhar para dentro da cabeça vazia daqueles de quem gosto seria mais fácil que constatá-la ausente, estranha, finita. É o mesmo que ver cair uma árvore, secar um rio, extinguir-se uma espécie. É pobreza. Se a árvore era grande, frondosa, cheia de pássaros, então, é miséria. Não gosto.

Atenção atenção

Fotografias do Soviet Group (e outras) em destaque na Magnum a propósito do aniversário da queda de Berlim.


Soviet troops walking to the Reichstag building.
30 April 1945. Berlin. photo @ Ivan SHAGIN.

Pensarei nisto, galinhola, como mais uma experiência kitsch ou, classificação ainda mais redentora, como uma excentricidade martin-parriana... so help me God.

Não podendo sair do Fahrenheit 451, que livro quererias ser?
Fausto, de Göethe. Ou Prometeu Agrilhoado, de Ésquilo. No contexto do Fahrenheit 451 talvez fizesse mais sentido silabar Prometeu até à morte. Mas ainda gosto mais de Fausto. Pronto, Fausto. Não. Prometeu. Gostaria de ser Prometeu Agrilhoado.

Já alguma vez ficaste apanhadinha(o) por um personagem de ficção?
Mefistófeles é, sem sombra de dúvida, o grande amor literário da minha vida. Enquanto li Fausto, perseguiu-me em sonhos e fez-me sonhar acordada. Leio passagens de Fausto frequentemente para o reencontrar. Sinto saudades. Quando penso nele alucino, sinto-me terna e mui pia. Já tive visões de Mefistófeles esculpido em pedaços de madeira em alguns antiquários da Graça e no fundo de garrafas vazias de leite com chocolate Ucal.

Qual foi o último livro que compraste?
A Textos e Pretextos sobre Eugénio de Andrade, do Inverno do ano passado, e uma edição antiga d'Os Possessos de Dostoievski, da Minerva, não sei de que ano.

Qual o último livro que leste?
A Peste, de Camus.

Que livros estás a ler?

A Obra ao Negro, de Marguerite Yourcenar; A Bíblia; Cien Años de Cuentos (1898-1998) (antologia de contos em castelhano); A Textos e Pretextos sobre Eugénio de Andrade.

Que livros (5) levarias para uma ilha deserta?
1) O livro grande da Magnum, o que tem a lombada cor-de-laranja; 2) Obra Poética Completa do García Lorca, da Martins Fontes; 3) A Inteligência das Flores, de Maurice Maeterlinck; 4) Dia do Mar, de Sophia; 5) A Pior Banda do Mundo, de José Carlos Fernandes (apoio-te 100%, galinhola, os volumes existentes devem contar como um só). Escondidos no forro da mala levaria Matéria Solar, de Eugénio de Andrade; Memórias do Eterno Presente, de Schuiten & Peeters; L'Autre Chine, de Cartier-Bresson.

A quem vais passar este testemunho (três pessoas) e porquê?
Vou passar à
Claire, ao Glooka e à Coisa Ruim. Ora, porquê?, porque se eu não passar isto a três pessoas vão acontecer-me coisas horríveis, não é? Fazem-se de tolos, é o que é. Não percebo por que é que o e-mail cheio de ameaças tremendas que acompanha o envio destes questionários não vem a público. Amedrontam uma pessoa. Alguém devia Tomar Medidas.

18.4.05

A formiga vai à serra e o pé na neve prende.

- Ó neve, tu és tão forte, tão forte que o meu pé prendes?
- Eu, formiga, sou tão forte que o Sol me derrete.

- Ó Sol, tu és tão forte, que derretes a fria neve, a neve que meu pé prende?
- Eu, formiga, sou tão forte que a nuvem me esconde.

- Ó nuvem, tu és tão forte que escondes o quente Sol, o Sol que derrete a neve, a neve que meu pé prende?
- Eu, formiga, sou tão forte que o vento me afasta.

- Ó vento, tu és tão forte que afastas a escura nuvem, a nuvem que tapa o Sol, o Sol que derrete a neve, a neve que meu pé prende?
- Eu, formiga, sou tão forte que o muro me tapa.

- Ó muro, tu és tão forte que tapas o forte vento, o vento que afasta a nuvem, a nuvem que esconde o Sol, o Sol que derrete a neve, a neve que meu pé prende?
- Eu, formiga, sou tão forte que o rato me fura.

- Ó rato, tu és tão forte que furas o grosso muro, o muro que tapa o vento, o vento que afasta a nuvem, a nuvem que esconde o Sol, o Sol que derrete a neve, a neve que meu pé prende?
- Eu, formiga, sou tão forte que o gato me come.

- Ó gato tu és tão forte que comes o esperto rato, o rato que fura o muro, o muro que tapa o vento, o vento que afasta a nuvem, a nuvem que esconde o Sol, o Sol que derrete a neve, a neve que meu pé prende?
- Eu, formiga, sou tão forte, que o cão me morde.

- Ó cão tu és tão forte que mordes o astuto gato, o gato que come o rato, o rato que fura o muro, o muro que tapa o vento, o vento que afasta a nuvem, a nuvem que esconde o Sol, o Sol que derrete a neve, a neve que meu pé prende?
- Eu, formiga, sou tão forte que o pau me bate.

- Ó pau tu és tão forte que bates no forte cão, o cão que morde o gato, o gato que come o rato, o rato que fura o muro, o muro que tapa o vento, o vento que afasta a nuvem, a nuvem que esconde o Sol, o Sol que derrete a neve, a neve que meu pé prende?
- Eu, formiga, sou tão forte que o fogo me queima.

- Ó fogo tu és tão forte que queimas o pau, o pau que bate no cão, o cão que morde no gato, o gato que come o rato, o rato que fura o muro, o muro que tapa o vento, o vento que espalha a nuvem, a nuvem que esconde o Sol, o Sol que derrete a neve, a neve que meu pé prende?
- Eu, formiga, sou tão forte que a água me apaga.

-Ó água tu és tão forte que apagas o quente fogo, o fogo que queima o pau, o pau que bate no cão, o cão que morde no gato, o gato que come o rato, o rato que fura o muro, o muro que tapa o vento, o vento que espalha a nuvem, a nuvem que esconde o Sol, o Sol que derrete a neve, a neve que meu pé prende?
[Versão 1] - Eu, formiga, sou tão forte que um raio de Sol me leva.

Desde o alto até ao fundo, nada é forte neste mundo. FIM

[Versão 2] - Eu, formiga, sou tão forte que o touro me bebe.

- Ó touro tu és tão forte que bebes a fresca água, a água que apaga o fogo, o fogo que queima o pau, o pau que bate no cão, o cão que morde no gato, o gato que come o rato, o rato que fura o muro, o muro que tapa o vento, o vento que espalha a nuvem, a nuvem que tapa o Sol, o Sol que derrete a neve, a neve que meu pé prende?
- Eu, formiga, sou tão forte que o homem me mata.

- Ó homem, tu és tão forte que matas o bravo touro, o touro que bebe a água, a água que apaga o fogo, o fogo que queima o pau, o pau que bate no cão, o cão que morde no gato, o gato que come o rato, o rato que fura o muro, o muro que tapa o vento, o vento que espalha a nuvem, a nuvem que esconde o Sol, o Sol que derrete a neve, a neve que meu pé prende?
- Eu, formiga, sou tão forte que a mulher me governa.

- Ó mulher tu és tão forte que governas o homem, o homem que mata o touro, o touro que bebe a água, a água que apaga o fogo, o fogo que queima o pau, o pau que bate no cão, o cão que morde no gato, o gato que come o rato, o rato que fura o muro, o muro que tapa o vento, o vento que espalha a nuvem, a nuvem que tapa o Sol, o Sol que derrete a neve, a neve que meu pé prende?
- Sim.

E a mulher liberta a formiga. FIM

17.4.05

Escondem os comentários e não nos deixam alternativa além de entrar no mundo dos fora-da-lei e começar a roubar posts:

«Falar do papa

Dizer que se está farto de ouvir falar do papa é também falar do papa. Deixar comentários em blogues dizendo que dizer que se está farto de ouvir falar do papa é também falar do papa é também falar do papa. Escrever no blog que deixar comentários em blogues dizendo que dizer que se está farto de ouvir falar do papa é também falar do papa é também falar do papa é também falar do papa. Ir para os jornais e revistas e televisões de canal aberto e por cabo dizer que se escreveu no blog que deixar comentários em blogues dizendo que dizer que se está farto de ouvir falar do papa é também falar do papa é também falar do papa é também falar do papa é também falar do papa. Escrever no blog que ir para os jornais e revistas e televisões de canal aberto e por cabo dizer que se escreveu no blog que deixar comentários em blogues dizendo que dizer que se está farto de ouvir falar do papa é também falar do papa é também falar do papa é também falar do papa é também falar do papa é também falar do papa.

(à atenção de todos os bloggers e comentadores da blogosfera que escreveram que estão fartos de ouvir falar do papa.)

Por razões óbvias este post não tem comentários.»

DL, Linha dos Nodos



Eu sei aquela da formiguinha, que é muito mais gira.

15.4.05

Ande yo caliente

Traten otros del gobierno
del mundo y sus monarquías,
mientras gobiernan mis días
mantequillas y pan tierno,
y las mañana de invierno
naranjada y aguardiente,
y ríase la gente.

Coma en dorada vajilla
el príncipe mil cuidados
como píldoras dorados,
que yo en mi pobre mesilla
quiero más una morcilla
que en el asador reviente,
y ríase la gente.

Cuando cubra las montañas
de plata y nieve el enero,
tenga yo lleno el brasero
de bellotas y castañas,
y quien las dulces patrañas
del rey que rabió me cuente,
y ríase la gente.

Busque muy en hora buena
el mercader nuevos soles;
yo conchas y caracoles
entre la menuda arena,
escuchando a Filomena
sobre el chopo de la fuente,
y ríase la gente.

Pase a media noche el mar
y arda en amorosa llama
Leandro por ver su dama;
que yo más quiero pasar
de Yepes a Madrigar
la regalada corriente,
y ríase la gente.

Pues Amor es tan cruel,
que de Píramo y su amada
hace tálamo una espada,
do se junten ella y él,
sea mi Tisbe un pastel,
y la espada sea mi diente,
y ríase la gente.


Luis de Góngora

14.4.05

Some things about art and cities



Entrada: aqui (clicar na imagem também serve).
Páginas fundadoras: Theory Org & New Media Studies.

Aterrei há minutos e ainda estou a explorar, mas, para já, gosto destes Gilbert & George de levar para casa, recortar e vestir:



Ainda não percebi bem as cartas, mas à entrada convidam a escolher uma à sorte e saíu-me logo um ódiozinho de estimação. Não está mal.

12.4.05

Reclining Nude


Edward Hopper 1924–27
watercolor 35.2 x 50.5 cm

11.4.05

A Peste > O descarnamento

Vá para o descarnamento. Vá directamente, sem passar pela casa de partida e sem receber 2000$00.

A Peste > Os cadernos de Tarrou

«Pergunta: como fazer para não se perder tempo? Resposta: senti-lo em toda a sua extensão. Meios: passar os dias na sala de espera de um dentista, numa cadeira desconfortável; viver à nossa varanda as tardes de domingo; ouvir conferências numa língua que não se compreende; escolher os itinerários de caminho de ferro mais longos e menos cómodos e viajar de pé, naturalmente; fazer bicha nas bilheteiras dos espectáculos e não tomar a sua vez» - A Peste > Albert Camus (trad. Ersílio Cardoso), Lisboa, Livros do Brasil - pp. 37-38.

Quadros que roubaria no Thyssen se fosse uma ladrona esguia detentora da ginástica e das roupas pretas adequadas – X


Salomon Jacobsz van Ruysdael
Vista de Alkmaar desde el mar, c. 1650

Sortido rico

1. Ouvir na rádio, chegada de uma porta entreaberta, parte de uma notícia e depois correr a imprensa escrita online atrás de uma confirmação que não encontro. Enviar mails a pedir ajuda. Que se passa/passou no Taborda?

p.s. Encontrei.

2. Hoje acordei com vontade de ter 500 páginas novas da Pior Banda do Mundo para ler. Pelo menos 500. Bem sei que é um desejo irracional, fruto dos malefícios que o vício por esses livros inflige na minha capacidade de discernimento. Mas há lugares onde nos deixam continuar a ser putos e continuar a crescer: amigos, livros, músicas. A Pior Banda do Mundo é um sítio desses.

10.4.05

O Papa?


Velazquez > Pope Innocent X, 1650


Francis Bacon > Head VI, 1949


Francis Bacon > Pope II (Pope Shouting), 1951


Francis Bacon > Study for the Head of a Screaming Pope, 1952


Francis Bacon > Study for Portrait VIII, 1953


Francis Bacon > Study after Velazquez's Portrait of Pope Innocent X, 1953


Francis Bacon > Pope and Chimpanzee, 1962


Francis Bacon > Study from Innocent X, 1964


Francis Bacon > Second Version of "Study for a Red Pope 1962", 1971

El Color


Manuel Alvarez Bravo (1966)
© Familia Alvarez Bravo y Urbajtel

A Peste > O princípio da reflexão

«A morte do porteiro, pode dizer-se, marcou o fim deste período, cheio de sinais desconcertantes, e o início de um outro, relativamente mais difícil, em que a surpresa dos primeiros tempos se transformou, pouco a pouco, em pânico. Os nossos concidadãos - era agora que davam por isso - nunca tinham pensado que a nossa pequena cidade pudesse ser um lugar particularmente designado para que os ratos lá morressem ao sol e que os porteiros lá perecessem de doenças estranhas. Sob este ponto de vista, era evidente que estavam em erro e que as suas ideias tinham de ser revistas. Se tudo tivesse ficado por aí, os hábitos, sem dúvida, teriam vencido. Outros, porém, de entre os nossos concidadãos, nem sempre eram porteiros nem pobres, e também seguiram o caminho que Michel tinha tomado em primeiro lugar. Foi a partir desse momento que começou o medo e, com ele, a reflexão.» - A Peste > Albert Camus (trad. Ersílio Cardoso), Lisboa, Livros do Brasil - p. 34

A Peste > Orão, uma cidade inteiramente moderna

«Sem dúvida, nada há de mais natural, hoje em dia, que ver as pessoas trabalharem de manhã à noite e perderem em seguida, a jogar as cartas, no café ou a dar à língua, o tempo que lhes resta para viverem. Mas há cidades e países onde as pessoas têm, de tempos a tempos, a suspeita de que existe mais alguma coisa. Isso, em geral, não lhes modifica a vida. Simplesmente houve essa suspeita, e sempre é um ganho. Orão, pelo contrário, é uma cidade sem suspeitas, quer dizer, uma cidade inteiramente moderna.» - A Peste > Albert Camus (trad. Ersílio Cardoso), Lisboa, Livros do Brasil - pp. 14-15.

A Peste > Estado de espírito

Não me perguntem porquê, mas a banda sonora oficial da releitura d'A Peste é o requiem que Zbigniew Preisner fez para Kielowski. E o Aberdeen, também do Preisner. E o 10 Easy Pieces for Piano, idem. Assim, por esta ordem. É um itinerário, nitidamente, e tudo o resto além da sua urgência é, para mim, uma névoa. Estou no princípio do requiem.



No ano passado, quando andei a passar para o computador sublinhados de outros livros de Camus, havia algo semelhante a uma náusea. A ideia de ter de voltar a Camus de outra forma que não a de passar sublinhados dos livros dele, uma releitura propriamente dita, actualizada e corrigida, e também assuntos pendentes por resolver. Camus não é para mim mais um escritor e os seus livros não são propriamente livros. Camus é um homem, interessa-me o que viu e o que pensou, Camus está morto, está longe, os livros permitem-me, apesar de tudo isso, encontrá-lo.

A Peste > A santidade

Há meia-hora senti necessidade de reler A Peste como se A Peste fosse o único livro do mundo. O livro esteve em casa de uma prima minha durante dois anos. Devolveu-mo na Páscoa e eu arrumei-o na biblioteca, junto aos outros. Desapareceu num ápice porque a minha biblioteca se parece com o deserto e todos os dias os livros mudam de sítio. Fui procurá-lo e não o encontrei imediatamente. Foi em frente às estantes que compreendi que o que quero mesmo reler é a ideia da santidade. O que implica reler o livro todo e seguir um homem. Rieux ou Tarrou? Não me lembro.

A Peste > O mar

A Peste foi o meu primeiro livro de Camus porque Orão estava de costas viradas para o mar. Li, portanto, as primeiras cinco páginas na livraria e, chegada aqui,

«Pode apenas lamentar-se que ela [Orão] esteja construída de costas voltadas para essa baía e que, por conseguinte, seja impossível ver o mar, que é sempre preciso ir procurar.»

levei o livro para casa.

9.4.05


© Alexandra Boulat

+ aqui

›Intimacies‹


Aimee’s Saircase © Raïssa Venables

8.4.05

Em New Bedford

Era em New Bedford: um barco
partia para Nantucket.
Tremo fascinado pelo deserto
branco desse nome.
Melville, Moby Dick, o mar – de súbito
tudo rompia daquelas sílabas;
um mar feliz de cachalotes coroados
por jorros de espuma,
as núpcias do touro branco
com a baleia azul
no manso prado das águas,
a misteriosa fonte da alegria,
os saltos para o sol, o canto
fundo, a valentia, o ardor
entre homens e baleias. Era também
a morte. A morte nunca é limpa.
A morte cresce no escuro,
propaga-se no ar, entra pelas narinas.
Só o deserto é branco;
a morte não; só o mar.

Eugénio de Andrade

Se viajar de metro, não leia. (não é a primeira vez, mas hoje bati o record)

À hora de almoço vou ao Chiado. Faço o que tenho a fazer e a seguir apanho o metro na Baixa/Chiado para regressar ao Marquês. Abro o livro. Próxima estação? Parque. Saio da carruagem, subo um lanço de escadas, desço outro, espero pelo metro para o Marquês. Quando chega, entro e sento-me. Abro o livro. Próxima estação? Restauradores. Saio da carruagem, subo um lanço de escadas, desço outro, espero pelo metro para o Marquês. Entro e sento-me. Anoto mentalmente «Desta vez é que é, não me vou distrair.». Abro o livro. Próxima estação? Parque. Enervo-me: ainda não almocei. Subo um lanço de escadas, desço outro lanço de escadas, espero pelo metro para o Marquês. Entro, sento-me e abro o livro. «É agora.». Próxima paragem? Avenida. Saio e regresso ao Marquês a pé, de livro fechado.

7.4.05

São Bento


(maior aqui)


(maior aqui)

A primeira fotografei-a porque ultimamente vejo lódãos em toda a parte (eu sei) e fiquei contente por encontrar um tão grande ontem à tarde, sobretudo porque me dei conta quando passava debaixo, naquela sensação fenomenal que assalta muitas vezes os distraídos: se-fosse-um-cão-mordia-me. O cheiro fez-me parar e olhar para ela, as folhas e o tronco confirmaram a suspeita. A segunda não sei o que é. Gosto da escala que impõe ao casario e à gente que passa.

Estas árvores estão em frente ao Palácio. Temi que os seguranças me aborrecessem quando levei a mão ao bolso para ir buscar a máquina. Mas correu tudo bem e no fim ainda consegui desviar os pés de regresso ao bom caminho, depois de terem, sozinhos, começado a andar na direcção da livraria parlamentar. Uma das minhas livrarias preferidas. Ah, pois é. Felizmente também fazem a Feira do Livro e uma vez por ano chega-me. Confesso que me faltam números raros dos Relatórios do Provedor à Assembleia da República e que isso me assombra o coração. E feliz, feliz a sério, só fico quando leio as conversas em família:

«Disse o grande governador de Moçambique António Enes num dos seus relatórios que explorar a bebedice do indígena era o principal objectivo da actividade agrícola e comercial da província. E acrescentou que «o indígena trabalhava para poder embriagar-se, e bebeu, bebe e há-de beber sempre».
É evidente que o indígena consumia, como ainda consome, especialmente bebidas cafreais, ou sejam as obtidas geralmente por fermentação de frutos, cereais, miolo de cana de açúcar, etc.; e são tão nocivas que em 1905 a Associação Comercial de Lourenço Marques propôs a proibição da sua importação ali, por arruinarem a saúde do indígena, e acentuou que era uma mixórdia sem nome, que, a pouco e pouco, envenenava a raça indígena.
Vozes: - Muito bem !
O Orador: - Também Freire de Andrade referiu, nos seus relatórios de 1907, 1909 e outros, os inconvenientes do uso de tais bebidas, dizendo que elas enfraqueciam, dia a dia, as raças indígenas, tão propunhas a embriaguez por vício inveterado. E manifestou-se no sentido de que, embora o indígena prefira o vinho, o uso ou abuso daquelas bebidas só podia ser impedido mediante uma fiscalização enérgica.
Ignoro se existem actualmente medidas gerais proibitivas ou restritivas do fabrico das bebidas cafreais e que sejam eficientes; mas sei que as há limitativas de venda dos vinho comuns, pois essa está quase impedida, pelo menos no distrito da Beira, onde é muito difícil obter licença ou alvará para venda de vinho a retalho; e, assim, não admira que o indígena, além das bebidas cafreais, chegue a ingerir álcool desnaturado, perfumes e outros ingredientes inconcebíveis. Uma espécie de cocktail indígena, talvez servido com jazz de batuque ...
» (1955-01-27, Assembleia Nacional)

Como não gostar desta transparência? "o indígena trabalhava para poder embriagar-se, e bebeu, bebe e há-de beber sempre". Sempre que ruído em excesso se instala na comunicação social (cada vez mais frequente), em alturas de eleições e outras, vou ler debates da 2ª República. Estão lá a transparência do passado e, por comparação, a explicação de muitos tiques e achaques presentes... ou a demagogia quando não era vergonha explicada às crianças do futuro. É água mole em pedra dura, mas gosto de coisas de lenta apreensão, como esta da percepção dos estilos - saber como fala quem quer mandar em mim:

«O rapaz até que não é burro
tem é falta de uso
mete o nariz onde não é chamado
como um parafuso
ó meu rapaz, tu só és senhor
do nariz que é teu
aqui paro para explicar uma coisa:
é que o rapaz sou eu
e assim fala quem quer mandar em mim
e assim fala quem quer mandar em mim
e assim fala quem quer mandar em mim
não protestes
não desfiles
não contestes
não refiles
já joguei ao boxe, já toquei bateria (trapum)
p´ra ver se me livrava desta energia
nada feito, que arrelia

isto no fim não passa de uma fase
que passa com o uso
foi muita liberdade de uma vez
e o rapaz está confuso
agora é tempo de apertar com ele:
olha, acabou-se a farra
ai, ai que este país está de pantanas
e não há quem o varra
assim fala quem já me quis varrer
assim fala quem já me quis varrer
assim fala quem já me quis varrer
não protestes
não desfiles
não contestes
não refiles
já joguei ao boxe, já toquei bateria (trapum)
p'ra ver se me livrava desta energia
nada feito, que arrelia

durante algum tempo foi necessário
pôr o rapaz a uso
pô-lo a gritar sobre o prestigio pátrio
e o orgulho luso
agora só nos faltava ele querer
virar o feitiço
contra o feiticeiro que o pôs a render
é que nem pensar nisso
assim fala quem me pôs a render
assim fala quem me pôs a render
assim fala quem me pôs a render
não protestes
não desfiles
não contestes
não refiles
já joguei ao boxe, já toquei bateria (trapum)
p'ra ver se me livrava desta energia
nada feito, que arrelia»

6.4.05

Pátrias

Há alturas em que não consigo ouvir Zeca Afonso. São raras, mas acontecem. São alturas em que não estou sintonizada naquele tom e naquele eco. Normalmente, consigo ouvi-lo todos os meses do ano. Às vezes, muitas vezes, tenho saudades de certas músicas nos sítios e nos momentos mais variados. Ouço-as para dentro facilmente, na falta de um disco. Só elas me reconciliam com o silêncio e com o tempo. Chico Buarque, também.

O meu pai viciou-me, desde sempre, a acordar com som. Nos dias de semana, o da rádio, com notícias e músicas não escolhidas. Ao fim-de-semana, o som dos discos. Pode ser um disco qualquer de que eu goste. Se for Beethoven, que é muito velho na minha cabeça, acordo entusiasmada. Se for Zeca Afonso, acordo serena, como se a minha infância fosse o primeiro dia de um país. Se for Carlos Paredes, acordo feliz da vida e a lembrar-me do desejo absurdo de sofrer de Cesário Verde.

Confesso que no ano passado, na manhã em que ouvi a notícia da sua morte, antes de sair de casa, o pus a tocar. Não fazia sol nessa manhã e a praça estava cinzenta. Carlos Paredes também é pátria. Eu fui à janela ver o dia, estava um velho sentado num banco da praça, alguns pombos perto, e enquanto a música durou – ouvi nessa manhã o Canto do Rio, em silêncio, porque o meu corpo, muito mais o meu corpo do que a minha cabeça, não consentiria continuar sem isso – não passaram pessoas ou carros, ficaram só o velho e os pombos. E os lódãos, não esquecer os lódãos.

Outro tipo que de vez em quando me assalta, mas que não consigo ouvir para dentro com tanta facilidade, é Sérgio Godinho. Ah, isto vinha tudo a propósito de Sérgio Godinho, não me lembro de viver sem as canções de Sérgio Godinho (entrei, definitivamente, em fase de falar pelos cotovelos, o que em mim ocorre com a frequência dos eclipses e como os eclipses... é aqui que compreendo melhor Elisabeth, o silêncio de Elisabeth, a necessidade de silêncio de Elisabeth). O que eu não dava para ouvir agora mesmo Sérgio Godinho e Jorge Palma em Mudemos de Assunto, como aqui:



«Andas aí a partir corações
como quem parte um baralho de cartas
cartas de amor
escrevi-te eu tantas
às tantas, aos poucos
às tantas, aos poucos
eu fui percebendo
às tantas eu lá fui tacteando
às cegas eu lá fui conseguindo
às cegas eu lá fui abrindo os olhos

E nos teus olhos como espelhos partidos
quis inventar uma outra narrativa
até que um ai me chegou aos ouvidos
e era só eu a vogar à deriva
e um animal sempre foge do fogo
e eu mal gritei: fogo!
mal eu gritei: água!
que morro de sede
achei-me encostado à parede
gritando: Livrai-me da sede!
e o mar inteiro entrou na minha casa

E nos teus olhos inundados do mar
eu naveguei contra minha vontade
mas deixa lá, que este barco a viajar
há-de chegar à gare da sua cidade
e ao desembarque a terra será mais firme
há quem afirme
há quem assegure
que é depois da vida
que a gente encontra a paz prometida
por mim marquei-lhe encontro na vida
marquei-lhe encontro ao fim da tempestade

Da tempestade, o que se teve em comum
é aquilo que nos separa depois
e os barcos passam a ser um e um
onde uma vez quiseram quase ser dois
e a tempestade deixa o mar encrespado
por isso cuidado
mesmo muito cuidado
que é frágil o pano
que veste as velas do desengano
que nos empurra em novo oceano
frágil e resistente ao mesmo tempo

Mas isto é um canto
e não um lamento
já disse o que sinto
agora façamos o ponto
e mudemos de assunto
sim?»

As casas

As casas habitadas são belas
se parecem ainda uma casa vazia
sem a pretensão de ocupá-las
tornam-se ténues disposições
os sinais da nossa presença:
um livro
a roupa que chegou da lavandaria
por arrumar em cima da cama
o modo como toda a tarde a luz foi
entregue ao seu silêncio

Em certos dias, nem sabemos porquê
sentimo-nos estranhamente perto
daquelas coisas que buscamos muito
e continuam, no entanto, perdidas
dentro da nossa casa

José Tolentino Mendonça

Experiment in terror *

É só para avisar que acho que descobri como pôr as tais flores martin-parrianas no fundo disto.



Não o farei. Todavia, vou começar hoje a procurar uma casa-de-banho ou uma cozinha dos anos 70, com azulejos dessa época, horríveis, que eu possa fotografar e trazer para o blog.

* Deu jeito, o título, mas só porque vinha a pensar nisso: não é que a Cinemateca vai passar o filme no dia 27 às 15:30? E eu já a imaginar o som de Mancini no cinema (são fantásticos os estímulos de cada um, não são?). Grrr. Podia ser outro planeta habitado, até um com vida inteligente, que eu não me daria conta por estar a trabalhar: terão sido os efeitos nocivos do trabalho alguma vez considerados pela SETI enquanto obstáculos à comunicação entre os povos do universo?

5.4.05

Ainda os lódãos

Página catalã tem fotografias das folhas com escala visível em centímetros. Assim:



A mesma fotografia, mas maior e com todo o detalhe, está aqui.

Por baixo das folhas, a flor:

4.4.05

Um Homem é Um Homem

«O Teatro do Bairro Alto, em Lisboa, estreia no dia 7 de Abril uma comédia de Bertolt Brecht cuja acção se situa numa colónia imaginária. Nesta parábola política, três soldados do exército britânico, aterrorizados pelo seu sargento, são forçados a candidatar-se à substituição de um dos homens da sua secção de metralhadora que sofreu um pequeno acidente.
Depois de muitas ameaças e chantagens, o estivador Galy Gay é o escolhido para substituir o colega. O subtítulo da peça é "A transformação do estivador Galy Gay no acampamento militar de Kilkoa no ano de 1925" e resume todo o enredo. É que, para sobreviver, Galy muda de nome e transforma-se em soldado. Perde a identidade para se integrar no colectivo e dão-se outras modificações: Galy Gay torna-se chefe militar e o violento sargento é humilhado e passa a civil. Três horas de espectáculo com referências ao militarismo, à guerra e à relação entre os seres humanos.» - PÚBLICO.PT

Já não será a primeira vez, mas apetece-me muito:

«Los encuentros de un caracol aventurero


Hay dulzura infantil
en la mañana quieta.
Los árboles extienden
sus brazos a la tierra.
Un vaho tembloroso
cubre las sementeras,
y las arañas tienden
sus caminos de seda
-rayas al cristal limpio
del aire-.
En la alameda
un manantial recita
su canto entre las hierbas.
Y el caracol, pacífico
burgués de la vereda,
ignorado y humilde,
el paisaje contempla.
La divina quietud
de la Naturaleza
le dio valor y fe,
y olvidando las penas
de su hogar, deseó
ver el fin de la senda.

Echó a andar e internose
en un bosque de yedras
y de ortigas. En medio
había dos ranas viejas
que tomaban el sol,
aburridas y enfermas.

"Esos cantos modernos
-murmuraba una de ellas-
son inútiles". "Todos,
amiga -le contesta
la otra rana, que estaba
herida y casi ciega-.
Cuando joven creía
que si al fin Dios oyera
nuestro canto, tendría
compasión. Y mi ciencia,
pues ya he vivido mucho,
hace que no lo crea.
Yo ya no canto más..."

Las dos ranas se quejan
pidiendo una limosna
a una ranita nueva
que pasa presumida
apartando las hierbas.

Ante el bosque sombrío
el caracol se aterra.
Quiere gritar. No puede.
Las ranas se le acercan.

"¿Es una mariposa?",
dice la casi ciega.
"Tiene dos cuernecitos
-la otra rana contesta-.
Es el caracol. ¿Vienes,
caracol, de otras tierras?"

"Vengo de mi casa y quiero
volverme muy pronto a ella".
"Es un bicho muy cobarde
-exclama la rana ciega-.
¿No cantas nunca?" "No canto",
dice el caracol. "¿Ni rezas?"
"Tampoco: nunca aprendí".
"¿Ni crees en la vida eterna?"
"¿Qué es eso?
"Pues vivir siempre
en el agua más serena,
junto a una tierra florida
que a un rico manjar sustenta".

"Cuando niño a mí me dijo
un día mi pobre abuela
que al morirme yo me iría
sobre las hojas más tiernas
de los árboles más altos".

"Una hereje era tu abuela
.
La verdad te la decimos
nosotras. Creerás en ella",
dicen las ranas furiosas.

"¿Por qué quise ver la senda?
-gime el caracol-. Sí creo
por siempre en la vida eterna
que predicáis..."
Las ranas,
muy pensativas, se alejan.
y el caracol, asustado,
se va perdiendo en la selva.

Las dos ranas mendigas
como esfinges se quedan.
Una de ellas pregunta:
"¿Crees tú en la vida eterna?"
"Yo no", dice muy triste
la rana herida y ciega.
"¿Por qué hemos dicho, entonces,
al caracol que crea?"
"Por qué... No sé por qué
-dice la rana ciega-.
Me lleno de emoción
al sentir la firmeza
con que llaman mis hijos
a Dios desde la acequia..."

El pobre caracol
vuelve atrás. Ya en la senda
un silencio ondulado
mana de la alameda.
Con un grupo de hormigas
encarnadas se encuentra.
Van muy alborotadas,
arrastrando tras ellas
a otra hormiga que tiene
tronchadas las antenas.
El caracol exclama:
"Hormiguitas, paciencia.
¿Por qué así maltratáis
a vuestra compañera?
Contadme lo que ha hecho.
Yo juzgaré en conciencia.
Cuéntalo tú, hormiguita".

La hormiga, medio muerta,
dice muy tristemente:
"Yo he visto las estrellas."
"¿Qué son las estrellas?", dicen
las hormigas inquietas.
Y el caracol pregunta
pensativo: "¿Estrellas?"
"Sí -repite la hormiga-,
he visto las estrellas,
subí al árbol más alto
que tiene la alameda
y vi miles de ojos
dentro de mis tinieblas".
El caracol pregunta:
"¿Pero qué son las estrellas?"
"Son luces que llevamos
sobre nuestra cabeza".
"Nosotras no las vemos",
las hormigas comentan.
Y el caracol: "Mi vista
sólo alcanza a las hierbas."

Las hormigas exclaman
moviendo sus antenas:
"Te mataremos; eres
perezosa y perversa.
El trabajo es tu ley."

"Yo he visto a las estrellas",
dice la hormiga herida.
Y el caracol sentencia:
"Dejadla que se vaya.
seguid vuestras faenas.
Es fácil que muy pronto
ya rendida se muera".

Por el aire dulzón
ha cruzado una abeja.
La hormiga, agonizando,
huele la tarde inmensa,
y dice: "Es la que viene
a llevarme a una estrella".

Las demás hormiguitas
huyen al verla muerta.

El caracol suspira
y aturdido se aleja
lleno de confusión
por lo eterno. "La senda
no tiene fin -exclama-.
Acaso a las estrellas
se llegue por aquí.
Pero mi gran torpeza
me impedirá llegar.
No hay que pensar en ellas".

Todo estaba brumoso
de sol débil y niebla.
Campanarios lejanos
llaman gente a la iglesia,
y el caracol, pacífico
burgués de la vereda,
aturdido e inquieto,
el paisaje contempla. »

Federico García Lorca > Libro de Poemas

Celtis australis (eu pedi paciência)

Nesta página encontrei isto:



É um tronco bonito, não é? Com a vantagem de ficar negro em contacto com a água e de produzir noites de Inverno sinistras e mágicas. O verde escuro das folhas é verdade e acontece na agonia do Verão, lá para Agosto, Setembro. As folhas nascem num tom entre o verde alface transparente e o dourado e a partir daí, até ao Verão, todos os dias (e isto não é mais um dos meus exageros) o verde muda de tom, e olhar para elas é um grande júbilo. Por estes dias, as folhas das minhas árvores são de cor verde vivo e a praça está completamente transfigurada. As árvores rivalizam com os prédios, com os automóveis e com o som da cidade e estão tão bonitas que a tudo oferecem redenção. E isto não é poesia, caramba, isto é o mundo que interessa, o mundo onde nos medimos. E eu gosto.

Celtis australis

Foi-me necessário decorar a designação em Latim dos lódãos para os encontrar num manual de árvores espanhol. Fiquei a saber que o fruto é doce e comestível e daqui a umas semanas penso comprová-lo. Outra vantagem de agora lhes conhecer a designação é que assim consigo mais imagens nas buscas pela internet. Tenham paciência. Os lódãos são árvores ornamentais, sem grande peso literário, mas são as árvores que eu tenho por perto e, naturalmente, tenho vindo a gostar cada vez mais delas.

As coisas que eu consigo com um nome em Latim :)


= imagem maior (aliás, enorme) aqui =

Origem? Esta página. A lista das imagens das árvores está aqui.

3.4.05

Quadro que não preciso roubar


sem título © António Azevedo Rua
óleo sobre madeira (60 cm x 18 cm)


(maior aqui)

p.s. Não queres postar um dos teus?

2.4.05

E chove.

Por aqui, cozinha-se, conversa-se e desarruma-se a casa. A gata, à falta de sol no soalho, observa as operações culinárias em cima do frigorífico, faz esperas à porta da casa-de-banho para assustar quem sai, aninha-se e adormece no colo de quem se senta.

O leitor de cds está em repeat com estes discos:





31.3.05

A media voz



Com direito a musa de Brancusi e tudo, arquivo de textos e de sons, aqui; «A casada infiel» de Lorca por Herrero está aqui.

Onde está Rubén Darío?

Rubén Darío, Mario Benedetti, Jaime Gil de Biedma, Miguel Hernández, Pedro Salinas, García Lorca, Juán Ramon Jiménez, Miguel Ángel Asturias, Unamuno, Luis Cernuda, Jorge Guillén, Octavio Paz, Blas de Otero. Não tem fim esta página. Andava à procura de outro poema de Pedro Salinas quando fui lá parar, estou capaz de largar aos pulos pela casa. Descubro agora que a página tem som e que - oh delírio dos delíros - está lá Lorca por Miguel Herrero, dá para acreditar? Não é lindo? Audível, na net, uma das coisas mais bonitas alguma vez gravadas? Ouçam "La casada infiel", por favor. Eu não consigo linkar o som aqui, mas está na lista dos poemas com voz. Ah, o nome da página, não me posso esquecer: Palabra Virtual: antología de poesía hispanoamericana. Que grande festa é esta página.

(Cuidado com a música: em quase todas as páginas da Palabra Virtual é facil desligá-la, mas na dos sons principal há uma intro de Neruda e esqueceram-se do interruptor. É chato porque, por vezes, a página recomeça e, então, Neruda recomeça.)

En una piedra está la paciencia del mundo

Hoy son las manos la memoria.
El alma no se acuerda, está dolida
de tanto recordar. Pero en las manos
queda el recuerdo de lo que han tenido.

Recuerdo de una piedra
que hubo junto a un arroyo
y que cogimos distraídamente
sin darnos cuenta de nuestra ventura.
Pero su peso áspero,
sentir nos hace que por fin cogimos
el fruto más hermoso de los tiempos.
A tiempo sabe
el peso de una piedra entre las manos
.
En una piedra está
la paciencia del mundo, madurada despacio.
Incalculable suma
de días y de noches, sol y agua
la que costó esta forma torpe y dura
que acariciar no sabe y acompaña
tan sólo con su peso, oscuramente.
Se estuvo siempre quieta,
sin buscar, encerrada,
en una voluntad densa y constante
de no volar como la mariposa,
de no ser bella, como el lirio,
para salvar de envidias su pureza
.
¡Cuántos esbeltos lirios, cuántas gráciles
libélulas se han muerto, allí, a su lado
por correr tanto hacia la primavera!
Ella supo esperar sin pedir nada
más que la eternidad de su ser puro.
Por renunciar al pétalo, y al vuelo,
está viva y me enseña
que un amor debe estarse quizá quieto, muy quieto,
soltar las falsas alas de la prisa,
y derrotar así su propia muerte.

También recuerdan ellas, mis manos,
haber tenido una cabeza amada entre sus palmas.
Nada más misterioso en este mundo.
Los dedos reconocen los cabellos
lentamente, uno a uno, como hojas
de calendario: son recuerdos
de otros tantos, también innumerables
días felices
dóciles al amor que los revive.
Pero al palpar la forma inexorable
que detrás de la carne nos resiste
las palmas ya se quedan ciegas.
No son caricias, no, lo que repiten
pasando y repasando sobre el hueso:
son preguntas sin fin, son infinitas
angustias hechas tactos ardorosos.
Y nada les contesta: una sospecha
de que todo se escapa y se nos huye
cuando entre nuestras manos lo oprimimos
nos sube del calor de aquella frente.
La cabeza se entrega. ¿Es la entrega absoluta?
El peso en nuestras manos lo insinúa,
los dedos se lo creen,
y quieren convencerse: palpan, palpan.
Pero una voz oscura tras la frente,
-¿nuestra frente o la suya?-
nos dice que el misterio más lejano,
porque está allí tan cerca, no se toca
con la carne mortal con que buscamos
allí, en la punta de los dedos,
la presencia invisible.
Teniendo una cabeza así cogida
nada se sabe, nada,
sino que está el futuro decidiendo
o nuestra vida o nuestra muerte
tras esas pobres manos engañadas
por la hermosura de lo que sostienen.
Entre unas manos ciegas
que no pueden saber. Cuya fe única
está en ser buenas, en hacer caricias
sin casarse, por ver si así se ganan
cuando ya la cabeza amada vuelva
a vivir otra vez sobre sus hombros,
y parezca que nada les queda entre las palmas,
el triunfo de no estar nunca vacías

La memoria en las manos - Pedro Salinas

húmus

a alcoviteira andarilha a luz nas telhas a noite dança alec soth alex maclean alexandra boulat alfredo cunha alice in chains allo allo andou prometeu a roubar fogo aos deuses para isto andré kertész andrew wyeth antibalas anywhen arizona amp and alternator armi e danny arthur dove as árvores aulas de CC bach bartleby beatles bergman bill evans bompovo brad mehldau brecht bunny suicides calexico camponesa camus carl sandburg carlos paredes carta topográfica de lisboa caspar david friedrich cassandra wilson cato salsa experience centenário do grande temporal centrifugação blogger charlie parker chico buarque christian schad christopher r. harris cig harvey coisas que ninguém diz e que toda a gente sabe dan nelken daniel blaufuks dave holland dave mckean decisions deus inventou o sexo diário de bordo ditty bops divas dostoievsky dr. jazz dylan thomas e. e. cummings el greco ella fitzgerald elvis e anita emil nolde enid blyton eugene smith eugénio de andrade evil genius fausto bordalo dias fenómenos paranormais francis bacon françois clouet fredrik marsh future bible heroes gaivota galiza garcía lorca geografia georges gonon-guillermas gilbert and george gógol e kureishi gonçalo m. tavares góngora HAL hans baldung grien hans cranach henrik ibsen hopper horas da ciência howe gelb hp5 húmus hyeyoung kim i'm going away to wear you off my mind ironia natalícia jan van eyck jason moran jerry lodriguss jesus na comida jornal do insólito josé barata moura josé carlos fernandes josé gomes ferreira josé mário branco josé tolentino mendonça Kafka sumiu keith jarrett keith johnson ken rosenthal king oliver's creole jazz band laura veirs lei bloguística leitura de sobrevivência león ferrari lewis carroll load "" louis jordan madrid maelesskircher manuel alvarez bravo maria schneider mario abbatepaolo martin parr matéria-prima mau feitio mauro fiorese michael brecker micheliny verunschk miguel rio branco miles davis mirah missy gaido allen momento fantástico do bicho escala estantes monk movimento televisão sem som neil gaiman nick brandt nietzsche noronha da costa o aforismo o piano de tom jobim o sono e os sonhos o'neill orquestra vegetal de viena os cavaleiros camponeses no ano 1000 no lago de paladru pão com manteiga pat metheny patience and prudence paul strand pedro salinas peggy washburn pentti sammallahti philip larkin philippe halsman piero de la francesca ponce de léon post de gaja preisner pronto-a-vestir quadrado fi Quadros que roubaria no Thyssen quino R.E.M. raïssa venables regina guimarães robert doisneau ruben a. rui knopfli ruy belo ruysdael sarastro schuiten e peeters sequoia sempervirens sérgio godinho shampoo casulo shannon wright sidney bechet simone de beauvoir sophia andresen soviet group stieglitz t.s.eliot tagsmustbedestroyed tennessee williams terry blaine the 1913 armory show tom chambers trem azul trepadeira universos múltiplos valerio magrelli velásquéz você é um idiota winslow homer xavier seoane yes prime minister yousuf karsh zeca zurbaran

tralha

cavaleiros electrónicos

oscavaleiroscamponesesATyahooDOTcom