15.2.06


O meu coração kitsch a nu *



Assim que vi este disco senti brilhar muito os olhos, retribuí de imediato o sorriso ao Harry, abri, também eu, os braços pelos cotovelos e pensei: A uma capa destas não se nega o exercício do contraditório. Isto deu-se numa catedral do mundo kitsch onde ontem fui, sem querer, parar: http://discosantigos.com. Infelizmente, tem imensos links quebrados, o que assombrou desde logo a minha expectativa de felicidade para os dias vindouros.

"Calypso" é pois o disco que estou a ouvir agora - assim andam de mãos dadas a música e a mais elementar justiça, constatação, também ela, comovente - e é mesmo boa onda. Não sei quantas vezes vou ouvi-lo, mas se em miúda tivesse posto as mãos e os ouvidos num álbum destes teríamos sido bons amigos.

Em breve vou ouvir também este disco (sem ser por causa do contraditório; é que os rapazes sabem algo fantástico que eu não sei, o que, como sou invejosa, me deixa contrariada e inquieta).

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* título de Baudelaire, devidamente trucidado e adaptado à causa.



Geomeriid: Evolution of Light into Dark, 2000

Entomology © Jo Whaley

14.2.06

DEVOLVEI-LHES

Devolvei-lhes o que neles já não se acha presente,
Tornarão a ver o grão da ceifa encerrar-se na espiga e agitar-se sobre a erva.
Ensinai-lhes, desde a queda ao voo, os doze meses do seu rosto,
Hão-de acalentar o vazio do seu coração até ao desejo seguinte,
Pois não há nada que naufrague ou se compraza nas cinzas,
E quem sabe ver a terra terminar em frutos
Não se comove com o fracasso, ainda que tudo tenha perdido.

René Char > Os leais adversários > FUROR E MISTÉRIO
Trad. Margarida Vale de Gato > Relógio d'Água, 2000




© Werner Bischof
Far Within Us #1

We raise our arms
The street climbs into the sky
We lower our eyes
The roofs go down into the earth

From every pain
We do not mention
Grows a chestnut tree
That stays mysterious behind us

From every hope
We cherish
Sprouts a star
That moves unreachable before us

Can you hear a bullet
Flying about our heads
Can you hear a bullet
Waiting to ambush our kiss

Vasko Popa
Trad. Anne Pennington

13.2.06





Hanoi Panoramas





Eurídice

Uma pessoa tem um corpo,
Um só, sozinho.
A alma já está farta
De ficar confinada dentro
De uma caixa, com orelhas e olhos
Do tamanho de moedas,
Feita de pele - só cicatrizes -
Cobrindo um esqueleto.

Pela córnea ela voa
Para a cúpula do céu,
Sobre um raio gélido,
Até uma rodopiante revoada de pássaros,
E ouve pelas grades
Da sua prisão viva
O crepitar de florestas e milharais,
O troar dos sete mares.

Uma alma sem corpo é pecaminosa
Como um corpo sem camisa -
Nenhuma intenção, nem um verso.
Uma charada sem solução:
Quem vai voltar
Ao salão depois do baile,
Quando não há ninguém para dançar?

E eu sonho com uma alma diferente
Vestida com outras roupas:
Que se inflama enquanto corre
Da timidez à esperança;
Pura e sem sombra,
Como fogo, ela percorre a Terra,
Deixa lilases sobre a mesa
Para que se lembrem dela.

Então continua a correr, criança, não te aflige
Por causa da pobre Eurídice;
Continua a rodar teu arco de cobre,
Corre com ele mundo afora,
Enquanto, em notas firmes
De tom alegre e frio,
Em resposta a cada passo que deres,
A Terra soar em teus ouvidos.

Arseni Tarkovski
Trad. Luis Carlos Borges


Eu não sou da sua rua

Eu não sou da sua rua,
eu não sou o seu vizinho,
eu moro muito longe, sozinho.

Estou aqui de passagem.

Eu não sou da sua rua,
eu não falo a sua língua,
minha vida é diferente da sua.

Estou aqui de passagem.

Esse mundo não é meu,
esse mundo não é seu.

Branco Mello/ Arnaldo Antunes

12.2.06






Bill Viola > Ablutions, 2005
Video installation > Photo: Kira Perov
To Infinite Eternity

I

Death is closer
to infinite eternity
than life is

and each life closer
to each least breath
than the blankness of
infinite eternity itself

II

To think blankness
rouses certain terror
and in the feeling
the sudden sense

of self responding
down to the smallest
unaided particle

of its existence
as answer to
the blankness of
sure nonexistence

III

Then infinite eternity
may be the opposite
of felt existence

durable as any
measurably
felt time

IV

I say hello
to myself

and to break
the terror

of nonexistence
I restore my self

to existence whatever
the consequence

Edwin Honig

10.2.06

Dia claro *



Com este, faltam 39 dias para o Equinócio de Primavera, diz o calendário do Observatório Astronómico de Lisboa: dia 20 de Março, às 18.26. Associo o som de alguns saxofones ao sol de Inverno, ao sol que cresce e que prepara a Primavera, porque a primeira vez que ouvi Getz-Gilberto, repetidamente, era Janeiro. Acordava cedo, abria as janelas e deixava o som tomar a casa. Manhã alta, quando os dias crescem, cheira a calor. É o melhor do ano, porque já há perfumes, mas são fraquinhos, indistintos, ainda muito misturados e, não sendo ainda o calor muito forte, respira-se bem neles. "Só danço samba" tocou sempre mais vezes que qualquer outra faixa do disco, porque o solo de Stan Getz se colava às manhãs. E toca. E cola-se.

9.2.06

AHA!

Aposto que ninguém estava à espera da Inquisição Espanhola.
Declarar o seu nome

Eu tinha dez anos. O rio Sorgue prendia-me. O sol cantava as horas no sábio mostrador das águas. A despreocupação e a dor tinham selado o galo de ferro ao tecto das casas e suportavam-se mutuamente. Mas que roda no coração da criança expectante girava mais depressa, com mais força, que a do moinho no seu incêndio branco?

René Char > "Acima do vento" > A Palavra em arquipélago (1952-60)
ESTE FANÁTICO DAS NUVENS > antologia de Marie-Claude Char e Y. K. Centeno
Tradução de Y. K. Centeno > Cotovia, 1995


© Tom Chambers
Contra uma casa seca



Se tiveres de voltar a partir apoia-te numa casa seca. Não te preocupes com a árvore graças à qual, de muito longe, a reconhecerás. Os seus próprios frutos te matarão a sede.

Erguendo-se antes do seu sentido, uma palavra nos desperta, nos concede a claridade do dia, uma palavra que não sonhou.

*

Espaço cor de maçã. Espaço, compoteira ardente.

Hoje é um animal selvagem. Amanhã verá o seu salto.

*

Põe-te no lugar dos deuses e olha para ti. Uma única vez trocado ao nascer, corpo mondado onde a usura termina, tu és mais sensível do que eles. E repetes-te menos.

A terra tem mãos, a lua não as tem. A terra é assassina, a lua é desolada.

*

A liberdade é, a seguir, o vazio, um vazio para recensear desesperadamente. Depois, caros emparedados eminentíssimos, vem o forte cheiro do vosso fim. Como seria possível que vos surpreendesse?

(...)

Quando a máscara do homem se aplica ao rosto da terra ela fica com os olhos furados.

*

Estaremos a exorbitar para sempre? Pintados de fresco com uma beleza redimida?

Teria podido escolher a natureza como companheira e dançar com ela em todos os bailes. Amava-a. Mas não deve haver casamentos nas vindimas.

*

O meu amor preferia o fruto ao seu fantasma. Eu unia um ao outro, insubmisso e curvado.

Trezentas e sessenta e cinco noites bem maciças, sem os dias, é o que desejo aos que odeiam a noite.

(...)

Chegaram uns arrasa-montanhas que só têm o que os olhos alcançam. Indivíduos rápidos a perseguir.

(...)

As nossas trovoadas são-nos essenciais. Na ordem das dores a sociedade não é fatalmente culpada, apesar dos seus lugares estreitos, suas paredes, sua ruína e restauração em alternância.

Não podemos medir-nos com a imagem que os outros fazem de nós. A analogia perder-se-ia logo.

*

A morte não se encontra nem aquém, nem além. Está ao lado, industriosa, ínfima.

*

(...)

*

Há os que deixam venenos e os que deixam remédios. Difíceis de distinguir. É preciso provar.

*

(...)

*

Só somos mortos pela vida. A morte é a anfitriã. Liberta a casa da sua cerca e empurra-a até à orla do bosque.

Sol juvenil, eu vejo-te: mas onde tu não estás.

*

Temos de regressar sempre à erosão. A dor contra a perfeição.

(...)




René Char > "Contra uma casa seca" (1969-1970) > O Nu Perdido
ESTE FANÁTICO DAS NUVENS > antologia de Marie-Claude Char e Y. K. Centeno
Tradução de Y. K. Centeno > Cotovia, 1995




© Tom Chambers

Que viva!

Este lugar é só um voto do espírito, um contra-sepulcro.

Na minha terra preferem-se as ternas provas da primavera e os pássaros mal-vestidos aos objectivos longínquos.

A verdade espera pela aurora à luz de uma vela. O vidro da janela não está limpo. Pouco importa ao atento.

Na minha terra não se fazem perguntas a um homem comovido.

Não há sombra maligna no barco soçobrado.

(...)

Só se pede de empréstimo o que se pode devolver aumentado.

Há folhas, muitas folhas, nas árvores da minha terra. Os ramos podem escolher não ter frutos.

Ninguém acredita na boa-fé do vencedor.

Na minha terra agradece-se.

René Char > "A sesta branca" > Os Matinais (1947-49)
ESTE FANÁTICO DAS NUVENS > antologia de Marie-Claude Char e Y. K. Centeno
Tradução de Y. K. Centeno > Cotovia, 1995

7.2.06






Undercurrent *


© Toni Frissell
supposing i dreamed this)... (IX)

supposing i dreamed this)
only imagine,when day has thrilled
you are a house around which
i am a wind-

your walls will not reckon how
strangely my life is curved
since the best he can do
is to peer through windows,unobserved

-listen,for(out of all
things)dream is noone's fool;
if this wind who i am prowls
carefully around this house of you

love being such,or such,
the normal corners of your heart
will never guess how much
my wonderful jealousy is dark

if light should flower:
or laughing sparkle from
the shut house(around and around
which a poor wind will roam

e.e. cummings
Brave, brave, brave, brave Sir Robin - I



Comecei a pensar na alcatifa do Overlook Hotel, fiquei nostálgica e formei o propósito de fazer uns recortes do «Shining». A música do genérico alterou-me logo um bocadinho. Decidi então ir buscar um CD animado e pô-lo a tocar em cima das imagens, escolhi o Guantanamera, o esquema prometia - "vou directamente às imagens que quero, fotografo-as e isto fica pronto em quinze minutos" - e regressei aos recortes. Não sei porquê à medida que ia tirando fotografias ia desligando o windows media player e prestando mais e mais atenção ao filme.

E mesmo tendo em conta que, ao rever a cena em que o puto come um gelado e conversa com o cozinheiro, a lucidez não me fugiu e até fui capaz de pensar coisas simpáticas, como É pena estes disparates ou Um homem crescido a meter brutalidades destas na cabeça de um miúdo, a verdade é que fui ficando mais e mais nervosa, até que, por fim, desliguei o programa e saquei o filme para fora do computador, não fosse algum mistério informático fazê-lo rodar inesperadamente e deixar-me, sei lá, não que fosse mesmo possível, em pânico ou assim.

É oficial e é mais forte que eu: o «Shining» assusta-me a valer. Sem querer, no entanto, desistir de recortar e trazer para o blog algumas das imagens que mais gozo me dão nesse filme, que ainda são algumas, inauguro uma série de posts com um título que, de forma adequada, enaltece a minha coragem, e deixo, para já, três imagens: a inicial e a da viagem até ao Overlook Hotel (esta última com e sem a sombra do helicóptero do mestre, que, para meu espanto, descobri, no último Verão, visível também no «2001»). Isto tem mesmo de ir devagarinho.


húmus

a alcoviteira andarilha a luz nas telhas a noite dança alec soth alex maclean alexandra boulat alfredo cunha alice in chains allo allo andou prometeu a roubar fogo aos deuses para isto andré kertész andrew wyeth antibalas anywhen arizona amp and alternator armi e danny arthur dove as árvores aulas de CC bach bartleby beatles bergman bill evans bompovo brad mehldau brecht bunny suicides calexico camponesa camus carl sandburg carlos paredes carta topográfica de lisboa caspar david friedrich cassandra wilson cato salsa experience centenário do grande temporal centrifugação blogger charlie parker chico buarque christian schad christopher r. harris cig harvey coisas que ninguém diz e que toda a gente sabe dan nelken daniel blaufuks dave holland dave mckean decisions deus inventou o sexo diário de bordo ditty bops divas dostoievsky dr. jazz dylan thomas e. e. cummings el greco ella fitzgerald elvis e anita emil nolde enid blyton eugene smith eugénio de andrade evil genius fausto bordalo dias fenómenos paranormais francis bacon françois clouet fredrik marsh future bible heroes gaivota galiza garcía lorca geografia georges gonon-guillermas gilbert and george gógol e kureishi gonçalo m. tavares góngora HAL hans baldung grien hans cranach henrik ibsen hopper horas da ciência howe gelb hp5 húmus hyeyoung kim i'm going away to wear you off my mind ironia natalícia jan van eyck jason moran jerry lodriguss jesus na comida jornal do insólito josé barata moura josé carlos fernandes josé gomes ferreira josé mário branco josé tolentino mendonça Kafka sumiu keith jarrett keith johnson ken rosenthal king oliver's creole jazz band laura veirs lei bloguística leitura de sobrevivência león ferrari lewis carroll load "" louis jordan madrid maelesskircher manuel alvarez bravo maria schneider mario abbatepaolo martin parr matéria-prima mau feitio mauro fiorese michael brecker micheliny verunschk miguel rio branco miles davis mirah missy gaido allen momento fantástico do bicho escala estantes monk movimento televisão sem som neil gaiman nick brandt nietzsche noronha da costa o aforismo o piano de tom jobim o sono e os sonhos o'neill orquestra vegetal de viena os cavaleiros camponeses no ano 1000 no lago de paladru pão com manteiga pat metheny patience and prudence paul strand pedro salinas peggy washburn pentti sammallahti philip larkin philippe halsman piero de la francesca ponce de léon post de gaja preisner pronto-a-vestir quadrado fi Quadros que roubaria no Thyssen quino R.E.M. raïssa venables regina guimarães robert doisneau ruben a. rui knopfli ruy belo ruysdael sarastro schuiten e peeters sequoia sempervirens sérgio godinho shampoo casulo shannon wright sidney bechet simone de beauvoir sophia andresen soviet group stieglitz t.s.eliot tagsmustbedestroyed tennessee williams terry blaine the 1913 armory show tom chambers trem azul trepadeira universos múltiplos valerio magrelli velásquéz você é um idiota winslow homer xavier seoane yes prime minister yousuf karsh zeca zurbaran

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