9.3.06

"e se uma lebre vos perguntasse qual era a vossa canção preferida
do tio Tom, qual seria a vossa resposta?"


8.3.06

Nómadas e instalações de versos

Há as hesitações, o não saber. E há os poemas onde vivemos antes, depois, e entretanto - entretanto é o melhor tempo para continuar a viver nos poemas. E acho que é o melhor tempo para os revisitar. Esta manhã li alguns, todos de Dylan Thomas. Agora trago um enrolado à volta do pescoço, não quer sair.

The force that through the green fuse drives the flower
Drives my green age; that blasts the roots of trees
Is my destroyer.
And I am dumb to tell the crooked rose
My youth is bent by the same wintry fever.

The force that drives the water through the rocks
Drives my red blood; that dries the mouthing streams
Turns mine to wax.
And I am dumb to mouth unto my veins
How at the mountain spring the same mouth sucks.

The hand that whirls the water in the pool
Stirs the quicksand; that ropes the blowing wind
Hauls my shroud sail.
And I am dumb to tell the hanging man
How of my clay is made the hangman's lime.

The lips of time leech to the fountain head;
Love drips and gathers, but the fallen blood
Shall calm her sores.
And I am dumb to tell a weather's wind
How time has ticked a heaven round the stars.

And I am dumb to tell the lover's tomb
How at my sheet goes the same crooked worm.

[notas mais ou menos a despropósito: uma, hoje no Poemário da Assírio é dia de Al-Mu’Tamid; duas, hoje é o dia das gaijas \o/; três, hoje também é dia de ir buscar slides novos; quatro, http://www.undermilkwood.net]

7.3.06








Dias muito citadinos. Dias pequenos. Casas a mais, ruas a mais. Não consigo encontrar espaço dentro dos dias. Nem sequer na diagonal. É lixada a memória do corpo, a memória do tacto. Consciência maior do céu e dos movimentos do ar, ainda assim - gosto. Cheiros a mais. Também há um silêncio dos cheiros, é quase absoluto, eu não sabia - é largo, antigo, granuloso. Não é que esteja muito preocupada com isso, mas não sei o que fazer a este espaço todo dentro dos olhos.











Já o peixe, que é outra história, veio daqui.
Democracy

I am a democrat in so far as I love the free sun in men
and an aristocrat in so far as I detest narrow-gutted, possessive persons.

I love the sun in any man
when I see it between his brows
clear, and fearless, even if tiny.

But when I see these grey successful men
so hideous and corpse-like, utterly sunless,
like gross successful slaves mechanically waddling,
then I am more than radical, I want to work a guillotine.

And when I see working men
pale and mean and insect-like, scuttling along
and living like lice, on poor money
and never looking up,
Then I wish, like Tiberius, the multitude had only one head
so that I could lop it off.

I feel that when people have gone utterly sunless
they shouldn't exist.

D.H.Lawrence
Os Animais Evangélicos e outros poemas
Relógio d'Água, 1994 - p.206

4.3.06



Agora estudo a lista esfacelada
dos arranhões do verão de ardósia, pus
a nu a língua de sílex e ar, camada
de escuridão e outra de luz;
e quero pôr os dedos do caminho
pedregoso da antiga canção
como na chaga; da água e do sílice,
do anel e do ferro fazendo a junção.

Óssip Mandelstam > Fogo Errante
Trad. Nina Guerra e Filipe Guerra
Relógio d'Água, 2001 - p.49
Isto não é o que parece



Louis Armstrong e Billy Holiday, 1946 - daqui)

3.3.06

Em reconstrução #2


Este blog parece-me irreal e não consigo habituar-me ao teclado. Não fosse a música, acho que me desligava. Hoje e ontem, pelo menos. Arrumo a biblioteca e o escritório: como é que se acumula tanto papel e tanta tralha acessória? Clips, elásticos, arames, canetas, postais, desdobráveis, bolachas. Sim, bolachas: atrás das colunas do pc havia bolachas. Encontrei, nas arrumações, um livro que nunca li. Tem estado misturado com livros parvos que me oferecem certas e determinadas pessoas para gozarem comigo (o diário da irmã Lúcia, poemas e pensamentos da Cyombra, profecias celestinas, etc). Esse livro chama-se "Por tierras de la mora encantada", subtítulo "El arte islámico en Portugal" e faz parte de uma colecção maior sobre a arte islâmica no Mediterrâneo. Há uma referência na net. Assim que a biblioteca estiver orientada, atiro-me a ele. Não é que me apeteça muito arrumar, é que, de facto, quando os livros começam a estar demasiado misturados deixo de saber o que há e onde. Agora vou ali tapar um interruptor da biblioteca com uma estante e ganhar uma parede para ver slides. Diapositivos, para os puritanos. Ou frutos-de-meia, para os mais íntimos.

1.3.06



Beethoven > Symphony No.7 in A Major, Op. 92 - II. Allegretto








Não sei dizer porquê. Desde miúda, em mim, o que no mundo é mundo, largo de espanto e de liberdade, está irremediavelmente ligado a Beethoven. Quando era adolescente, na época das crises existenciais e afins, se me acontecia a dor, depois do pensamento e da quietude obsessivos, depois do silêncio, quando achava que era tempo de renascer, ouvia-o. Antes e depois disso, sempre, se os dias me afastam desse espanto e dessa liberdade essenciais, volto a ouvi-lo. Quando me esqueço de me apaixonar, ouço-o. Ouço-o quando me sinto estrangeira, para reencontrar uma casa e uma pátria. Ouço-o quando descubro e quando agradeço. Também não sei dizer se é bom ou se é mau, isto. É meu e pronto. Estive no fundo do mar, no fundo do tempo. Tudo está quieto, nada está quieto. Mudo, mas regresso. Por isso hoje há Beethoven, que é mais que música.























A LIBERDADE

Ela chegou por essa linha branca, tanto podendo significar o início da alvorada como a vela do crepúsculo.
Passou as praias maquinais, passou os cumes esventrados.
Terminavam a renúncia com rosto covarde, a santidade da mentira, o álcool do algoz.
O seu verbo não foi um cego aríete, mas uma tela onde se inscreveu o meu sopro.
Com um passo que somente se poderia desorientar atrás da ausência, ela chegou, cisne sobre ferida, por essa linha branca.

René Char > Sós permanecem (1938-1944) > FUROR E MISTÉRIO
Trad. Margarida Vale de Gato > Relógio d'Água, 2000

27.2.06






Bill Viola © unspoken (silver and gold) 2001




Far Within Us #7

Toothed eyes fly
Over still waters

Around us purple lips
Flutter from branches

Screams hit the blue
And fall onto pillows

Our homes hide
Behind narrow backs

Hands clutch at
Flimsy clouds

Our veins roll turbid
Bed and tables

Of shattered bones
Noon has fallen into our hands

And turned all gloomy

An open grave on the face of the earth
On your face on my face

Vasko Popa
Trad. Anne Pennington

26.2.06

Far Within Us #6

From the wrinkle between my brows
You watch till day breaks
On my face

The waxen night
Is beginning to singe
The fingers of dawn

Black bricks
Have already tiled
The whole dome of the sky

Vasko Popa
Trad. Anne Pennington

25.2.06




Entomos: 1999

Entomology © Jo Whaley
Vislumbro o dia em que alguns homens, que não se julgarão generosos e absolvidos, visto que terão conseguido expulsar o desânimo e a submissão ao mal do trato com os seus semelhantes, ao mesmo tempo que terão atacado e dominado as forças de chantagem que de todas as partes os reclamavam, vislumbro o dia em que alguns homens empreenderão sem astúcia a viagem da energia do universo. E, como a fragilidade e a inquietude se alimentam de poesia, será exigido no regresso a esses altos viajantes que se dignem lembrar-se.

René Char > Sós permanecem (1938-1944) > FUROR E MISTÉRIO
Trad. Margarida Vale de Gato > Relógio d'Água, 2000

24.2.06


Francisco de Goya
El perro semihundido (1820-1823)
Far Within Us #5

The nights are running out of darkness

Steel branches grasp
The arms of passers-by

Only anonymour chimneys
Are free to walk the streets
Which slice across our sleeplessness

In the gutters our stars decay

Vasko Popa
Trad. Anne Pennington

23.2.06





© Tom Chambers
Far Within Us #4

Green gloves rustle
On the avenue's branches

The evening carries us under its arm
By a path which leaves no trace

The rain falls on its knees
Before the fugitive windows

The yards come out of their gates
And stand looking after us

Vasko Popa
Trad. Anne Pennington
Far Within Us #3

Unquiet you walk
Along the rims of my eyes

On the invisible grating
Before your lips
My naked words shiver

We steal moments
From the unheeding iron saws

Your hands sadly
Flow into mine
The air is impassable

Vasko Popa
Trad. Anne Pennington

22.2.06

Os livros na perspectiva dos gatos



Agnès Varda > Os respigadores e a respigadora

húmus

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