19.3.06

O último dia do Inverno




Do som sem mácula

Tenho ouvido menos música. Uma mistura de sons na memória, que se instalou com o vento, obriga-me à quietude. Não tenho encontrado música que me apeteça mais que ficar parada a lembrar-me de todos os sons possíveis num oceano abandonado. Não são muitos, não são muito variados – são, todavia, sons essencialmente limpos, e isso é uma novidade, um terceiro estado elementar do som a par da música e do silêncio. Também esta memória, mais que um exercício de raciocínio, me é imposta pelo corpo.

Do que me lembro de forma voluntária é do poema de Arthur Dove:

«A way to look at things

We have not yet made shoes that fit like sand.
Not clothes that fits like water,
Nor thoughts that fit like air.
There is much to be done –
Works of nature are abstract,
They do not lean on other things for meaning.
The sea-gull is not like the sea,
Nor the sun like the moon,
The sun draws water from the sea,
The clouds are not like either one –
They do not keep one form forever.
That the mountainside looks like a face is accidental.»

No ano passado encontrei este poema na exposição "Alfred Stieglitz y su círculo", no Reina Sofia. Estava exposto, em castelhano, numa parede. O catálogo da exposição, completíssimo, ignorava-o – era essa a única ausência. Tentei imaginar alguns versos em inglês, procurei-o na internet, encontrei-o, postei-o no blog para o guardar. Pareceu-me importante saber onde encontrá-lo, onde lê-lo quando fizesse mais sentido.

13.3.06

Largo


© Carola Clift


Passo a tarde a perseguir o sol com a mesa da biblioteca. Estou às avessas com o computador. Há muito vento, se me sento quieta em frente ao sol há muito vento, mas sinto-o melhor (circula entre os meus braços) ao fim do dia, e custa-me aceitar a existência de um diário dependente da electricidade, cores e sons dependentes de códigos.

Trata-se de uma negação do corpo, implacável como uma certeza – sei de onde vem, embora a compreenda pouco. Não digo que não sei como resolver isto – e não sei – porque gosto disto – e não quero.

Não dou por encerrado o blog porque a impossibilidade lógica de postar que se seguiria tornaria irresistível postar – a incoerência exerce sobre mim poderosa atracção. Continuo. Mas tenho mais que fazer: ir, entre posts, até onde as pessoas, vistas daqui, parecem fósforos.

10.3.06

«In my work I photograph people who have a deep felt sense of tradition. For one year, beginning in the Autumn of 1999, I lived in the village Sârbi in Maramures, Romania. My research revealed this region to be unique amongst the former Soviet Bloc for the way it had preserved its way of life. A few valleys in Maramures escaped collectivized farming because of poor soil and hilly landscape. In the post cold-war period, preservation continues as modernity is slow to advance into these valleys of northern Romania.

But nothing will stand still forever. While the older generation still don winter footwear that pre-date the Romans, the younger generation flock to market to buy shoes bearing that ubiquitous swoosh of western manufacture.

My purpose is to capture and convey images of their way of life before it becomes further compromised by globalization. In our modern world, we often feel we have “lost” something important, something precious. Though they do not know it now, these peasants are losing their customs in the same way our forebears lost theirs. They do not see themselves as beautiful or special, because they feel poor and ordinary. But I hope to show they embody beauty because of the way they have spent their days walking paths trodden by their grandparents. Because of the way their lives have become well worn like an old wooden spoon.
» - Kathleen Laraia McLaughlin


Shades of Romania © Kathleen Laraia McLaughlin

Site: http://www.klmphoto.com/

9.3.06

Não dizemos a morte do músico nem a do poeta. Não fechamos entre parênteses os anos do nascimento e da morte, nem celebramos centenários. Não cunhamos medalhas, não fazemos estátuas, não abrimos túmulos, não erguemos altares. Às vezes há aniversários. As pessoas de quem gostamos fazem então 40, 83, 109, 200 ou mais anos, podendo algumas viver, como no santo livro, até aos 900 e tal. Nos outros dias continuamos.




© Kathleen Laraia McLaughlin
"e se uma lebre vos perguntasse qual era a vossa canção preferida
do tio Tom, qual seria a vossa resposta?"


8.3.06

Nómadas e instalações de versos

Há as hesitações, o não saber. E há os poemas onde vivemos antes, depois, e entretanto - entretanto é o melhor tempo para continuar a viver nos poemas. E acho que é o melhor tempo para os revisitar. Esta manhã li alguns, todos de Dylan Thomas. Agora trago um enrolado à volta do pescoço, não quer sair.

The force that through the green fuse drives the flower
Drives my green age; that blasts the roots of trees
Is my destroyer.
And I am dumb to tell the crooked rose
My youth is bent by the same wintry fever.

The force that drives the water through the rocks
Drives my red blood; that dries the mouthing streams
Turns mine to wax.
And I am dumb to mouth unto my veins
How at the mountain spring the same mouth sucks.

The hand that whirls the water in the pool
Stirs the quicksand; that ropes the blowing wind
Hauls my shroud sail.
And I am dumb to tell the hanging man
How of my clay is made the hangman's lime.

The lips of time leech to the fountain head;
Love drips and gathers, but the fallen blood
Shall calm her sores.
And I am dumb to tell a weather's wind
How time has ticked a heaven round the stars.

And I am dumb to tell the lover's tomb
How at my sheet goes the same crooked worm.

[notas mais ou menos a despropósito: uma, hoje no Poemário da Assírio é dia de Al-Mu’Tamid; duas, hoje é o dia das gaijas \o/; três, hoje também é dia de ir buscar slides novos; quatro, http://www.undermilkwood.net]

7.3.06








Dias muito citadinos. Dias pequenos. Casas a mais, ruas a mais. Não consigo encontrar espaço dentro dos dias. Nem sequer na diagonal. É lixada a memória do corpo, a memória do tacto. Consciência maior do céu e dos movimentos do ar, ainda assim - gosto. Cheiros a mais. Também há um silêncio dos cheiros, é quase absoluto, eu não sabia - é largo, antigo, granuloso. Não é que esteja muito preocupada com isso, mas não sei o que fazer a este espaço todo dentro dos olhos.











Já o peixe, que é outra história, veio daqui.
Democracy

I am a democrat in so far as I love the free sun in men
and an aristocrat in so far as I detest narrow-gutted, possessive persons.

I love the sun in any man
when I see it between his brows
clear, and fearless, even if tiny.

But when I see these grey successful men
so hideous and corpse-like, utterly sunless,
like gross successful slaves mechanically waddling,
then I am more than radical, I want to work a guillotine.

And when I see working men
pale and mean and insect-like, scuttling along
and living like lice, on poor money
and never looking up,
Then I wish, like Tiberius, the multitude had only one head
so that I could lop it off.

I feel that when people have gone utterly sunless
they shouldn't exist.

D.H.Lawrence
Os Animais Evangélicos e outros poemas
Relógio d'Água, 1994 - p.206

4.3.06



Agora estudo a lista esfacelada
dos arranhões do verão de ardósia, pus
a nu a língua de sílex e ar, camada
de escuridão e outra de luz;
e quero pôr os dedos do caminho
pedregoso da antiga canção
como na chaga; da água e do sílice,
do anel e do ferro fazendo a junção.

Óssip Mandelstam > Fogo Errante
Trad. Nina Guerra e Filipe Guerra
Relógio d'Água, 2001 - p.49
Isto não é o que parece



Louis Armstrong e Billy Holiday, 1946 - daqui)

3.3.06

Em reconstrução #2


Este blog parece-me irreal e não consigo habituar-me ao teclado. Não fosse a música, acho que me desligava. Hoje e ontem, pelo menos. Arrumo a biblioteca e o escritório: como é que se acumula tanto papel e tanta tralha acessória? Clips, elásticos, arames, canetas, postais, desdobráveis, bolachas. Sim, bolachas: atrás das colunas do pc havia bolachas. Encontrei, nas arrumações, um livro que nunca li. Tem estado misturado com livros parvos que me oferecem certas e determinadas pessoas para gozarem comigo (o diário da irmã Lúcia, poemas e pensamentos da Cyombra, profecias celestinas, etc). Esse livro chama-se "Por tierras de la mora encantada", subtítulo "El arte islámico en Portugal" e faz parte de uma colecção maior sobre a arte islâmica no Mediterrâneo. Há uma referência na net. Assim que a biblioteca estiver orientada, atiro-me a ele. Não é que me apeteça muito arrumar, é que, de facto, quando os livros começam a estar demasiado misturados deixo de saber o que há e onde. Agora vou ali tapar um interruptor da biblioteca com uma estante e ganhar uma parede para ver slides. Diapositivos, para os puritanos. Ou frutos-de-meia, para os mais íntimos.

1.3.06



Beethoven > Symphony No.7 in A Major, Op. 92 - II. Allegretto








Não sei dizer porquê. Desde miúda, em mim, o que no mundo é mundo, largo de espanto e de liberdade, está irremediavelmente ligado a Beethoven. Quando era adolescente, na época das crises existenciais e afins, se me acontecia a dor, depois do pensamento e da quietude obsessivos, depois do silêncio, quando achava que era tempo de renascer, ouvia-o. Antes e depois disso, sempre, se os dias me afastam desse espanto e dessa liberdade essenciais, volto a ouvi-lo. Quando me esqueço de me apaixonar, ouço-o. Ouço-o quando me sinto estrangeira, para reencontrar uma casa e uma pátria. Ouço-o quando descubro e quando agradeço. Também não sei dizer se é bom ou se é mau, isto. É meu e pronto. Estive no fundo do mar, no fundo do tempo. Tudo está quieto, nada está quieto. Mudo, mas regresso. Por isso hoje há Beethoven, que é mais que música.























A LIBERDADE

Ela chegou por essa linha branca, tanto podendo significar o início da alvorada como a vela do crepúsculo.
Passou as praias maquinais, passou os cumes esventrados.
Terminavam a renúncia com rosto covarde, a santidade da mentira, o álcool do algoz.
O seu verbo não foi um cego aríete, mas uma tela onde se inscreveu o meu sopro.
Com um passo que somente se poderia desorientar atrás da ausência, ela chegou, cisne sobre ferida, por essa linha branca.

René Char > Sós permanecem (1938-1944) > FUROR E MISTÉRIO
Trad. Margarida Vale de Gato > Relógio d'Água, 2000

27.2.06






Bill Viola © unspoken (silver and gold) 2001




Far Within Us #7

Toothed eyes fly
Over still waters

Around us purple lips
Flutter from branches

Screams hit the blue
And fall onto pillows

Our homes hide
Behind narrow backs

Hands clutch at
Flimsy clouds

Our veins roll turbid
Bed and tables

Of shattered bones
Noon has fallen into our hands

And turned all gloomy

An open grave on the face of the earth
On your face on my face

Vasko Popa
Trad. Anne Pennington

26.2.06

Far Within Us #6

From the wrinkle between my brows
You watch till day breaks
On my face

The waxen night
Is beginning to singe
The fingers of dawn

Black bricks
Have already tiled
The whole dome of the sky

Vasko Popa
Trad. Anne Pennington

25.2.06




Entomos: 1999

Entomology © Jo Whaley
Vislumbro o dia em que alguns homens, que não se julgarão generosos e absolvidos, visto que terão conseguido expulsar o desânimo e a submissão ao mal do trato com os seus semelhantes, ao mesmo tempo que terão atacado e dominado as forças de chantagem que de todas as partes os reclamavam, vislumbro o dia em que alguns homens empreenderão sem astúcia a viagem da energia do universo. E, como a fragilidade e a inquietude se alimentam de poesia, será exigido no regresso a esses altos viajantes que se dignem lembrar-se.

René Char > Sós permanecem (1938-1944) > FUROR E MISTÉRIO
Trad. Margarida Vale de Gato > Relógio d'Água, 2000

24.2.06


Francisco de Goya
El perro semihundido (1820-1823)

húmus

a alcoviteira andarilha a luz nas telhas a noite dança alec soth alex maclean alexandra boulat alfredo cunha alice in chains allo allo andou prometeu a roubar fogo aos deuses para isto andré kertész andrew wyeth antibalas anywhen arizona amp and alternator armi e danny arthur dove as árvores aulas de CC bach bartleby beatles bergman bill evans bompovo brad mehldau brecht bunny suicides calexico camponesa camus carl sandburg carlos paredes carta topográfica de lisboa caspar david friedrich cassandra wilson cato salsa experience centenário do grande temporal centrifugação blogger charlie parker chico buarque christian schad christopher r. harris cig harvey coisas que ninguém diz e que toda a gente sabe dan nelken daniel blaufuks dave holland dave mckean decisions deus inventou o sexo diário de bordo ditty bops divas dostoievsky dr. jazz dylan thomas e. e. cummings el greco ella fitzgerald elvis e anita emil nolde enid blyton eugene smith eugénio de andrade evil genius fausto bordalo dias fenómenos paranormais francis bacon françois clouet fredrik marsh future bible heroes gaivota galiza garcía lorca geografia georges gonon-guillermas gilbert and george gógol e kureishi gonçalo m. tavares góngora HAL hans baldung grien hans cranach henrik ibsen hopper horas da ciência howe gelb hp5 húmus hyeyoung kim i'm going away to wear you off my mind ironia natalícia jan van eyck jason moran jerry lodriguss jesus na comida jornal do insólito josé barata moura josé carlos fernandes josé gomes ferreira josé mário branco josé tolentino mendonça Kafka sumiu keith jarrett keith johnson ken rosenthal king oliver's creole jazz band laura veirs lei bloguística leitura de sobrevivência león ferrari lewis carroll load "" louis jordan madrid maelesskircher manuel alvarez bravo maria schneider mario abbatepaolo martin parr matéria-prima mau feitio mauro fiorese michael brecker micheliny verunschk miguel rio branco miles davis mirah missy gaido allen momento fantástico do bicho escala estantes monk movimento televisão sem som neil gaiman nick brandt nietzsche noronha da costa o aforismo o piano de tom jobim o sono e os sonhos o'neill orquestra vegetal de viena os cavaleiros camponeses no ano 1000 no lago de paladru pão com manteiga pat metheny patience and prudence paul strand pedro salinas peggy washburn pentti sammallahti philip larkin philippe halsman piero de la francesca ponce de léon post de gaja preisner pronto-a-vestir quadrado fi Quadros que roubaria no Thyssen quino R.E.M. raïssa venables regina guimarães robert doisneau ruben a. rui knopfli ruy belo ruysdael sarastro schuiten e peeters sequoia sempervirens sérgio godinho shampoo casulo shannon wright sidney bechet simone de beauvoir sophia andresen soviet group stieglitz t.s.eliot tagsmustbedestroyed tennessee williams terry blaine the 1913 armory show tom chambers trem azul trepadeira universos múltiplos valerio magrelli velásquéz você é um idiota winslow homer xavier seoane yes prime minister yousuf karsh zeca zurbaran

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