30.11.04

Urgência



Oh mãe oh mãe eu preciso.

On The Edge Study


Andrew Wyeth

29.11.04

Centenário


do grande temporal de neve ocorrido em Madrid,
no dia 29 de Novembro de 1904.


Foi há 100 anos.

Registado com aviso de recepção

Missiva enamorada em caso perdido entregue sem delongas nem extravios na morada indicada. O remetente atormentado expõe mágoas presentes e dúvidas antigas. O destinatário não tem palavras mas tem uma secretária a quem dirige orientação no sentido de ser ela a escrever uma resposta. A secretária chama-se Dona Rosa. Tecla:

Cara Alice,
Nada mais há a dizer.
Registo, todavia, os sentimentos dados a conhecer.
Com os melhores cumprimentos e estima pessoal,
Xavier


Vai a assinar ao Dr. Xavier com a restante correspondência da empresa.
Segue imediatamente.

Leitura de sobrevivência # 5

O anexo à portaria n.º 421/2004, de 24 de Abril, que aprovou o regulamento de registo, classificação e licenciamento de cães e gatos, classifica os cães e os gatos (artigo 1.º): «Para os efeitos do presente diploma, os cães e os gatos classificam-se nas seguintes categorias:

a) A – cão de companhia;
b) B – cão com fins económicos;
c) C – cão para fins militares, policiais e de segurança pública;
d) D – cão para investigação científica;
e) E – cão de caça;
f) F – cão-guia;
g) G – cão potencialmente perigoso;
h) H – cão perigoso;
i) I – gato.»
_______________________
Ministérios das Finanças, da Administração Interna, da Agricultura, Desenvolvimento Rural e Pescas e das Cidades, Ordenamento do Território e Ambiente © 2004

26.11.04

Dava um bom rapaz para a Anita

Eu gosto dos filmes de menear-de-anca do Elvis. No romance de cordel costuma haver uma moça cheia de virtudes vagamente perdida no mundo e sem rumo. Vagamente, porque não se dá conta, perdida, porque de facto o está, não possuindo normalmente nem terra, nem família, nem laços de qualquer espécie, e sem rumo porque, se o tivesse, não poderia ser salva e não existiria história. Essa moça, nos filmes do Elvis é um moço: é o Elvis. A fazer de Elvis ou de Elvis com óculos escuros e sob pseudónimo. O Elvis chega do nada e vira qualquer aldeia havaiana do avesso, deixando as raparigas em ponto de alvoroço. Coisa que não espanta, pois o Elvis, apesar de vagamente perdido e sem rumo, é culto, meditativo, trabalhador, corajoso, sedutor, porém sério, sabe cantar e, por vezes, dança.

Quando canta o Elvis? Quando dança o Elvis? Nunca se sabe. Precisamente. Sendo certo que, esteja ele a lavar a louça, a reparar um automóvel, a camelo no deserto, se decidir cantar, das alturas celestias soará a orquestração necessária e, se estiver rodeado de pessoas, a essas pessoas será concedida a graça da dança.

Sempre que vejo filmes dele faço apostas a propósito das cenas em que ele vai cantar e dançar. Mais pelo acréscimo de gozo porque, é justo dizê-lo, esses momentos são sempre inesperados.


Elvis Culto / Elvis Pensador / Elvis Trabalhador


Elvis Corajoso / Elvis Sedutor / Elvis Sério


Elvis Cantor / Elvis Dançarino / Elvis nas Arábias

A meu favor

A meu favor
Tenho o verde secreto dos teus olhos
Algumas palavras de ódio algumas palavras de amor
O tapete que vai partir para o infinito
Esta noite ou uma noite qualquer

A meu favor
As paredes que insultam devagar
Certo refúgio acima do murmúrio
Que da vida corrente teime em vir
O barco escondido pela folhagem
O jardim onde a aventura recomeça.

Alexandre O'Neill

Woman at the window


Caspar David Friedrich

25.11.04

I'm Going Away To Wear You Off My Mind # 4

Há qualquer coisa desmesuradamente linda e que me entusiasma muito nos tais anos em que me encontro presa, ou melhor, nesta perspectiva, encantada. É o Dr. Jazz. heheh Em parte os retrocessos acontecem porque fico cheia de pena de avançar, de me distanciar, já que será difícil evitar, parece-me, que algo me faça ouvi-lo de outra forma. Eu agora consigo ouvi-lo de uma forma absoluta. Todo o som dele ri. E eu ainda gosto mais de rir do que de ouvir música, de modo que, quando as duas coisas se encontram de alguma forma indistintas, como acontece com este fenómeno, para mim, é o jackpot. Este homem metia bezerros no início das músicas e mentiu na idade, fazendo-se passar por mais velho, de forma a se arrogar ser ele (ele e só ele, como em "eu é que sou o Presidente da Junta") "the creator of jazz-stomps-&-swing".




Como posso avançar sem ouvir, ao menos em parte, as gravações da Biblioteca do Congresso?

"The year is 1938. In the quiet, well-lit environment of the Coolidge Auditorium, housed within the United States Library of Congress, a lone man sits at the piano, comping as he tells his life story. It is the story of a hustler, pool player, cardsharp, fight promoter, pimp, and musician, and it is peppered with outrageous claims, ribald tales, and remembrances of events that stretch the credulity of even the most generous listener. Periodically he punctuates his stories with full-fledged songs, the piano ringing out with knuckle-busting stomps, joined by high-spirited vocals singing often-bawdy lyrics. The recording machine that runs continuously, tended by the only other person present in the auditorium, captures all of this. [...]"

Um cálice sagrado, essa é que é essa, ouvir isto.

O que me arrepia mesmo quando penso na existência destas gravações, além de nelas Jelly Roll Morton contar a sua vida e tocar a sua música, é ele ser um tipo que esteve lá e contar como foi. Não é um livro de história. É mil vezes melhor: é a primeira pessoa do singular.

I'm Going Away To Wear You Off My Mind # 3

Isto é extremamente lento. Começou em Março deste ano e eu ainda não saí de New Orleans e não avancei além da década de 20. Estou constantemente a avançar e a retroceder para ouvir coisas que surgiram nesses primeiros vinte anos do século. Ler atrasa ainda mais as coisas. Mas também não tenho marcado nenhum exame. Posso dar-me ao luxo de passar o tempo que quiser em cada época e de ouvir cada música como se todas as outras ainda não existissem. Ou antes devo? Às vezes acho que devo. Que só pode ser assim.

I'm Going Away To Wear You Off My Mind # 2

O que ando a tentar fazer, na falta de uma máquina do tempo, é dar aos ouvidos aquilo que mais nenhum sentido meu pode ter. O livros ajudam a arrumar a informação e os sons, que se foram e vão acumulando, e a visualizar os tempos, porque inserem os factos num contexto mais amplo. Mas sobretudo ajudam a encontrar a música, a desamarrotar os anos antigos, de forma a que eu consiga ver neles os meses, os dias, e, em especial, as noites. Se eu procurasse e ouvisse antologias, sobrevoaria tudo isso, sem nunca chegar a descer. Mas eu quero as vielas, as ruas de terra, o som do frio nas noites de inverno, o cheiro do pó e do suor durante o estio, os motores lentos de alguns, poucos, carros, a porta entreaberta de um sítio suspeito e mal iluminado, o ruído das vozes e da música, o cheiro e o fumo do tabaco, entrar, estar lá da forma mais intensa que a imaginação permita, e ouvir.

I'm Going Away To Wear You Off My Mind


King Oliver's Creole Jazz Band

Bloody blog # 2

Já está. E com o bónus de, para o título do blog, eu ter encontrado o clássico azul que entra pelos olhos dentro e parece mover-se, do qual sou admiradora desde os quatro ou cinco anos, altura em que o descobri, maravilhada, numa revista dos meus pais.

É provável que isto, a médio prazo, resulte cansativo. Chegada a esse limite, porei fim aos dias vermelhos do Húmus e tentarei dar-lhe um aspecto menos excessivo, de suavidade martin-parriana. Qualquer coisa, sei lá, florida...

Bloody blog

Ando há meses à procura de um vermelho que acabe com o verde mortiço deste blog. Um vermelho excessivo que ainda assim permita continuar a escrever a preto. Desde Janeiro que de vez em quando procuro. Em vão. Mas hoje, sozinha e subitamente, compreendi o funcionamento dos RGB e dos CMY disto, declarei autonomia e independência face ao Colorizer e, autodeterminada, estou finalmente a aproximar-me.


Estou a aproximar-me muito.

Era só para avisar.

Não percebi

Como poderia um Super-Homem nietzscheano impedir um cidadão de se suicidar, quando, pelo suicídio, o cidadão quase ganharia o direito a existir?

24.11.04

Kafka sumiu mesmo

Dei pelo erro há um ou dois dias. Pensei que talvez tivesse estragado o link ao introduzir outro na lista dos blogs. Fui confirmar há pouco. Tudo bem com o meu link: Kafka sumiu. Kafka em Belo Horizonte, Volta de Kafka, Lupa do dia - tudo parado, como antes. Encontrei-os todos amotinados no Prosa e Poesia.

E agora? Como lê-lo? Como não lê-lo?

Vou ali fumar e já volto

Há qualquer coisa além da defesa da saudinha que alegra os não fumadores fundamentalistas por estes dias. Uma alegria no poder que podia até dar direito a farda, uma alegria parecida à que sentiram as mentes vitorianas com a aprovação da lei seca, um melindre moralista e moralizante, ressabiado, que, recalcado durante décadas, finalmente, encontra o seu escape.

E não é só o facto de cada não fumador fundamentalista ser agora um pequeno polícia com o seu pequeno planeta soberano para fiscalizar. É mesmo aquela coisa anterior e básica, que está dentro de todas as pessoas em menor ou maior grau, e na qual os pensamentos mais frágeis facilmente se inebriam: o homem, quanto mais pequeno é, mais gosta e mais precisa de exercer poder sobre. Sobre. Não interessa muito sobre o quê. À falta de melhor, sobre um cão, como disse Camus.

O essencial, todavia, é a imposição de si a outro, como se a identidade se formasse e a identificação se alimentasse das marcas exteriores deixadas sobre os outros, como se não houvesse a certeza de, em si, se ser alguma coisa. Agora é o tabaco, mas podia ser qualquer outra coisa. No fundo, os não fumadores fundamentalistas adoram ser fumadores passivos, coisa que lhes dá o direito de espernear como mais nenhuma.

Os que me rodeiam começam a implicar com o tabaco fumado a céu aberto. Ainda teremos ruas interditas. Não é a saúde, não, tem de haver disto em todos os tempos: uma forma legitimada de impor comportamentos aos outros, no plano das relações quotidianas entre particulares. E acho que depois de trinta anos sem ser possível denunciar os vizinhos à polícia por comerem criancinhas ao pequeno-almoço, já tardava, já fazia falta inventar um novo ascendente. E acho que, sem ser pela sua saudinha, a gente pequenina, que é muita, rejubila.

Eu, se não fumasse, começava agora a fumar.

As borbulhas

De vez em quando chegam zunzuns destes de Serralves. Há dois anos, era proibido ler na casa de chá. Agora, o Paulo conta que é proibido estudar no café-restaurante, nas só numas mesas, noutras não. Percebo que se dê andor a quem abanca horas a fio sem consumir. Mas a proibição de estudar não corresponde a imposições não respeitadas de consumo. Aplica-se mesmo a quem consome.

O que é que distingue um leitor de um estudante? O tamanho dos livros? A roupa? A quantidade de borbulhas?

23.11.04

Da dignidade poética dos fusíveis

– Olá avô, vim saber da prima Deolinda. O Luís contou-me que está doente. Que tem ela?
– Ficou subitamente cheia de malmequeres, depois com febre e agora está ali deitada, coitada. Estamos à espera do filósofo. Chamámos um lacrimoso. A tua prima parece ter tido um ataque de lamechice.
– A sério? Onde tem ela os malmequeres?
– Rebentaram pelo corpo todo esta manhã. Mas ontem ao fim da tarde já eu a achei muito estranha. Tinha estado cá um tipo da companhia da luz, a arranjar uma caixa de fusíveis do prédio, e fui dar com a tua prima nas escadas, a dizer-lhe que os fusíveis não têm a dignidade poética das estrelas.
– Oh!
– Foi uma vergonha. Meti-a logo em casa. Mesmo assim não se calou com aquilo durante o jantar e, enquanto tomávamos café, começou a cantar.
– A cantar o quê?
– Começou mesmo a cantar... que os fusíveis não têm a dignidade poética das estrelas. Estava já fora de si, decerto. Mas eu só quando a vi cheia de flores é que me apercebi da gravidade disto.
– Que situação. E como é este lacrimoso? Já tratou alguém da família antes? Tratou o Jorge, não foi?
– Não, o lacrimoso chora, não é? Quem tratou o Jorge durante a fase mística foi um sarcástico. Em boa hora o curou. Já havia música zen em todas as divisões da casa.

22.11.04

A música também é como as cerejas

Ouvir Mirah, "C'mon Miracle". Lembrar-me que não ouvi decentemente "Over the Sun", de Shannon Wright: ouvir "Over the Sun" e sentir saudades de "Flightsafety" que, quando saíu, há cinco anos, ouvi durante milhares de quilómetros, quase sempre de noite ou de madrugada. Sim, e da cereja tripla que me aconteceu esta noite, continuo a preferir "Flightsafety", embora seja de todos o mais triste. Não é que eu tenha ouvido mal "Over The Sun", quando saíu, ouvi e não gostei, como esta noite. E a voz de Mirah, sim, dá ares à de Shannon Wrigth e a de Shannon Wright, sim, dá ares à de Mirah. E cantam mais ou menos da mesma maneira. Uma voz de melancolia arrastada. Algo assim. O mesmo ritmo, o mesmo tom, a mesma forma de sussurrar, a mesma forma de afirmar os versos. E gosto de ambas mas nenhuma me enche as medidas. Sou viciada no "Flightsafety" da Shannon Wright, de forma desagradável, contra a minha vontade. Quer nesse cd, de que gosto, quer no deste ano (e são os únicos dela que conheço), a voz de Shannon Wright tem esta capacidade de me embalar num torpor retrospectivo extremamente triste que, enquanto a voz dela soa, me parece absoluto. Mas, sendo extremamente triste, não chega a ser uma tristeza intensa, como aquela que sinto quando ouço, por exemplo, o "Pink Moon" de Nick Drake: fico mal, mas vale a pena cada segundo, e, por outro lado, fico bastante bem, porque é muito muito bom ouvir aquele disco. A Shannon Wright irrita-me porque nem isso. É um torpor, só. Como ficar com preguiça em frente à televisão às duas da manhã e não ser capaz de desligar o aparelho e ir dormir e continuar, durante meia-hora, a ver as televendas, já sem forças para, sequer, rir. Não sei porquê. Agora mesmo estou a ouvir os três cds: o de Mirah porque estou a gostar, os de Shannon Wright porque não consigo parar. Talvez deva ir dormir.

Ah, e a voz da Mirah dá ares mas não é a mesma coisa. É muito mais bonita.

Ela sentou-se em desdobrar de guardanapo

"Deitadas as crianças em surdina de peganhentices o jantar aproximou-se de hora estabelecida e conduzida à mesa pelo instinto da cronologia Ela sentou-se em desdobrar de guardanapo. Em frente com mostarda inglesa a mestra contemplava os envelopes rendilhados. A sopa colherava-se pelos monossílabos da véspera onde a Miss de mentalidade infantil distraía a atmosfera culinária."

Ruben A. > Caranguejo
Assírio & Alvim

Momento divinatório

Um dia, serei um aforismo granuloso.

O Aforismo Absolutista

Um reinado paternalista é.

O Haiku Suicida

Além de ser muito chato
um reinado paternalista
é

O Aforismo Suicida

"Além de ser muito chato um reinado paternalista é"

Nesse momento, o Aforismo, que vinha a cair desde o 12º andar, chegou ao chão, onde a queda prometida e irreversível em grande velocidade contra o solo duro se concretizou, vindo o Aforismo a morrer, muito antes da chegada de qualquer ambulância.

O Aforismo desfez-se em verdades e escorreu. Dizem os amigos que nunca o viram tão bonito. Pedaços do corpo do Aforismo, que se conseguiram apanhar e meter em tubinhos de ensaio, não ficaram em câmara ardente nem foram acompanhados por admiradores até à última morada porque foram bebidos:

"O Aforismo é Cultura e a Cultura bebe-se, ao contrário das alfaces, que"

Os amigos do Aforismo eram todos muito cultos e bebiam muitas coisas, mas nenhum comia verduras - concluí eu, desta vez sem aspas.

Outros pedaços do Aforismo evaporaram e entraram no ciclo das águas vindo mais tarde a regar e a alimentar alfaces que, por sua vez, foram comidas por pessoas que nem conheciam o Aforismo.

SIM ou NÃO?

Que chá gosta mais de beber após infusão prolongada, a sua mãezinha como vai, faz questão de moer sempre o café imediatamente antes de o fazer ou até tolera, por vezes, o pré-moído, se a pedra de Sísifo fosse de rocha sedimentar teria a filosofia ocidental tomado um rumo tendencialmente ascendente ou descendente?

Welcome to the 1913 Armory Show



Introdução - aqui.
Galerias - aqui.

20.11.04

Julia Arnold, seated on unmade bed


Lewis Carroll
1872

18,5 GB

De música no computador. E não encontro sequer um princípio de banda sonora para uma mochila. Talvez num dos bolsos eu encontre a lista de supermercado. Terei de regressar e partir e regressar e partir e regressar e partir e regressar e. Onde foi que?

As mochilas que ninguém reclama

Nas estações. Suponho que se avança. Nas estações. E eu nem gosto de mochilas. Estar-se dentro porque não se está. E a descontinuidade, que é um ruído, cheia de perguntas. A lista do supermercado que foi para o lixo com os talões do multibanco tinha servido outros fins. Estava lá tudo. Ou a parte relevante.
- Onde foi que? Quando foi que?
- Caiu.
- Nem pensar. Onde?

“Lives without dining”

The round face of the grub-man peered upon me now. “His dinner is ready. Won’t he dine to-day, either? Or does he live without dining?”
“Lives without dining,” said I, and closed the eyes.
“Eh!—He’s asleep, aint he?”
“With kings and counsellors,” murmured I.

19.11.04

Vi televisão duas vezes

1. Hoje almocei mais cedo e no televisor da tasquinha a sic não estava a passar um noticiário mas um programa de entretenimento. Adoro a ideia entretenimento. Julgo que sirva para entreter e, segundo percebi, chama-se "10 Horas" e deve, portanto, começar às 10 da manhã. E que fizeram eles nos cinco minutos em que coexistiram com o meu almoço? Riram-se, disseram coisas imbecis, folhearam revistas idiotas e comentaram operações plásticas de figuras públicas que não conheço. Havia público. A música de elevador de fundo era, como acontece em geral com a música de elevador de fundo, muito má.

2. Ontem à noite fui comprar tabaco depois do jantar e no café via-se a Quinta das Celebridades, um programa mais grotesco do que eu supunha. Tinha ouvido dizer que dava muita vontade de rir e que pelo absurdo que era valia a pena ver um bocado. Também não entendo. Ok, são palhaços. Mas não é triste?

Discurso directo

Há dois dias, enquanto eu almoçava, um canal de televisão passava uma reportagem sobre aquela escola exemplar, em Chaves, que proibiu absolutamente o tabaco. Pessoas da escola eram entrevistadas.

Jornalista: Olá! Então, que achas desta nova medida?
Aluno: Acho bem, porque assim fico a saber que fumar mata.

18.11.04

Observação

A minha gata foge de Peter Brötzmann.

Grandpa's Spells


Dr. Jazz teria de aparecer, porque ando a ouvir a versão limpinha dos piano rolls há dois dias, outra vez. Mas estas versões menos limpinhas que há no RHJ, caramba, são irresistíveis. Ouvi o 1937-38 da Ella assim que cheguei, duas vezes, e depois liguei o computador de propósito para ir ao RHJ ouvir piano rolls de Jelly Roll Morton e ainda não ouvi mais além de "Grandpa's Spells" porque adoro a forma como o piano soa do meio para o fim. Adoro tudo, mas essa parte não me deixa passar a outros temas*.

___________

* Entretanto demorei uns minutos a editar o post como queria e neste momento estou a achar que o meio para o fim do tema é a partir do primeiro segundo. Acho que esta noite não vou conseguir ouvir mais nada. O Dr. Jazz era diabólico.

O Som

Pronto, comecei a pensar em Ella e fiquei cheia de saudades disto.



Não tenho tops, mas este disco está entre os meus mais intensos afectos musicais. Começa com ruído de disco velhinho, depois as primeiras notas de "Big Boy Blue" e a seguir a voz de Ella Fitzgerald aos 20 anos. É encantador do princípio ao fim. Nunca o empresto, não gosto de me separar dele. Ouço-o hoje assim que chegar a casa.

Ella


Ainda consigo ver depois de leitura em monitor de recorte de jornal sobre Ella Fitzgerald, com letra meio apagada e miudinha, nada mau. O recorte foi deixado no Jazz Portugal por causa do tal pai português de Ella, mas gostei sobretudo do tom do texto do recorte muito caseirinho e quotidiano e quase visualizei tudo aquilo, de forma que durante a leitura me pareceu que Ella ainda existia e que tudo aquilo era o presente. Destaque para o terceiro parágrafo de "Salada e peixe" (começa com "19.30 h - Entra em cena para o primeiro espectáculo") no terceiro e último recorte.

O Jazz Portugal, no boletim de dia 15, pede ajuda para desvendar o mistério do pai português de Ella Fitzgerald. Espero que o autor do recorte seja/fosse um humorista daqueles que gostam de experimentar limites e de dizer coisas erradas, de propósito, para no futuro intrigar os outros. Porque se fosse verdade seria terrível: imagino grande folclore na televisão e nas revistas ocas, de repente programas da manhã com Manuel Luís Goucha a tecer elogios a Ella perante um público constituído por velhinhas surdas, jornalistas a perseguir adolescentes na Rua Augusta para lhes perguntarem "Sabe quem foi Ella Fitzgerald?", como fazem com Camões de tempos a tempos, ou, pior, para lhes perguntarem coisas arrepiantes e muito provincianas como "Sabe que Portugal tem um Grande Nome no Jazz?". Depois, ia aparecer um presidente de uma junta de freguesia qualquer, muito perdida no mapa, e ia dizer "O pai da Ella era daqui". E vinham com ele três velhinhas explicar que a tia de uma delas era muito amiga do rapaz. Em tempos. E depois vinha o Goucha e levava os quatro para o programa e os quatro dariam entrevistas aos vários telejornais nos dois meses seguintes e talvez lançassem um disco porque "na nossa terra toda a gente tem boa voz, é do ar que é munto bom, não é de admirar que Ella...".

Seria um circo. Ella não merece.

17.11.04

As coisas que eu sonho #2

Perseguiu-me todo o dia e agora começava a desaparecer, e eu até queria e eu até senti vergonha quando me lembrei dele ao acordar, mas é demasiado bizarro para me dar ao luxo de o deixar ir: esta noite sonhei que o meu pai era um sacerdote maçónico cuja função era dar pós-sacramentos pagãos. Sobre este conceito de sacerdote, que, ligeiro, me ocorreu enquanto observava as actividades do meu pai, e que acabo de reproduzir, nada tenho a dizer, excepto que, naturalmente, estava a dormir e que, desconhecendo-o como o desconheço – na existência e na inexistência -, não posso avaliar a dimensão do absurdo neste sonho; suspeito, todavia, tratar-se de um record.

Presto

O ar das ruas cheira a lenha:
subitamente,
os meus avós estão todos vivos.

Onde chegará isto?

O "Camelo do Rei"? E não estão a divertir-se? Não acredito. E não se diga que é a minha leitura que não encontra aqui a devida vénia a um Rei Mago, mas antes excessiva confiança no trato e a abusiva utilização de expressão com um duplo sentido, não chegando o segundo a ser sequer subliminar, tal é a pujança da sua popularidade. A Língua é dúbia, mas só quando quem escreve o permite.

Ou será que - todo um outro mundo especulativo - quando se escreve sobre uma coisa com a qual não é suposto brincar, sendo que o "Camelo do Rei Mago Belchior" está, certamente, incluído no tabu religioso, se espera do leitor uma omissão respeitosa de gozo?

p.s. Entretanto, vi:

"HOJE:
OVELHA"

Pelos mesmos 1,45 € que a Virgem Maria com banho de prata. A igualdade de tratamento, em teoria, é louvável, mas neste caso, uma variaçãozita, ainda que simbólica, no preço das peças, segundo a hierarquia sagrada, não ficava mal. Que a Virgem custasse 1,46 € e a ovelha (ou uma ovelha?) 1,44 €, por exemplo, ganhavam o mesmo e era mais bonito. Pedirem pela Virgem Maria o mesmo que pedem por uma ovelha (ou pela ovelha?) acho indelicado e a Senhora, com razão, é capaz de não gostar.

15.11.04

Quem vir isto vai pensar que não sou uma pessoa de bem acima de qualquer suspeita

Sexta-feira instalaram-me jogos novos no computador: Neighbours From Hell e Evil Genius, para minimizar o vazio deixado por Mafia e Ghost Master (um jogo rápido demais para o giro que é ter uma equipa de fantasmas e amendrontar famílias até que fujam todos* da casa assombrada por nós).

Acho, porém, perfeitamente possível que jogos destes sejam compatíveis com o coração de manteiga que habita a minha pessoa caridosa. Mas já não acho normal que, quando dou as costas, personalizem o meu computador de forma infame. Como se eu, no meu perfeito juízo, pudesse ir longe ao ponto de brincar com coisas tão sérias como o nome dos discos.




Garanto que tomarei medidas.
________________
(*) Aos gritos, uma maravilha.

Conclusão das observações de Domingo

A minha gata quer um pombo.

Post tipicamente de gaja

Desenganem-se os teóricos, reduzam-se as sumidades doutrinárias à sua insignificância: há poucas coisas tão românticas como um gajo fazer-nos o jantar. Mete flores, livros de arte, discos e outras maravilhas a um canto.

Enxoval para aulas de italiano

Estava a fazer-me confusão não conhecer pessoas além de io, lui e lei. Procurei ajuda, escolhi um verbo e pedi a conjugação no presente do indicativo. Ainda temi que o programa partisse do princípio que as pessoas eram óbvias, mas não, é um bom programa:

Ridere

io rido
tu ridi
lui/lei ride
noi ridiamo
voi ridete
loro ridono

Não resisti e fui ver o particípio, há dois, um presente e um passado: ridente e riso, respectivamente. Não podia ter gostado mais. Só por prudência mantenho no título disto a eventualidade: eu quero esta música.

Mal começou e já estão a vender a Mãe!

"NÃO SE ESQUEÇA DE PEDIR
VIRGEM MARIA COM BANHO DE PRATA
POR APENAS 1.45 €" (*)

O que mais grave se torna quando não sabemos ainda, ao certo, se oferecem o Menino ou se o Menino é que oferece o presépio.

E o banho? Quem Lhe deu o banho? E como?

Isto sim devia ser motivo de preocupação, debate e votação na CEP.

(*) Hoje. Não me lembro se a nota estava no Jornal de Notícias ou no 24 Horas.

13.11.04

Sábado: não fazer nada


Georges Gonon-Guillermas

Contemplação

Havia um tempo em que me lembrava de tudo, mesmo das coisas mais insignificantes, que tinham ficado associadas a outras menos insignificantes, que tinham ficado associadas a coisas que fazia sentido ter guardado, que tinham ficado associadas às coisas mais insignificantes de outro dia qualquer. Era uma rede grande cheia de bifurcações e de informação cruzada. A cor das calças que vesti no segundo jantar de turma pós-licenciatura porque enquanto mudava a cassete com o Inédito de Jobim, que ouvia no carro por esses dias, a cinza do cigarro caiu e ao afastá-la aquele específico tom de castanho e a forma do tecido se tinham fixado. Portanto, se alguém daí a muito tempo me falasse nesse dia, eu diria "Sim!, lembro-me perfeitamente, era Sábado e eu fui almoçar com pessoas do meu curso e tu à noite ligaste-me: isso foi no dia 22 de Março." E se me dissessem "Olha que foi em Maio", eu diria "Não, porque em Abril já a senhora que ajuda lá em casa tinha queimado as minhas calças castanhas. Compreendes?" Olhavam para mim com desconfiança. Creio que passava por teimosa hábil, subtil e ardilosa. Quem poderia confirmar os factos que eu usava para chegar a uma data e aos pormenores de um dia específico ou de parte dele?

Depois passaram-se coisas que eu precisei esquecer e que estavam em todos os lugares da memória, mesmo no tacto. Mas a memória funcionava, certinha, como sempre. Foi necessário corrigi-la. Aprender a esquecer muito e depressa, aprender a não fixar, o que não se faz sem abrandar o pensamento. Fui falar com um amigo que me jurava ser capaz de olhar para o tecto durante tardes inteiras sem pensar em nada. Habilidade que eu, em segredo, desprezava.
- Contemplo o tecto?
- Não, isso é muito. Deitas-te no chão, por exemplo, e olhas para cima. Só.
- Sem música, sem nada?
- Nada.
- E para começar, pensas em quê?
- Em nada.
- Tem de haver uma sucessão de pensamentos que leve a nada, não pode ser de repente.
- Acho que há, mas já não te sei dizer o que é.

Um dia, consegui. Não sem antes pôr óculos nos olhos opacos e beatas velhas nos dedos esticados das estátuas que surgiam no tecto. Também já não me lembro o que veio a seguir. Excepto que a um dado momento, muito depois de abrandado o pensamento, esvaziada a memória e conquistada uma certa serenidade, estado que considerei imutável, dei comigo incapaz de escrever uma frase sem confirmar a exactidão de metade das palavras no dicionário. Palavras sempre escritas e sempre lidas e sempre escritas outra vez: no dia anterior, há cinco anos, há vinte anos. Estranhei o zelo passados meses. Não só pela estranheza propriamente dita, mas porque começou a ser irritante estar constantemente a abrir e a fechar o dicionário, porque nisso eu perdia cada vez mais tempo e me esquecia das frases que tinham pedido aquelas palavras. Porque, às tantas, no gesto de fechar o dicionário, compreendia que me esquecera também do que tinha acabado de ler. E porque, finalmente, numa tarde, me vi confirmar: pedra, chão, anis, fumo, til e água. Água.

11.11.04

O homem mente sempre quando fala de si próprio

Entre as recordações que cada um de nós guarda, algumas há que só contamos aos amigos. Há ainda outras que nem sequer aos amigos confessamos, que só a nós próprios dizemos e, mesmo assim, no máximo segredo. Finalmente, há coisas que o homem nem sequer se permite confessar a si mesmo. Ao longo da existência, toda a pessoa honesta acumulou não poucas destas recordações. Diria mesmo que a quantidade é tanto maior quanto mais honesto o homem. Eu, em todo o caso, não foi há muito que me decidi a recordar algumas das minhas antigas aventuras; até agora evitava fazê-lo, aliás com um certo desassossego. Porém agora, quando as evoco e desejo mesmo anotá-las, agora vou tirar a prova: será possível sermos francos e sinceros, pelo menos com nós próprios, e dizermo-nos toda a verdade? Observo, a propósito, que Heine afirma não poderem existir autobiografias exactas e que o homem mente sempre quando fala de si próprio. Em sua opinião, Rousseau enganou-nos à certa nas suas Confessions, e até deliberadamente, por vaidade. Tenho a certeza de que Heine tem razão: compreendo muitíssimo bem que nos possamos acusar de crimes abomináveis apenas por vaidade e também compreendo o que pode ser esse sentimento. Mas Heine tinha em vista as confissões públicas; ora, eu escrevo só para mim e declaro duma vez por todas que, se pareço dirigir-me ao leitor, é apenas um processo de que me sirvo para maior facilidade.


Dostoievsky > A Voz Subterrânea
Trad. Célia Henriques/Vitor Silva Tavares
& Etc, Setembro de 1989, pp.52-53


(imagem daqui)

Castanhas assadas

Algumas coisas são modas. Algumas coisas não são modas. Algumas modas, especialmente nas roupas, acabam parecidas com a pele e desaparecem. A minha geração já não usa fatos-de-treino azuis escuros com riscas brancas de lado. A minha geração deu turmas de miúdos e miúdas vestidos com fatos-de-treino azuis escuros com riscas brancas de lado. Miúdos com a mania da diferença tinham uns que eram pretos e eram olhados de lado. Sinto falta de angústias de existir medidas em milénios. Daquelas permanentes. Mais ou menos. Isso ou chover pouco este Inverno.

10.11.04

A alegria quer a profunda eternidade

Homem, ouve!
Que diz a meia-noite com a sua voz grave?
«Eu estava mergulhado no sono,
Emergia de um sono profundo.
«O universo é profundo, profundo!
Mais do que o dia pode imaginar.
Profundos são o seu mal e a sua dor,
Mais profunda ainda é a sua alegria.
A dor diz: «Passa e perece!»
Mas a alegria quer a eternidade,
Quer a profunda eternidade.»

Friedrich Nietzsche
Canto da embriaguez | Assim Falava Zaratustra
Trad. Alfredo Margarido para a Guimarães
(11ª edição, 1997, p. 364)

Para onde vai este saxofone?

O Trem Azul apanha-se desde 14 de Outubro na Rua do Alecrim, n.º 21-A, descendo umas escadinhas logo a seguir à ponte, quando se está quase a chegar ao Cais do Sodré. Se não chover, as janelas devem estar abertas sobre a rua do Jamaica, relativamente à qual a loja já é alta (não me lembro como se chama a rua do Jamaica, mas é a típica rua que merece jazz vindo de cima e com isso de certeza que em baixo o filme se vai adensar). Há três sofás, leitores de cds e um cinzeiro de mola. Ouve-se jazz quando se entra, enquanto se está e algum tempo depois de sair. E quem lá está fala a mesma língua que nós. Muito bom. Os destinos são à escolha e os bilhetes variados: para qualquer lugar do jazz.

9.11.04

Estou doente

Ainda. Com o "Live in Tokyo", do Brad Mehldau. Num post sobre outro disco consegui ocupar um parágrafo com o "Live in Tokyo" e quando fui confirmar se o link para o preview estava a funcionar quase ia desligando o "Nearness of you" por causa daquele começo esmagador com "Things Behind the sun". Mas resisti. Não pode ser. Uma coisa de cada vez. É o que o meu pai me anda a dizer desde sempre, esperançoso de ver curada a minha tendência compulsiva e violenta para a indecisão dispersiva.

"Nearness of You: The Ballad Book" - Michael Brecker

Não estou a ouvir os cds ao lado todos ao mesmo tempo, mas não tenho ouvido outros nas últimas duas semanas, com excepção do "Live in Tokyo" de Brad Mehldau, que ando a ouvir há mês e meio em sessões mais ou menos doentias e com grande fixação no tema de Radiohead e nos de Nick Drake (que pena o cd não trazer também o "50 ways to leave your lover", de Paul Simon, que está disponível no site).

No fim-de-semana passado um amigo apareceu cá em casa com este "Nearness of you" e eu, depois de ouvir a primeira faixa, expliquei-lhe que, não acreditando nenhum de nós em milagres, teríamos de realizar, antes dele se ir embora, o milagre da multiplicação. Não sei como conseguimos, mas ficou cá um para mim.

O Allmusic, ex-páginas-amarelas-da-música, hoje azuis, agora, além de estar mais pesado, pede-nos que façamos login para aceder aos créditos dos discos, mas o milagre saiu com ficha técnica e tudo:

Michael Brecker - tenor sax
Pat Metheny - guitars
Herbie Hancock - piano
Charlie Haden - bass
Jack DeJohnette - drums
James Taylor - vocals (2, 5)

Eu tenho andado no céu com este disco. Apetece sobretudo ouvi-lo à noite e, uma vez a soar, por muito cansada que esteja, acordo. Não ando a dormir nada bem por causa disto.


Eclectismo jornalístico

Fui ver esse fenómeno de cor e movimento que é qualquer primeira página do "24 Horas" que se preze e quando entrei no site tropecei em notícia sobre descarrilamento de comboio em Inglaterra provocado por suicida: "não quiz morrer sozinho", escrevem.

A primeira página de hoje traz destaques sobre a Quinta das Celebridades, o processo Casa Pia e a roupa interior de Jorge Gabriel. Tudo junto. Isto sim é amar o povo: saudável entretenimento, actualidade nacional e factos curiosos a respeito de celebridades, tudo na mesma publicação. E uns erros à mistura, não porque não saibam escrever, estou certa, mas para evitar melindres entre as pessoas singelas.

8.11.04

O homem mediterrânico de anorak. Visualizar conceitos. Desvio.

Ocorreu-me agora. O homem mediterrânico de anorak, luvas, cachecol, cheio de frio, contente, a beber chocolate quente e a ler Dostoievski. O "Recordações da Casa dos Mortos". E eu que sempre o tinha imaginado descalço e de calções, num terraço caiado, à sombra, a temperar uma salada com azeite e coentros, a beber uma cerveja e a ler, indolentemente, Ésquilo. "As Suplicantes".

POP carpe diem

- Na próxima semana tenho um dia de férias.
- Ai sim? Vais para onde?
- Fico em Lisboa.
- Mas, mas... tens de ir a qualquer lado. Que vais fazer em Lisboa?
- Ver filmes.
- O que é isso?
- Faço um plano, compro bilhetes e entro nas salas. Em princípio, um dia dá para quatro.
- Vais gastar um dia de férias para te meteres no cinema? Que desperdício! Ao menos vais fazer isso na Segunda?
- Não, saber que no dia seguinte é Sábado também é um activo.
- Um escândalo...
- Podia não ir ao cinema, podia tirar o dia só para não estar aqui. Dormia bem de manhã e à tarde não fazia nada.
- Um dia vais arrepender-te de aproveitar tão mal a vida. Há umas camisolas de senhora fantásticas em saldo no Corte Inglês, já as viste? Olha que não esperam por ti.

7.11.04

País

En el agua negra,
árboles yacentes,
margaritas
y amapolas.

Por el camino muerto
van tres bueyes.

Por el aire,
el ruiseñor,
corazón del árbol.

García Lorca
Suite del Agua

Na mercearia (ou a explicação do Direito)

- Boa noite.
- Bom dia.
- Como, se já passa da uma da manhã?
- Oficialmente só podemos estar abertos até às sete da tarde, caríssimo senhor.
- Mas agora estão abertos à uma da manhã.
- Oficialmente, estamos fechados: bom dia.

Pronto, arrumei a casa

Quando o Húmus começou não era suposto ter imagens, passagens de livros, capas de cds. Agora terá de ter espaço também para essas coisas quando for caso disso e tudo terá de coexistir. Não percebo ainda como.

Vou fazer imediatamente uma experiência com uma senhora que nunca abandona completamente o meu pensamento.


Mary Schneider
(a Yodelona)

Não é que nunca me abandone mesmo. E só me acompanha desde Março ou Abril deste ano, porque antes eu não tinha tido o prazer. Supostamente esta senhora canta a sério. Mas tenho em meu poder - gosto muito desta expressão - um mp3 de um programa de rádio onde Mary Schneider canta "Starway to Heaven" e ri dela com os que riem dela nesse programa.

Espero nunca vir a encontrar um mp3 semelhante da Natália de Andrade.

p.s. Não confundir com Maria Schneider. Lapsos verbais são perdoáveis, porque compreensíveis. Já não, dizer-se de Maria Schneider que "tem uma voz extraordinária, não é?", como a senhora da loja onde comprei o "Coming About".

5.11.04

A torta de açúcar

Uma amiga escreveu-me a dizer que, pelos vistos, eu como as tortas que só sabem a açúcar. MENTE!

Dúvida

Quem comerá aquelas tortas clássicas de pão-de-ló enrolado em qualquer coisa castanha escura que devia saber a chocolate mas que só sabe a açúcar?

As coisas que eu sonho

No último sonho que tive soube a partir da primeira cena - e era uma cena - que estava a sonhar. Era Lisboa, não sei em que ano, e acontecia um terramoto. Na primeira cena eu estava dentro de uma nuvem ruidosa e movediça de pó e pedras. Suponho que sobrevivi. Depois? Depois a cidade estava destruída e, por qualquer razão que não consegui compreender, a organização política do país, como a conhecemos, tinha sucumbido. Havia uma anarquia generalizada e uma espécie de ilhas ou de guetos com uma organização muito precária, que garantiam segurança e serviços mínimos e que impunham regras absurdas àqueles que aceitavam viver lá. Fora dos guetos a violência era total. Esses guetos funcionavam em alguns quarteirões da cidade, aqueles que tinham permanecido de pé, e em redor dos quais se tinham erguido muros. Os guetos eram mais ou menos proibidos, também não consegui compreender porquê, uma vez que não me pareceu que existisse qualquer autoridade capaz de impor ou proibir fosse o que fosse. Seja como for, oficialmente, os guetos eram só empresas de recursos humanos. E quem quisesse ser admitido no gueto tinha de passar por um momento burocrático e fazer de conta que procurava emprego. Dentro dos guetos havia tudo o que há na vida, mas era tudo muito sujo e muito básico. Por exemplo, em duas assoalhadas degradadas, consideradas um luxo por terem paredes e tecto, viviam no mínimo seis pessoas. Havia pessoas a dormir nos patamares dos prédios. As pessoas eram grotescas, como num espectáculo de circo: tentavam continuar como se nada fosse e imitavam as formas de tudo o que tinha sido perdido, mas só as formas, mais nada. Como aquela alegria dos palhaços que é toda só pintada. Foi por isso que pensei nos circos. E as regras impostas ou eram medievais ou eram só absurdas. Não havia como confiar em ninguém. Lisboa estava irreconhecível, completamente destruída.

4.11.04

Pois faltava

"Os subscritores de jazzportug@l já são mais de 5.000 e só para eles que somos fica esta para acabar: a caminho vem um recorte antigo de um jornal diário português onde numa peça escrita e média de tamanho se afirma - Ella Fitzgerald era filha de um português! Só nos faltava mais esta..." - Boletim #140 * 01-11-2004 *.

Só eu vejo o que mais ninguém vê.

É impressionante como é difícil aceitarem-se as decisões das pessoas. Admitir que os outros podem decidir coisas. Não passa pela cabeça dos que não conseguem viver sem teorias da conspiração que não acreditar naquilo que lhes é dito e perder uns minutos a imaginar possibilidades alternativas é, de certa forma, uma ingerência e, novamente, não respeitar a liberdade de decisão dos outros.

Fora isto, as teorias da conspiração são sempre mais divertidas do que outra coisa qualquer porque, normalmente, os que são capazes de as gerar precisam delas, entre outras coisas, para se indignarem e a indignação de tais desesperados costuma ser hilariante.

As pessoas precisam ou gostam de dramas? Não sei, não entendo. Tudo isto é muito telenovelesco, as teorias da conspiração são muito telenovelescas... pena eu ter perdido, por exemplo, o link com a triste história do Germano. Pobre Germano, esse não é/era paranóico, mas uma verdadeira vítima.

3.11.04

O princípio da Fé

1.º Todas as coisas da cozinha levam à sua parte mais alta: do chão para a cadeira, da cadeira para a bancada, da bancada para o frigorífico, do frigorífico para a lâmpada do tecto e desta para a parte de cima dos armários.

2.º Todas as coisas da cozinha existem com o propósito de permitir chegar à sua parte mais alta. O frigorífico, por exemplo, dá peixe, que é energia para saltar.

3.º Se uma destas coisas falha, já nada disto resulta. Logo, a organização da cozinha é fruto da inteligência divina de um ser superior, criador de todas as coisas.

Como explico eu à minha gata que ninguém pensou nela enquanto se arrumava a cozinha e que a aparente perfeição dos trampolins não passa de um mero acaso? O princípio da Fé: confundir-se adaptabilidade com propósito.

húmus

a alcoviteira andarilha a luz nas telhas a noite dança alec soth alex maclean alexandra boulat alfredo cunha alice in chains allo allo andou prometeu a roubar fogo aos deuses para isto andré kertész andrew wyeth antibalas anywhen arizona amp and alternator armi e danny arthur dove as árvores aulas de CC bach bartleby beatles bergman bill evans bompovo brad mehldau brecht bunny suicides calexico camponesa camus carl sandburg carlos paredes carta topográfica de lisboa caspar david friedrich cassandra wilson cato salsa experience centenário do grande temporal centrifugação blogger charlie parker chico buarque christian schad christopher r. harris cig harvey coisas que ninguém diz e que toda a gente sabe dan nelken daniel blaufuks dave holland dave mckean decisions deus inventou o sexo diário de bordo ditty bops divas dostoievsky dr. jazz dylan thomas e. e. cummings el greco ella fitzgerald elvis e anita emil nolde enid blyton eugene smith eugénio de andrade evil genius fausto bordalo dias fenómenos paranormais francis bacon françois clouet fredrik marsh future bible heroes gaivota galiza garcía lorca geografia georges gonon-guillermas gilbert and george gógol e kureishi gonçalo m. tavares góngora HAL hans baldung grien hans cranach henrik ibsen hopper horas da ciência howe gelb hp5 húmus hyeyoung kim i'm going away to wear you off my mind ironia natalícia jan van eyck jason moran jerry lodriguss jesus na comida jornal do insólito josé barata moura josé carlos fernandes josé gomes ferreira josé mário branco josé tolentino mendonça Kafka sumiu keith jarrett keith johnson ken rosenthal king oliver's creole jazz band laura veirs lei bloguística leitura de sobrevivência león ferrari lewis carroll load "" louis jordan madrid maelesskircher manuel alvarez bravo maria schneider mario abbatepaolo martin parr matéria-prima mau feitio mauro fiorese michael brecker micheliny verunschk miguel rio branco miles davis mirah missy gaido allen momento fantástico do bicho escala estantes monk movimento televisão sem som neil gaiman nick brandt nietzsche noronha da costa o aforismo o piano de tom jobim o sono e os sonhos o'neill orquestra vegetal de viena os cavaleiros camponeses no ano 1000 no lago de paladru pão com manteiga pat metheny patience and prudence paul strand pedro salinas peggy washburn pentti sammallahti philip larkin philippe halsman piero de la francesca ponce de léon post de gaja preisner pronto-a-vestir quadrado fi Quadros que roubaria no Thyssen quino R.E.M. raïssa venables regina guimarães robert doisneau ruben a. rui knopfli ruy belo ruysdael sarastro schuiten e peeters sequoia sempervirens sérgio godinho shampoo casulo shannon wright sidney bechet simone de beauvoir sophia andresen soviet group stieglitz t.s.eliot tagsmustbedestroyed tennessee williams terry blaine the 1913 armory show tom chambers trem azul trepadeira universos múltiplos valerio magrelli velásquéz você é um idiota winslow homer xavier seoane yes prime minister yousuf karsh zeca zurbaran

tralha

cavaleiros electrónicos

oscavaleiroscamponesesATyahooDOTcom