7.9.16

os beatos

os beatos têm sempre um sorriso bondoso
que sorriem da mesma forma para o mais perfeito desconhecido
para a família e para os amigos
próximos e distantes.

 é um sorriso que brilha no esmalte dos dentes muito brancos
(os beatos não descuram as idas ao dentista
porque os beatos gostam de ficar bem nos retratos).

os beatos desejam bem a todas as pessoas:
o bem de deus, por isso não gastam o seu.

os beatos têm a certeza
e olhos de ter a certeza
e um sorriso certo, que não vacila,
que não começa a começar nem a acabar:
um sorriso que se acende e se apaga
num instante
eficientemente
como todos os electrodomésticos.

20.7.16

Cidade ininterrupta


Nos últimos doze meses, achei que podia viver em três cidades mais pequenas que Lisboa: Caldas da Rainha, Faro e Amarante.

Nas Caldas, porque está perto da praia, tem muita arquitectura arte nova, no centro tem um parque e no centro desse parque há o museu José Malhoa. Se eu vivesse lá, ainda que gastasse as ruas andáveis em pouco tempo, depois teria sempre o museu. Nunca me farto dos museus de que gosto, vou só variando os quadros preferidos. Ah, os cinemas e a rodoviária também são no centro. E tem um centro de artes. E cenas giras, grotescas e giras e grotescas do Bordallo. E mais meia dúzia de museus.

Em Faro, porque as casas da parte ribeirinha são caiadas, têm pedra castanha clara e telhas antigas de cor vermelha mortiça. E há uma luz de mar larga, dura e contrastada. Eu tinha saudades desta luz e nem adivinhava. Eu não sabia que havia luz assim depois do trabalho me ter roubado as noites. Se a luz do dia tem esta claridade toda, em Faro, as noites têm de ser grandes também. A parte de Faro adjacente à cidade velha é mais comercial, mas tem arquitectura dos anos 40 e 50 e anterior em quantidade suficiente para ser interessante.

Em Amarante, porque tem um rio e uma ponte de granito mesmo no centro, espaços de lazer construídos em cima do rio, árvores enormes e as suas sombras, truta grelhada ao pontapé nas ementas dos restaurantes, o museu do Amadeu e um mercado municipal inacreditável, também à beira rio, em que se vendem aves de criação, roupa interior, fruta e vestidos de cerimónia, tudo no mesmo corredor. Em Amarante recebem tão bem que oferecerem concertos do Tom Zé às visitas. 

Viver um ou dois ou três anos. Porque tudo sempre se resume a uma questão: se uma cidade é suficientemente antiga e grande para haver sempre algo a descobrir. Se é suficientemente grande para que nos possamos sempre perder nas zonas antigas. Se o centro e todos os serviços adjacentes são acessíveis a pé. Se a malha urbana nunca se quebra e não se corre o risco de decidir ir a pé a um sítio e de repente haver uma via rápida onde é desagradável, chato ou perigoso andar. 

E há duas outras questões fundamentais: se as escolas não se interrompem e não há idades de aprendizagem interdita; se a gastronomia do mundo é variada e abundante. Se a resposta à primeira pergunta for positiva, estas duas também são. 

11.3.15

Mistérios do mundo #2

leio que o decreto-lei n.º 50/2014 estabelece o regime jurídico aplicável ao licenciamento das estações radioelétricas instaladas a bordo de aeronaves e lembro-me das pessoas que usam bonés com hélices do José Carlos Fernandes.

e penso, com tristeza, que ninguém nunca criou um blog chamado biblioteca de alterne.

3.3.15

Mistérios do mundo #1

Quem é que gosta de azeitonas oxidadas? 

2.3.15

17.2.15

O meu avô faria anos hoje.
Cada vez que mudo de cidade adapto-me, passo a achar os espaços anteriores mais acanhados e a sentir-me claustrofóbica nos regressos. Beja é a excepção. Foi lá que me ensinaram Astronomia. O céu e o tempo da minha infância são enormes. E aquele castelo é um super relógio de contar séculos. Temos dois ou três anos de idade e já nos contaram mil histórias sobre os povos que foram e que vieram e que à vez tomaram a cidade.
É também em Beja que vive o fantasma bom do meu avô. Enquanto fui criança só vivi em casas perfeitamente novas, de paredes brancas e limpas, sem sombras, sem recantos, sem ninhos de tralha ou a possibilidade dos tesouros ou dos monstros. Sem segredos. Isto aborrecia-me em contraste com a casa da minha família no Norte e em contraste com os livros, especialmente a partir da fase dos Cinco e das passagens secretas. Mas depois, na casa do meu avô, onde não havia brinquedos nem canetas de cores, não sabia bem como brincar. Tinham-me mais ou menos proibido ou pedido para eu não ler quando ia ter com os avós ou os primos. Foi então que o meu avô começou a virar caixas de detergente do avesso, para chegar à cor e à textura do cartão, a restaurar-lhes a forma, a abrir-lhes janelas e portas e a alinhá-las no quintal, formando pequenas cidades. E este foi o meu primeiro sim city.

16.2.15

húmus

a alcoviteira andarilha a luz nas telhas a noite dança alec soth alex maclean alexandra boulat alfredo cunha alice in chains allo allo andou prometeu a roubar fogo aos deuses para isto andré kertész andrew wyeth antibalas anywhen arizona amp and alternator armi e danny arthur dove as árvores aulas de CC bach bartleby beatles bergman bill evans bompovo brad mehldau brecht bunny suicides calexico camponesa camus carl sandburg carlos paredes carta topográfica de lisboa caspar david friedrich cassandra wilson cato salsa experience centenário do grande temporal centrifugação blogger charlie parker chico buarque christian schad christopher r. harris cig harvey coisas que ninguém diz e que toda a gente sabe dan nelken daniel blaufuks dave holland dave mckean decisions deus inventou o sexo diário de bordo ditty bops divas dostoievsky dr. jazz dylan thomas e. e. cummings el greco ella fitzgerald elvis e anita emil nolde enid blyton eugene smith eugénio de andrade evil genius fausto bordalo dias fenómenos paranormais francis bacon françois clouet fredrik marsh future bible heroes gaivota galiza garcía lorca geografia georges gonon-guillermas gilbert and george gógol e kureishi gonçalo m. tavares góngora HAL hans baldung grien hans cranach henrik ibsen hopper horas da ciência howe gelb hp5 húmus hyeyoung kim i'm going away to wear you off my mind ironia natalícia jan van eyck jason moran jerry lodriguss jesus na comida jornal do insólito josé barata moura josé carlos fernandes josé gomes ferreira josé mário branco josé tolentino mendonça Kafka sumiu keith jarrett keith johnson ken rosenthal king oliver's creole jazz band laura veirs lei bloguística leitura de sobrevivência león ferrari lewis carroll load "" louis jordan madrid maelesskircher manuel alvarez bravo maria schneider mario abbatepaolo martin parr matéria-prima mau feitio mauro fiorese michael brecker micheliny verunschk miguel rio branco miles davis mirah missy gaido allen momento fantástico do bicho escala estantes monk movimento televisão sem som neil gaiman nick brandt nietzsche noronha da costa o aforismo o piano de tom jobim o sono e os sonhos o'neill orquestra vegetal de viena os cavaleiros camponeses no ano 1000 no lago de paladru pão com manteiga pat metheny patience and prudence paul strand pedro salinas peggy washburn pentti sammallahti philip larkin philippe halsman piero de la francesca ponce de léon post de gaja preisner pronto-a-vestir quadrado fi Quadros que roubaria no Thyssen quino R.E.M. raïssa venables regina guimarães robert doisneau ruben a. rui knopfli ruy belo ruysdael sarastro schuiten e peeters sequoia sempervirens sérgio godinho shampoo casulo shannon wright sidney bechet simone de beauvoir sophia andresen soviet group stieglitz t.s.eliot tagsmustbedestroyed tennessee williams terry blaine the 1913 armory show tom chambers trem azul trepadeira universos múltiplos valerio magrelli velásquéz você é um idiota winslow homer xavier seoane yes prime minister yousuf karsh zeca zurbaran

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