Nos últimos doze meses, achei que podia viver em três cidades mais pequenas que Lisboa: Caldas da Rainha, Faro e Amarante.
Nas Caldas, porque está perto da praia, tem muita arquitectura arte nova, no centro tem um parque e no centro desse parque há o museu José Malhoa. Se eu vivesse lá, ainda que gastasse as ruas andáveis em pouco tempo, depois teria sempre o museu. Nunca me farto dos museus de que gosto, vou só variando os quadros preferidos. Ah, os cinemas e a rodoviária também são no centro. E tem um centro de artes. E cenas giras, grotescas e giras e grotescas do Bordallo. E mais meia dúzia de museus.
Em Faro, porque as casas da parte ribeirinha são caiadas, têm pedra castanha clara e telhas antigas de cor vermelha mortiça. E há uma luz de mar larga, dura e contrastada. Eu tinha saudades desta luz e nem adivinhava. Eu não sabia que havia luz assim depois do trabalho me ter roubado as noites. Se a luz do dia tem esta claridade toda, em Faro, as noites têm de ser grandes também. A parte de Faro adjacente à cidade velha é mais comercial, mas tem arquitectura dos anos 40 e 50 e anterior em quantidade suficiente para ser interessante.
Em Amarante, porque tem um rio e uma ponte de granito mesmo no centro, espaços de lazer construídos em cima do rio, árvores enormes e as suas sombras, truta grelhada ao pontapé nas ementas dos restaurantes, o museu do Amadeu e um mercado municipal inacreditável, também à beira rio, em que se vendem aves de criação, roupa interior, fruta e vestidos de cerimónia, tudo no mesmo corredor. Em Amarante recebem tão bem que oferecerem concertos do Tom Zé às visitas.
Viver um ou dois ou três anos. Porque tudo sempre se resume a uma questão: se uma cidade é suficientemente antiga e grande para haver sempre algo a descobrir. Se é suficientemente grande para que nos possamos sempre perder nas zonas antigas. Se o centro e todos os serviços adjacentes são acessíveis a pé. Se a malha urbana nunca se quebra e não se corre o risco de decidir ir a pé a um sítio e de repente haver uma via rápida onde é desagradável, chato ou perigoso andar.
E há duas outras questões fundamentais: se as escolas não se interrompem e não há idades de aprendizagem interdita; se a gastronomia do mundo é variada e abundante. Se a resposta à primeira pergunta for positiva, estas duas também são.