O melhor do Campo Santana* é ser esplendoroso.
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* A seguir ao Doutor, evidentemente.
6.5.05
7.4.05
São Bento
(maior aqui)
(maior aqui)
A primeira fotografei-a porque ultimamente vejo lódãos em toda a parte (eu sei) e fiquei contente por encontrar um tão grande ontem à tarde, sobretudo porque me dei conta quando passava debaixo, naquela sensação fenomenal que assalta muitas vezes os distraídos: se-fosse-um-cão-mordia-me. O cheiro fez-me parar e olhar para ela, as folhas e o tronco confirmaram a suspeita. A segunda não sei o que é. Gosto da escala que impõe ao casario e à gente que passa.
Estas árvores estão em frente ao Palácio. Temi que os seguranças me aborrecessem quando levei a mão ao bolso para ir buscar a máquina. Mas correu tudo bem e no fim ainda consegui desviar os pés de regresso ao bom caminho, depois de terem, sozinhos, começado a andar na direcção da livraria parlamentar. Uma das minhas livrarias preferidas. Ah, pois é. Felizmente também fazem a Feira do Livro e uma vez por ano chega-me. Confesso que me faltam números raros dos Relatórios do Provedor à Assembleia da República e que isso me assombra o coração. E feliz, feliz a sério, só fico quando leio as conversas em família:
«Disse o grande governador de Moçambique António Enes num dos seus relatórios que explorar a bebedice do indígena era o principal objectivo da actividade agrícola e comercial da província. E acrescentou que «o indígena trabalhava para poder embriagar-se, e bebeu, bebe e há-de beber sempre».
É evidente que o indígena consumia, como ainda consome, especialmente bebidas cafreais, ou sejam as obtidas geralmente por fermentação de frutos, cereais, miolo de cana de açúcar, etc.; e são tão nocivas que em 1905 a Associação Comercial de Lourenço Marques propôs a proibição da sua importação ali, por arruinarem a saúde do indígena, e acentuou que era uma mixórdia sem nome, que, a pouco e pouco, envenenava a raça indígena.
Vozes: - Muito bem !
O Orador: - Também Freire de Andrade referiu, nos seus relatórios de 1907, 1909 e outros, os inconvenientes do uso de tais bebidas, dizendo que elas enfraqueciam, dia a dia, as raças indígenas, tão propunhas a embriaguez por vício inveterado. E manifestou-se no sentido de que, embora o indígena prefira o vinho, o uso ou abuso daquelas bebidas só podia ser impedido mediante uma fiscalização enérgica.
Ignoro se existem actualmente medidas gerais proibitivas ou restritivas do fabrico das bebidas cafreais e que sejam eficientes; mas sei que as há limitativas de venda dos vinho comuns, pois essa está quase impedida, pelo menos no distrito da Beira, onde é muito difícil obter licença ou alvará para venda de vinho a retalho; e, assim, não admira que o indígena, além das bebidas cafreais, chegue a ingerir álcool desnaturado, perfumes e outros ingredientes inconcebíveis. Uma espécie de cocktail indígena, talvez servido com jazz de batuque ...» (1955-01-27, Assembleia Nacional)
Como não gostar desta transparência? "o indígena trabalhava para poder embriagar-se, e bebeu, bebe e há-de beber sempre". Sempre que ruído em excesso se instala na comunicação social (cada vez mais frequente), em alturas de eleições e outras, vou ler debates da 2ª República. Estão lá a transparência do passado e, por comparação, a explicação de muitos tiques e achaques presentes... ou a demagogia quando não era vergonha explicada às crianças do futuro. É água mole em pedra dura, mas gosto de coisas de lenta apreensão, como esta da percepção dos estilos - saber como fala quem quer mandar em mim:
«O rapaz até que não é burro
tem é falta de uso
mete o nariz onde não é chamado
como um parafuso
ó meu rapaz, tu só és senhor
do nariz que é teu
aqui paro para explicar uma coisa:
é que o rapaz sou eu
e assim fala quem quer mandar em mim
e assim fala quem quer mandar em mim
e assim fala quem quer mandar em mim
não protestes
não desfiles
não contestes
não refiles
já joguei ao boxe, já toquei bateria (trapum)
p´ra ver se me livrava desta energia
nada feito, que arrelia
isto no fim não passa de uma fase
que passa com o uso
foi muita liberdade de uma vez
e o rapaz está confuso
agora é tempo de apertar com ele:
olha, acabou-se a farra
ai, ai que este país está de pantanas
e não há quem o varra
assim fala quem já me quis varrer
assim fala quem já me quis varrer
assim fala quem já me quis varrer
não protestes
não desfiles
não contestes
não refiles
já joguei ao boxe, já toquei bateria (trapum)
p'ra ver se me livrava desta energia
nada feito, que arrelia
durante algum tempo foi necessário
pôr o rapaz a uso
pô-lo a gritar sobre o prestigio pátrio
e o orgulho luso
agora só nos faltava ele querer
virar o feitiço
contra o feiticeiro que o pôs a render
é que nem pensar nisso
assim fala quem me pôs a render
assim fala quem me pôs a render
assim fala quem me pôs a render
não protestes
não desfiles
não contestes
não refiles
já joguei ao boxe, já toquei bateria (trapum)
p'ra ver se me livrava desta energia
nada feito, que arrelia»
5.4.05
4.4.05
Celtis australis (eu pedi paciência)
Nesta página encontrei isto:
É um tronco bonito, não é? Com a vantagem de ficar negro em contacto com a água e de produzir noites de Inverno sinistras e mágicas. O verde escuro das folhas é verdade e acontece na agonia do Verão, lá para Agosto, Setembro. As folhas nascem num tom entre o verde alface transparente e o dourado e a partir daí, até ao Verão, todos os dias (e isto não é mais um dos meus exageros) o verde muda de tom, e olhar para elas é um grande júbilo. Por estes dias, as folhas das minhas árvores são de cor verde vivo e a praça está completamente transfigurada. As árvores rivalizam com os prédios, com os automóveis e com o som da cidade e estão tão bonitas que a tudo oferecem redenção. E isto não é poesia, caramba, isto é o mundo que interessa, o mundo onde nos medimos. E eu gosto.
Celtis australis
Foi-me necessário decorar a designação em Latim dos lódãos para os encontrar num manual de árvores espanhol. Fiquei a saber que o fruto é doce e comestível e daqui a umas semanas penso comprová-lo. Outra vantagem de agora lhes conhecer a designação é que assim consigo mais imagens nas buscas pela internet. Tenham paciência. Os lódãos são árvores ornamentais, sem grande peso literário, mas são as árvores que eu tenho por perto e, naturalmente, tenho vindo a gostar cada vez mais delas.
As coisas que eu consigo com um nome em Latim :)
= imagem maior (aliás, enorme) aqui =
Origem? Esta página. A lista das imagens das árvores está aqui.
29.3.05
21.3.05
15.3.05
«Begin afresh, afresh, afresh.»
Sábado de madrugada, os lódãos em frente à minha casa tinham os ramos cheios de grãos gordos. Só isso, pareceu-me, embora tenha dito para dentro, depois de regressar da janela, que a noite cheirava como cheiram as noites na primavera. Suponho que algures no emaranhado de ramos das árvores já tinham rebentado folhas ou estavam nesse momento a rebentar, uma coisa não visível, só cheiro. Nunca antes tive uma casa em frente a lódãos. São uns vinte, velhos e altos. Ramos retorcidos. Muito retorcidos. De tal forma que quando as árvores estão despidas não se consegue ver a arquitectura do outro lado da praça, apenas a nuvem cinza acastanhada dos ramos. E à noite, no Inverno, facilmente eu acreditaria, ao vê-las tão paradas e negras, que estão atentas e conscientes. Mas o que sobretudo começa a misturar-se com a minha percepção das estações, de tal forma que me será difícil viver em frente a outras árvores, é o cheiro da rebentação destas folhas. Domingo de manhã ainda não as havia visíveis mas toda a praça estava verde. Hoje são visíveis, mínimas, e o cheiro está por toda a parte. Agora, quando abro as janelas para arejar a casa, misturado com o cheiro seco do sol, chega este das folhas novas dos lódãos: é doce, é morno e enche-nos os gestos de princípios.
«The trees are coming into leaf
Like something almost being said;
The recent buds relax and spread,
Their greenness is a kind of grief.
Is it that they are born again
And we grow old? No, they die too,
Their yearly trick of looking new
Is written down in rings of grain.
Yet still the unresting castles thresh
In fullgrown thickness every May.
Last year is dead, they seem to say,
Begin afresh, afresh, afresh.»
Philip Larkin - The Trees
6.2.05
23.1.05
15.1.05
4.1.05
As árvores #1
podiam estar nas palavras
ou podiam ser do olhar
- com ou sem óculos -
podiam encontrar-se no mercado
nos gritos e nas vozes
na banca das hortaliças
ou no chão, entre as escamas e a humidade dos peixes
- o cheiro da morte antecipa o do limão e o dos coentros
antecipa o chapéu, o sol e a sombra
antecipa a tua voz e os teus gestos indolentes, ao almoço,
o corpo vago e disperso do tamanho do terraço
ao longe
e vivo
sobretudo vivo -
mas só a máquina
- a que retém
a qualquer hora -
concebe
a nervura elástica
ou - se eu quiser mesmo dizer -
a nervura nervosa onde se fiam os meses
antes e depois nada passa do som
o som do sapato no chão
o som da porta do frigorífico a abrir-se
o som do motor do carro
- não importa em que movimento -
e - se eu quiser mesmo dizer - o silêncio grande
que nenhum outro sítio da cidade permite
(excepto esse entre os ramos
intransitável)

