O céu devia ter mais árvores. Devíamos encontrar mais árvores quando olhamos para cima. Os dias deviam ter mais horas. Mais sol. As paredes não são estruturas normais: também levam o vento. Devíamos estar mais vezes do lado de fora das paredes. A noite não devia ter tantos carros nem tantos postes de iluminação pública, devia ser mais escura, mais larga, mais silenciosa, mais fria, mais antiga, devia trazer os séculos todos, devia ser mais zelosa a introduzir-se nas casas, a atravessar as paredes, a entrar-nos nos ossos; devia impedir-nos o sono mais vezes. As ruas deviam ter mais jardins. Não devíamos poder ir a lado nenhum sem atravessar um jardim. Os jardins deviam interromper as ruas com álamos e com pássaros. O céu devia ter mais pássaros. A cidade cresce por cima de corpos sem pele. Devíamos demorar-nos mais naqueles que amamos – o resto é sombra, esquecimento, a rapidez dos relógios ao encontro da morte.
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